Milhares morreram para isso acontecer, diz palestino libertado após duas décadas em prisão israelense
Palestinos libertados de prisões em Israel comemoram e acenam de ônibus em Khan Yunis, no sul de Gaza - Ramadan Abed - 13.out.25/Reuters
O palestino Issam al-Faroukh passou as duas últimas décadas de prisão em prisão. Parecia estar condenado à vida na cadeia. No dia 13, as autoridades israelenses transferiram Faroukh pela última vez, agora para o deserto do Negev —onde, para sua surpresa, foi liberto.
Faroukh, 52, foi um dos quase 2.000 palestinos soltos por Israel como parte dos acordos de cessar-fogo em Gaza. “É uma felicidade contida”, diz ao jornal Folha de S.Paulo por telefone. “Milhares de pessoas morreram para que isso acontecesse.” Dois anos de bombardeios israelenses mataram quase 70 mil pessoas em Gaza e devastaram a infraestrutura do território palestino.
Como tantos outros palestinos libertados na semana passada, Faroukh conta histórias de privações na cadeia. Durante a guerra, afirma, Israel endureceu suas medidas, que já eram severas. Faroukh conta que foi espancado diversas vezes e que recebia cada vez menos comida. “Houve uma punição coletiva dos prisioneiros motivada pela política.”
Faroukh tinha sido preso sob a acusação de matar um israelense na Cisjordânia durante a Segunda Intifada, um levante palestino que durou de 2000 a 2005. “Eles usam a palavra ‘terrorismo’, enquanto nós usamos a palavra ‘resistência’”, afirma. Dada a gravidade da acusação, ele foi exilado no Cairo e, pelo acordo, nunca mais poderá retornar a Ramallah, onde está a família. Faroukh era um dos 250 palestinos desta leva de libertados que já haviam sido condenados na Justiça.
A maioria dos palestinos soltos durante o cessar-fogo, porém, nunca havia sido acusada formalmente nem julgada. Israel chama essa controversa prática de “prisão administrativa”. É uma ferramenta que permite que as autoridades mantenham palestinos encarcerados por prazo indeterminado, sem precisar cumprir os requisitos legais.
Segundo a ONG israelense HaMoked, havia 11 mil palestinos detidos em Israel até as libertações da semana passada. Desse total, 3.500 estavam em prisão administrativa.
A detenção é uma experiência corriqueira na Palestina. Levantamentos indicam que 40% dos homens palestinos foram presos por Israel em algum momento de suas vidas. A soltura de 2.000 deles voltou a trazer o assunto ao debate internacional.
Em seus relatos à imprensa, palestinos dizem que foram mantidos em celas pequenas, escuras, úmidas e abarrotadas, onde contraíram infecções de pele que não puderam ser tratadas. Há também histórias de tortura e abuso sexual. Segundo as Nações Unidas, pelo menos 75 palestinos morreram em prisões israelenses nos últimos dois anos. Esse número inclui o cidadão brasileiro Walid Ahmad, morto em março, aos 17 anos.
A organização israelense de defesa dos direitos humanos B’Tselem afirma que a punição de prisioneiros palestinos faz parte de uma política oficial que inclui negar tratamento médico e alimentação. Israel nega todas essas acusações e refuta haver maus-tratos.
Nos últimos dias, circularam vídeos de prisioneiros palestinos reencontrando suas famílias, emocionados. Diversos deles foram recebidos como heróis.
Alguns se surpreenderam com o nível de devastação de Gaza. “É uma cena do Juízo Final”, disse Shadi Abu Sido, diante das câmeras, ao ser libertado. À imprensa Abu Sido afirmou que as forças israelenses o despiram, quebraram uma de suas costelas e o mantiveram vendado e algemado por dias.
Entre as imagens, uma das mais impactantes era a de um homem em cadeira de rodas e depois ajoelhado, aos prantos. Segurava nas mãos a pulseira que tinha feito na prisão para o aniversário de sua filha. Só depois de ser solto, segundo relatos, o homem soube que ela e toda a família haviam morrido durante a guerra.