Apoiadores de Donald Trump CAPITOLIO (1)

Por André Gustavo Stumpf

Nos anos quarenta, depois que o Brasil declarou guerra aos países do Eixo, Alemanha, Itália e Japão, ocorreram manifestações importantes dentro do país. Dois clubes de futebol mudaram de nome. Os dois se chamavam Palestra Itália. Um, em São Paulo, virou Palmeiras. Outro em Belo Horizonte, se transformou em Cruzeiro.

Várias atividades comerciais mudaram sua razão social. No Rio, no centro da cidade, o tradicional Zum Schlauch (A Serpentina, em alemão) passou a se chamar Bar Luiz. Getúlio Vargas impôs o ensino exclusivo do português como língua franca no Brasil e colocou as comunidades germânicas e italianas no sul do país sob severo controle.

Meu avô, dentista, nascido no Brasil, mas com sobrenome alemão, sofreu em Petrópolis. Seu pequeno consultório, na Avenida Centenário, foi incendiado, consequência do clima de ódio que se armou, depois que submarinos dos países do eixo começaram a afundar navios de bandeira brasileira nas costas do país e no curso para os portos norte-americanos.

Nos Estados Unidos, o presidente Franklin Roosevelt relocou comunidades nipônicas em campos de concentração distantes da costa. O objetivo foi defender o país após o ataque japonês à base naval de Pearl Harbour.

O senso comum, ou o direito coletivo, prevaleceu em todas essas atividades. O povo mudou os nomes dos clubes de futebol, atacou possíveis colaboradores pelo simples fato de terem sobrenome estrangeiro. Surgiu a Força Expedicionária Brasileira, a FEB, que lutou nos campos de guerra na Itália, ao lado do quinto Exército norte-americano. E trabalhou bem, segundo relato de quem acompanhou os brasileiros na luta contra o nazismo.

Aqui no Brasil, lei federal determinou que nas cidades costeiras, em todo o país, era proibido acender luzes depois do pôr do sol. Ou as residências deveriam ter grossas cortinas para evitar que a luz pudesse orientar navio ou submarino hostil.

As cidades ficaram no escuro. Cuidou-se da defesa da comunidade, e, em última instância, do país. Quem desrespeitou esta regra foi punido, acusado de displicente, ou pior, espião estrangeiro. A comunidade encontrou seus meios para se defender de algo que ameaçava o país como um todo.

Há diversos livros, brasileiros e estrangeiros, que relatam os planos do Terceiro Reich para América do Sul. As populações nestas regiões, consideradas mestiças, seriam cidadãos de segunda classe.

A ideia básica dos nazistas era criar um grande país que seria a atual Argentina ligada aos estados do sul do Brasil. Nada disso aconteceu porque o nazismo e o fascismo foram derrotados, com o auxílio do 25 mil pracinhas brasileiros que ajudaram a libertar a Itália.

Fica claro que o direito coletivo se sobrepõe ao individual. A guerra atual é contra a Covid 19. É essencial que os brasileiros se vacinem para impedir que o inimigo de toda população prospere dentro do país. Parece óbvio, mas a obviedade agride o negacionista.

O presidente Joe Biden disse tudo no incisivo discurso que fez, no Capitólio, um ano depois da invasão daquele prédio por bárbaros que pretendiam impedir a certificação de sua vitória eleitoral. Trump não admite até hoje a derrota. Ele é mau perdedor. Mentiu sobre o assunto e agiu de forma dissimulada, pois tomou as três doses da vacina.

O negacionismo sobrevive no Brasil como ação política chamada de direita com tempero religioso. As igrejas neopentecostais repetem aqui a temática das igrejas de televisão, que vicejam nos Estados Unidos.

Elas não têm vínculo histórico com o Brasil. Desembarcaram aqui como reprodução dos movimentos carismáticos norte-americanos e se aliaram aos partidários da direita local que atropela os fatos e cria narrativas descoladas da realidade.

O protestantismo autêntico chegou ao Brasil quando alemães e suíços vieram para o país por iniciativa de D. Pedro I, a partir de 1824. O primeiro pastor luterano chamava-se Sauerbronn, de Freiburg, Suíça. Instalou-se em Nova Friburgo, perto do Rio de Janeiro. Nada a ver com atuais religiões evangélicas.

A Segunda Guerra Mundial trouxe a novidade. A mentira contada mil vezes se transforma em verdade. É o que se chama hoje de narrativa. A ação violenta, ostensiva e até ofensiva do presidente Jair Bolsonaro contra a verdade dos fatos é a síntese desta história. Combina negacionismo com religião. Tudo se faz em nome do Altíssimo.

Guerra é a paz dos incapazes de reconhecer a realidade. É também a maneira de aparecer quase todos os dias no noticiário das televisões e manter unido o pequeno, mas barulhento, grupo de seguidores fanáticos do autoproclamado mito.

André Gustavo Stumpf é formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), onde lecionou Jornalismo por uma década. Foi repórter e chefe da sucursal de Brasília da Veja, nos anos setenta. Participou do grupo que criou a Isto É, da qual foi chefe da sucursal de Brasília. Trabalhou nos dois jornais de Brasília, foi diretor da TV Brasília e diretor de Jornalismo do Diário de Pernambuco, no Recife. Durante a Constituinte de 88, foi coordenador de política do Jornal do Brasil. Em 1984, em Washington, Estados Unidos, obteve o título de Master em Políticas Públicas (Master of International Public Policy) com especialização política na América Latina, da School of Advanced International Studies (SAIS). Atualmente escreve no Correio Braziliense.

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