Lula e Boric criticam ‘nova Guerra Fria’ entre EUA e a China e discutem estratégia sobre minérios
O presidente do Chile, Gabriel Boric, e o presidente Lula (PT) durante reunião no palácio do Planalto. - Pedro Ladeira/Folhapress
O presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente do Chile, Gabriel Boric, criticaram o que veem como uma “nova Guerra Fria” entre Estados Unidos e China, gerada pelos tarifaços implementados por Donald Trump nas últimas semanas e pelas reações de Pequim.
Boric fez visita oficial ao Brasil na terça-feira (22) e cumpre agendas em Brasília com Lula.
Após reuniões com o chileno e sua equipe no Palácio do Planalto, o presidente brasileiro criticou o atual governo dos EUA por uma escalada protecionista que seria contrária “a tudo que foi falado para nós desde os anos 80, à globalização e ao livre comércio”.
“Todo mundo só falava em livre comércio e globalização e, de repente, nada disso vale a pena e o que vale a pena é o seguinte: é o protecionismo. Você não quer guerra fria e eu não quero guerra fria. Eu não quero fazer opção entre Estados Unidos ou China. Eu quero ter relações com os Estados Unidos, quero ter relação com a China”, disse Lula.
Embora em sua fala pública Boric tenha sido menos enfático do que Lula, dizendo que o Chile está contra uma guerra comercial e a “politização arbitrária do comércio”, na reunião privada o chileno também se referiu a uma “nova Guerra Fria”.
De acordo com pessoas presentes, Boric usou, no encontro fechado, um exemplo das relações sindicais para se referir ao momento atual, em que o tarifaço de Trump obrigou diferentes países a abrirem negociações individuais com os EUA.
Para Boric, a situação se assemelha a um empregado que negocia individualmente com seu empregador. “Não queremos que os maiores esmaguem os menores”, disse o presidente chileno a portas fechadas.
Brasil e Chile foram afetados pelo tarifaço lançado por Trump em 2 de abril. A alíquota imposta por Washington aos dois países foi de 10%. No caso do Chile, a principal preocupação com os efeitos de uma guerra comercial é sobre as exportações de minérios, principalmente o cobre.
Na reunião entre as duas equipes, ainda segundo participantes, Boric relatou ter discutido com Lula a criação de um grupo de trabalho para uma estratégia de longo prazo para os minerais críticos e terras raras, segundo ele algo particularmente importante no contexto geopolítico atual.
Minerais críticos são aqueles essenciais para a economia moderna, principalmente nas áreas de alta tecnologia, defesa e transição energética. Alguns exemplos são lítio, terras raras e níquel.
Em outro momento, Boric voltou ao tema e disse estar interessado em conhecer a experiência brasileira na área e como o governo Lula vê os vínculos dos minerais críticos com a disputa comercial entre americanos e chineses.
Nesse momento, de acordo com presentes, ele destacou que a maior parte do lítio exportado pelo Chile vai para a China, que por sua vez o reexporta aos EUA.
Do lado chileno, um dos objetivos de Boric com a visita é sinalizar para a diversificação dos parceiros comerciais do país diante da escalada da guerra comercial entre Washington e Pequim. O Chile é o sétimo parceiro comercial do Brasil, com trocas em 2024 que ultrapassaram US$ 11 bilhões.
Nesse sentido, tanto os governos de Boric como de Lula têm interesse na conclusão de ligações rodoviárias das chamadas rotas bioceânicas, para ligar o interior do Brasil com portos do Pacífico.
Durante a visita desta terça, autoridades chilenas destacaram que praticamente toda a exportação de minério do Chile para o Brasil ocorre por via marítima, de forma que a criação de rotas por terra tem potencial de aumentar o fluxo de vendas.
Lula voltou a falar sobre os impactos do tarifaço de Trump ao receber Boric no Itamaraty para um almoço oficial.
“Temos que fazer uma negociação, por mais difícil que seja”, declarou ele. “A gente não pode desistir de acreditar que somente o multilateralismo pode trazer um equilíbrio na relação comercial, na relação politica. A nós brasileiros não agrada essa disputa estabelecida pelo presidente Trump”.