Maduro age na ‘contramão’ de acordo sobre eleições, avaliam diplomatas brasileiros

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O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro

Por Filipe Matoso, Guilherme Balza

Diplomatas do Brasil ouvidos pela GloboNews na sexta-feira (16) avaliaram, na condição de anonimato, que o presidente venezuelano Nicolás Maduro está “esticando a corda” e agindo na “contramão” do acordo que prevê, entre outros pontos, eleições no país neste ano e a libertação de opositores presos.

Na quinta (15), o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Yvan Gil, informou que funcionários do Alto Comissariado de Direitos da Organização das Nações Unidas deverão deixar o país.

A medida foi anunciada após eles terem divulgado um relatório no qual afirmaram que o programa do governo venezuelano de combate à fome é ineficiente e suscetível a influências políticas.

Para o governo de Nicolás Maduro, o grupo agiu como advogado de “golpistas” e “terroristas”, acrescentando que os funcionários da ONU só poderão permanecer no país se retificarem o estudo.

Também nesta semana, o Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, os Estados Unidos e organizações humanitárias condenaram a prisão da ativista Rocío San Miguel.

Ela está na sede do serviço de inteligência, em Caracas. Rocío é conhecida por fazer denúncias sobre tortura sofrida por detidos pelo governo.

Em outra ação controversa, o Supremo Tribunal de Justiça, alinhado ao governo Maduro, inabilitou recentemente María Corina Machado, opositora de Maduro e até então candidata a presidente nas eleições deste ano.

A ativista venezuelana Rocío San Miguel, presa pelo regime de Maduro, em imagem de arquivo. — Foto: Fernando Llano/ AP
A ativista venezuelana Rocío San Miguel, presa pelo regime de Maduro, em imagem de arquivo. — Foto: Fernando Llano/ AP

Momento pede ‘cautela’

Segundo diplomatas ouvidos pela GloboNews, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou como estratégia a aproximação com Maduro ao longo de 2023 e costurou o Acordo de Barbados – que prevê, entre outros pontos, a realização de eleições neste ano e a libertação de opositores presos.

Agora, diante dos novos fatos no país vizinho, integrantes do governo brasileiro avaliam que a situação se agravou. E que, por isso, novas conversas devem acontecer.

Embora concordem que o momento pede “cautela”, as fontes divergem sobre o tom a ser adotado se o Brasil concluir que Maduro está agindo contra o processo eleitoral e descumprindo o acordo.

Para alguns diplomatas, seguindo a tradição, o país não deve adotar tom mais “duro”. “Não se trata de passar pano, mas, sim, de não queimar os canais, as possibilidades de diálogo”, afirmou um integrante da diplomacia brasileira.

Para outros, porém, o país deve mudar de postura e passar a ser mais crítico ao regime de Maduro.

Presidentes Lula e Maduro durante encontro em Brasília, em maio de 2023. — Foto: Ueslei Marcelino/Reuters
Presidentes Lula e Maduro durante encontro em Brasília, em maio de 2023. — Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Lula foi alvo de críticas

Em maio do ano passado, quando recebeu Maduro no Palácio do Planalto, o presidente Lula foi criticado após ter feito uma declaração à imprensa na qual disse que o presidente venezuelano era alvo de “narrativas” sobre a democracia no país.

“Acho que cabe à Venezuela mostrar sua narrativa para que possa efetivamente fazer pessoas mudarem de opinião. […] É preciso que você construa a sua narrativa, e eu acho que, por tudo o que conversamos, a sua narrativa vai ser a melhor do que a narrativa que eles têm contado contra você”, disse Lula a Maduro.

Na ocasião, diplomatas disseram que, embora o tom de Lula pudesse ser questionado, a estratégia era buscar uma aproximação com Maduro, o que, segundo eles, fazia ser necessária uma declaração mais amena.

Gilvânia Maria de Oliveira, indicada para atuar como embaixadora na Venezuela, durante sabatina no Senado Federal. — Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Gilvânia Maria de Oliveira, indicada para atuar como embaixadora na Venezuela, durante sabatina no Senado Federal. — Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Nova embaixadora

Após seis anos sem embaixador em Caracas, o Brasil indicou a diplomata Gilvânia Oliveira para o posto – ela já foi sabatinada e aprovada pelo Senado.

Segundo o Itamaraty, a diplomata já está na Venezuela e servirá como “ponto de apoio importante” em meio ao atual cenário no país.

Conforme relatos, ela deve “tomar pé” da situação local antes de o Brasil decidir os próximos passos em relação a Maduro.

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