Os irmãos não têm parentesco próximo com judeus, mas Yaakov acredita que a conversão dos três não foi uma coincidência.
“Acredito que tenha alguma relação espiritual com ser descendente Bnei Anussim (judeus que se ocultaram no passado e abandonaram o judaísmo pelas perseguições). Agora, de alguma maneira, acabamos retornando ao judaísmo. Digo isso porque fiz uma busca na árvore genealógica de nossa família até o ano de 1700 e encontrei fortes indícios.”
O primeiro a chegar no país foi Yaakov, em 2011. Ele tem cinco filhas, de idades que variam de três a doze anos. Depois, em 2016, veio o Adir, pai de dois meninos israelenses, um de três e outro de cinco anos. Por último, o Yehuda, que se mudou para Israel em 2021 e é pai de um menino de três anos e de uma recém-nascida.
Berçário improvisado
Yehuda Lopes relembra o parto da filha caçula, que nasceu no dia 18 de outubro de 2023, 11 dias após o início da guerra.
“Por causa da guerra, o hospital colocou o berçário em um refeitório, que é um lugar protegido. Era um local improvisado e bem lotado. No dia que minha filha nasceu, acredito que outros 50 bebês nasceram também. O lugar estava muito cheio, tinham mulheres nos corredores e um quarto que era para duas mães, tinham três. Foi tudo bem no improviso para manter a segurança dos recém-nascidos”, relata Yehuda.
A esposa de Yehuda, a também brasileira Stela Lopes, relata que o parto aconteceu na madrugada e, logo que a filha nasceu, conseguiu segurá-la por alguns instantes. Depois, a recém-nascida já foi levada para o berçário improvisado.
“Depois disso, eu não tive acesso a ela. O hospital informou que, por causa da guerra, os bebês ficaram lá no berçário, eu não fui no berçário porque eu estava de repouso, mas meu marido foi para lá. Minha filha ficou cerca de cinco horas no berçário, longe de mim. Não a amamentei e nem a vi nas primeiras horas de vida”, conta Stela.
A mãe da pequena Ayelet relembra que, durante a internação, as sirenes tocaram duas vezes. Nesses casos, a maternidade orientou as mães a colarem os bebês no berço com rodinhas e ir caminhando do quarto para o corredor. “Não podíamos carregá-los no colo.”
Além do berçário improvisado, a brasileira relembra a dificuldade para se esconder no bunker enquanto ainda estava grávida e sozinha com o filho mais velho, de três anos e meio.
“Minha barriga estava muito grande, a questão física foi muito difícil para mim, eu tentei controlar o emocional para não afetar a gravidez e a amamentação. Aqui, a gente tem de 45 segundos a 1 minuto para descer, é tudo muito rápido.”
Maria Helena Maciel, mãe de Yehuda Lopes, e Stela Lopes, grávida de oito meses, em uma praia na cidade de Ashkelom, Israel / Arquivo pessoal
O casal de brasileiros compara o momento do nascimento dos dois filhos: Shmuel Lopes nasceu em Votuporanga, interior de São Paulo, na primeira semana em que foi decretada a pandemia no Brasil, e Ayelet Lopes nasceu em Beersheva na primeira semana da guerra entre Israel e Hamas.
“Meu menino mais velho está bem ansioso dentro de casa porque não está tendo aula. A gente mora perto de uma avenida principal e quando passa uma ambulância ele já se assusta pensando que é uma sirene. Chega a doer o coração”, conta Yehuda. “Desde que começou a guerra, ele morde a blusa constantemente”, complementa Stela.
No dia 7 de outubro, quando o Hamas invadiu Israel, as sirenes tocavam com muita frequência. Por isso, a família, que mora no terceiro andar, decidiu passar o dia na casa do irmão de Yehuda, Adir Lopes, para facilitar a locomoção da esposa grávida.
Crianças sem aula
Desde o início da guerra, os filhos dos três brasileiros estão sem atividades escolares. Essa semana, a prefeitura de Beersheva divulgou um cronograma de volta às aulas que deve se iniciar no domingo.
A ideia, segundo o comunicado, é que os alunos fiquem até 10h no primeiro dia. Na segunda, eles ficam até 12h e, a partir de terça, ficam até 13h30 na escola.
Adir Lopes também falou com a CNN. Ele é pai de duas crianças, uma de três e outra de cinco anos, e se mudou para Israel há sete anos.
“Minha preocupação é com minha mulher e meus filhos, porque todo dia toca sirene lá em casa. Minha esposa fica sozinha com eles o tempo todo. Ela estava começando a aprender hebraico para entrar no mercado de trabalho e teve que interromper os estudos por causa da guerra.”
Adir trabalha em uma fábrica que produz tubulação de metal e conta que a empresa suspendeu as atividades nas primeiras 48h. Hoje, as coisas estão começando a normalizar. “A partir de domingo as aulas devem voltar, até pra tirar as crianças dessa prisão que é ficar em casa.”
Como explicar a guerra para os filhos?
Um terceiro irmão também mora no país e foi o primeiro a chegar em Israel, em 2011. Yaakov Lopes tem cinco filhas e relata a rotina da família em tempo de guerra: “Quando toca a sirene, eu pego a mais nova, a minha esposa pega a de quatro anos, e as outras três ficam na porta. Moro em um prédio de três andares e temos um bunker no subsolo.”
As filhas de Yaakov não têm acesso à televisão e não acompanham as imagens, mas os pais fazem questão de atualizar o status da guerra.
“Para elas, acaba sendo uma brincadeira, apesar de ser um momento crítico. Elas brincam e sempre respondem em hebraico o que seria um: ‘Sim, general’. É a forma que encontramos de mantê-las informadas.”
Yaakov Lopes e Naomi Lopes com suas cinco filhas; família brasileira vive em Israel / Arquivo pessoal
Volta para o Brasil
Nenhum dos três irmãos pretende voltar para o Brasil, apesar das dificuldades de criar as crianças no meio de uma guerra.
“Quero manter a economia do país e ajudar como puder. Ontem mesmo minha mulher buscou roupa de soldados para lavar lá em casa. A gente também contribui com doações de dinheiro e às vezes compra coisas para levar pra base dos soldados”, conta Adir Lopes.
Para Yaakov, não vai ser a guerra que vai fazer a família sair do país. “Israel é a nossa nação, a casa do povo judeu. É aqui que minhas filhas podem crescer em uma cultura judaica plena.”