Marceneiro morto por PM na saída do trabalho era religioso e tímido, contam colegas; policial que o matou é do mesmo batalhão dos envolvidos na morte de aluno de medicina
Guilherme Souza Dias, que foi morto por PM após sair do trabalho na Zona Sul de SP — Foto: Reprodução/redes sociais
O marceneiro Guilherme Dias Santos Ferreira, 26, morto com um tiro disparado por um PM de folga no último sábado (5), era conhecido por sua personalidade tranquila e sua fé cristã, de acordo com pessoas que conviveram com ele. Casado há pouco mais de um ano, guardou dinheiro para conseguir pagar pelo curso para obter uma CNH (Carteira Nacional de Habilitação), segundo colegas de trabalho.
Ferreira trabalhava há cerca de três anos na fábrica de camas Dream Box, em Parelheiros, na zona sul de São Paulo.
Ele tinha voltado recentemente das férias. Sábado tinha sido seu terceiro dia de trabalho desde que o período de descanso havia terminado.
“Ele era tranquilo, respeitoso, mais quieto do que os outros [funcionários], inclusive por ser muito religioso”, conta a comerciante Tais Ferreira, 31, que trabalha numa mercearia a menos de 150 metros de distância da fábrica de camas. O marceneiro fazia compras todos os dias na loja. Pacotes de bolacha, suco, achocolatado e paçoca com chocolate eram seus itens preferidos.
Amigos e conhecidos usaram palavras como respeitoso, carismático, trabalhador, puro e cristão para defini-lo. São-paulino fanático, gostava de falar sobre futebol e estava planejando ir a um jogo no estádio do MorumBis com os colegas de trabalho, segundo uma pessoa que trabalhava na empresa.
Esse funcionário, que pediu para não ser identificado por medo de represália, presenciou, em parte, a ação que resultou na morte de Ferreira.
Ele disse que saiu da empresa cerca de dez minutos após o grupo de funcionários em que estava Ferreira e fez o mesmo caminho, andando em direção a um ponto de ônibus na estrada Ecoturística de Parelheiros.
Gravações de câmeras de segurança mostraram quatro pessoas andando juntas na rua José Roschel Rodrigues, endereço da fábrica, na direção do ponto de ônibus. Era exatamente 22h30, dois minutos depois de Ferreira registrar sua saída e cinco minutos antes do horário de registro da ocorrência.
É comum que os funcionários andem em grupos até o ponto de ônibus ao deixar o local à noite, segundo moradores do bairro e colegas, devido à iluminação insuficiente da rua e o histórico de assaltos nas redondezas.
Ao chegar na estrada, a cerca de 800 metros da empresa, esse funcionário que pediu para não ser identificado viu uma viatura da PM, faixas de isolamento, o trânsito parado e pessoas no chão.
Uma das pessoas que havia saído da empresa junto com Ferreira estava de bruços e algemada. O corpo do marceneiro estava ao lado do colega, mas não foi reconhecido inicialmente.
Pouco antes, o policial Fábio Anderson Pereira de Almeida havia reagido a uma tentativa de roubo que teria sido efetuado por motociclistas. Ele fez disparos para dispersar os assaltantes. Em depoimento, o policial disse que minutos depois disparou novamente ao ver um suspeito se aproximando da moto.
Era o marceneiro, atingido na cabeça, enquanto estava de costas.
Membros da gerência da empresa foram até os policiais e relataram que o homem detido havia acabado de sair da empresa. Mostraram inclusive fotos do relógio de ponto —assim como Guilherme, o funcionário detido também havia registrado saída às 22h28 e publicado a imagem do equipamento em seu perfil no Whatsapp.
Os dois ouviram dos policiais que o funcionário era suspeito de roubo e que havia sido reconhecido pelo PM que havia disparado contra o grupo. Essa conversa foi registrada no boletim de ocorrência.
O funcionário algemado no chão contou que logo após o disparo o PM teria ordenado que ele ficasse deitado e o ameaçou de morte. Ele teria ficado cerca de três horas no asfalto ao lado do cadáver do amigo, segundo um dos membros da gerência da empresa.
Uma conversa por mensagens entre a direção da Dream Box, compartilhada com a reportagem, mostra o pesar dos colegas ao saber que o marceneiro estava morto. “Mataram o Gui”, diz uma das mensagens. “Não estou acreditando.”
Na delegacia, a Polícia Civil constatou que o funcionário não havia participado do assalto e o liberou. Na mochila de Ferreira, foram encontrados uma carteira, um celular, um livro e uma marmita.
PM que matou homem na saída do trabalho é do mesmo batalhão dos dois envolvidos na morte de aluno de medicina
O policial militar Fabio Anderson Pereira de Almeida, 35, apontado como responsável por matar Guilherme Dias Santos Ferreira, 26, na noite de sexta-feira (4), na estrada Ecoturística de Parelheiros, na zona sul de São Paulo, fará companhia no trabalho administrativo a outros dois PMs do mesmo batalhão afastados após a morte do estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta, 22, em novembro passado.
Os três atuam na 2ª Companhia do 12° Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, com sede na Vila Mariana, na capital.
Os casos, porém, guardam diferenças e semelhanças. Almeida estava de folga, enquanto os outros soldados estavam em serviço. Por outro lado, em ambos os casos os delegados do DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) entenderam que não havia a necessidade de manter os PMs presos.
O afastamento de Almeida foi confirmado pela gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) por meio de nota.
Os soldados Guilherme Augusto Macedo e Bruno Prado respondem pela morte de Acosta em liberdade, após o Ministério Público pedir as detenções e a Justiça negar. Uma primeira audiência está marcada para quinta-feira (10). O jovem foi baleado após dar um tapa no retrovisor da viatura e correr para um hotel. Nesse caso, uma delegada é alvo de investigação da Corregedoria da Polícia Civil pela ausência de fundamentação da não prisão em flagrante de Macedo, autor do tiro.
Já no caso do fim de semana passado, Guilherme Ferreira, que trabalhava em uma empresa de fabricação de móveis, havia acabado de deixar e a fábrica por volta das 22h30 de sexta e seguia para um ponto de ônibus, quando foi baleado na cabeça por Almeida, que o teria confundido com um ladrão.

O cabo Almeida, na PM desde 2011, preferiu se manter calado no DHPP, conforme ele, por orientação de seu advogado. A reportagem procurou a defesa do PM, que respondeu, que, por ora, não iria se manifestar.
Almeida, no entanto, teria relatado para colegas de farda ainda no local a sua versão sobre o ocorrido. Um PM contou para policiais civis ter ouvido de Almeida que ele foi abordado por criminosos em diversas motocicletas ao parar em um semáforo.
Os bandidos estariam armados e teriam anunciado o roubo. Temendo por sua vida, pelo fato de ser policial militar, o cabo teria dito que conseguiu sacar sua arma e disparar, não sabendo se atingiu alguém.
Os criminosos teriam fugido e deixado para trás uma moto Honda CBX 250 Twister de cor azul. Ainda de acordo com a narrativa do policial militar que apresentou a ocorrência, Almeida contou que foi surpreendido com o retorno de indivíduos a pé, provavelmente no intuito de pegar a motocicleta que ali havia sido deixada.
Foi neste momento que Almeida atirou e matou Ferreira, que nada tinha a ver com a tentativa de assalto.
Outras duas pessoas sem relação com o crime também foram vitimadas. Uma mulher foi baleada e socorrida por terceiros ao hospital. E um outro homem, colega de trabalho de Ferreira e que também caminhava até o ponto de ônibus, foi detido suspeito de ter participado do assalto. Na delegacia, diante da absoluta falta de provas, foi solto.
Em depoimento, uma testemunha disse ter sido vítima do mesmo grupo de ladrões. Ela teria conseguido escapar depois da intervenção do policial.
O delegado Kaue Danillo Granatta, do DHPP, classificou a morte de Ferreira como homicídio culposo, ou seja, sem intenção.
“Os elementos apurados e o cenário encontrado no atendimento de local de crime, no entanto, indicam que Guilherme não seria um dos criminosos e se aproximava com relativa pressa para se dirigir ao ponto de ônibus, situado cerca de 50 metros do local onde foi atingido”, escreveu o delegado.
Granatta estipulou uma fiança de R$ 6.500, que foi paga. Granatta, por ser plantonista, teve o papel apenas de registrar o fato. A ocorrência é investigada, agora, pela equipe D-Sul do DHPP, ou seja, chefiada por um outro delegado.
Linha do tempo da morte de Guilherme
4.jul.25 – 22h28 – Guilherme Dias Santos Ferreira, 26, registra saída no relógio-ponto da empresa Dream Box e caminha até o ponto de ônibus. Deillan Ezlan da Silva Oliveira, 21, também funcionário, bate o ponto em horário próximo;
– 22h35 – O policial militar de folga Fábio Anderson Pereira de Almeida, 35, passava pela região em sua moto Triumph Scrambler 400x verde, quando cinco motociclistas armados o cercam e anunciam roubo;
– Fábio reage a tiros, e o grupo foge abandonando na via uma Honda CBX 250;
– Guilherme surge correndo rumo ao ponto de ônibus, segundo amigos, para não perder a condução. Fábio o vê e dispara, segundo boletim de ocorrência, acreditando se tratar de um dos envolvidos na tentativa de assalto que estaria voltando à cena do crime. Guilherme morre a cerca de 50 metros do ponto;
– Uma mulher também é atingida pelos tiros e é socorrida por terceiros;
– Deillan, que também caminhava em direção ao ponto de ônibus, é detido como suspeito de participar do roubo. Acabou liberado na delegacia;
5.jul.25 – 4h38 – Perícia chega ao local do crime
– Com Guilherme foram encontrados carteira, celular, chaves, livro, remédios, itens de higiene, uma bolsa térmica e uma marmita com talheres;
– Um funcionário da Dream Box se apresenta e mostra vídeos e fotos de WhatsApp que apontam que Guilherme e Deillan tinham saído do trabalho às 22h28 e, portanto, não tinham ligação com o roubo;
14h52 – Fábio é autuado em flagrante por homicídio culposo, paga fiança de R$ 6.500 e é liberado;
Fonte: Boletim de ocorrência