Ministério da Agricultura apontou sérios riscos em modelo brasileiro de criação de aves

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aves aviaria

Relatório do Mapa aponta vácuo legal sobre métodos de produção de frango no país e reconhece que situação atual favorece o surgimento de doenças como a gripe aviária - Celio Messias 11.jun.2018/Folhapress

Um relatório produzido nesta semana pelo Ministério da Agricultura apontou que o atual modelo de criação de aves no Brasil é vulnerável a sérios problemas de saúde animal. O texto também destaca riscos sanitários e ambientais que podem facilitar o surgimento e a disseminação de doenças, como a gripe aviária.

Esta reportagem teve acesso ao documento, que acaba de ser concluído pelo Departamento de Saúde Animal da Secretaria de Defesa Agropecuária do ministério. O relatório mostra que, atualmente, existe um vácuo legal provocado pela falta de uma norma nacional que aponte regras sobre o bem-estar de aves na produção, o que seria um campo fértil para a influenza aviária.

Na sexta-feira (16), o Ministério da Agricultura confirmou a detecção do vírus em uma granja de aves comerciais em Montenegro, no Rio Grande do Sul. É o primeiro foco da doença registrado em sistema de avicultura comercial no país, disse a pasta, em comunicado. China e União Europeia suspenderam importações de proteína de frango brasileira pelos próximos 60 dias, de acordo com o ministro Carlos Fávaro.

Segundo o relatório, o sistema de produção usado atualmente no país, focado em reduzir custos e aumentar a produtividade, expõe as aves a situações de falta de espaço, calor excessivo, ventilação inadequada e uso abusivo de luz artificial. Tudo isso dificultaria o comportamento natural dos animais e os tornaria mais vulneráveis a doenças.

“Apesar dos benefícios financeiros e econômicos deste modelo [produção intensiva], o aumento da densidade resulta em estresse crônico nos animais, com impactos na saúde animal, na saúde humana e no ambiente. Animais com estresse crônico são menos resilientes, apresentando doenças recorrentes em consequência de práticas usuais e condições que lhes são estressantes”, afirma o relatório.

O documento do Ministério da Agricultura informa que medidas farmacêuticas vêm sendo usadas, com o objetivo de reduzir os prejuízos provocados por má condição, doenças e mortalidade, mas que isso pode trazer sérios impactos à saúde animal e pública.

“A análise de dados obtidos de vigilância e monitoramento de programas oficiais confirma o aumento da Resistência Antimicrobiana (RAM), com risco concreto de agravamento do problema no médio e longo prazo, e risco potencial de dificuldade de acesso a mercados para produtos nacionais (carne de aves, ovos e material genético)”, alerta o relatório.

A gripe aviária é causada por um vírus que se espalha com facilidade entre aves, especialmente em ambientes de alta densidade populacional e de estresse crônico nos animais, características comuns no Brasil, em locais de produção intensiva e que não seguem boas práticas de bem-estar animal.

O próprio setor produtivo, de acordo com o documento, chegou a apontar que as medidas e protocolos existentes hoje são insuficientes para melhorar as condições de vida dos animais.

“Esta condição representa um ambiente de concorrência desleal entre empresas que estão realmente ofertando bem-estar, com algum aumento de custo inicial, e aquelas que anunciam procedimentos que não representam melhoria das condições nas quais os animais estão submetidos”, relata o documento.

A consequência disso, conforme o próprio relatório, é que esse modelo de produção resulta em “maior risco de incidência de doenças”, além de “reincidência de doenças infecciosas em ambientes de aglomeração animal, uso aumentado e não sustentável de antimicrobianos na produção e tendência de aumento da multirresistência bacteriana”.

O Brasil é hoje o maior exportador mundial de carne de frango, responsável por quase 38% das vendas globais, e o segundo maior produtor do mundo, com mais de 5 bilhões de frangos abatidos por ano. O país também está entre os cinco maiores produtores de ovos. Apesar disso, ainda não há uma regra nacional específica sobre bem-estar animal na criação de aves.

O documento conclui que uma base normativa sobre o tema é necessária para uniformizar e padronizar as práticas produtivas básicas que respeitem o conceito de “Uma Só Saúde”, incluindo a questão animal, humana e ambiental.

Uma minuta de decreto sobre o tema já foi elaborada pelo ministério. “A alternativa escolhida foi a publicação de normativa de natureza obrigatória e não prescritiva, de implementação gradual, que considere tipo e porte da produção, com requisitos básicos para garantia de bem-estar na produção”, aponta o relatório.

Esta reportagem questionou o Ministério da Agricultura sobre o relatório, mas não houve resposta até a publicação desta notícia.

O QUE É GRIPE AVIÁRIA E QUAIS OS RISCOS

O QUE É O H5N1?
É uma variante do vírus da gripe comum, integrante da família influenza. A variação H5N1 é comum em aves.

QUAL A LETALIDADE EM AVES?
Extremamente alta, segundo o professor da Faculdade de Medicina Veterinária da USP Paulo Eduardo Brandão. O vírus é transmitido rapidamente, e o número de mortes costuma ser ainda maior em granjas, que concentram muitos animais em um espaço pequeno.

ESSE VÍRUS É NOVO?
Não. Um ancestral dele é conhecido desde 1996 por infectar gansos. No Brasil, há registro de casos em animais silvestres desde 2023.

É SEGURO CONSUMIR CARNE E OVOS DE AVES?
Sim. Comer produtos de um animal contaminado não transmite o vírus para humanos.

O VÍRUS PODE CONTAMINAR HUMANOS DE ALGUMA FORMA?
A forma de transmissão da influenza é via gotículas aerossóis de espirros e fezes. Assim, há uma pequena chance de isso acontecer por meio do contato direto com animais vivos contaminados ou locais de criação.

OUTROS ANIMAIS PODEM SER INFECTADOS?
Nos Estados Unidos, já houve registro de infecção de bovinos, e pessoas contraíram a doença após contato com o gado. No Chile, houve contaminação de leões marinhos.

O QUE FEZ O GOVERNO BRASILEIRO?
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) decretou emergência zoossanitária por 60 dias no município de Montenegro (RS). A pasta também trabalha no rastreio da produção do estabelecimento onde foi confirmado o caso.

POR QUE O VÍRUS PODE GERAR EMBARGOS COMERCIAIS?
Os países têm políticas de suspensão de importações de lugares onde houve detecção de gripe aviária para evitar a entrada do vírus em zonas livres da doença.

A SITUAÇÃO PODE SAIR DE CONTROLE?
Sim. Para a veterinária especialista em zoonoses Paula Giaffone, os Estados Unidos são um exemplo negativo. “Nos EUA, a situação está realmente complicada, o vírus se espalhou por granjas, atingiu rebanhos leiteiros e é encontrado até em testes de água, nos sistemas de distribuição de água.”

HÁ REFLEXOS PARA O CONSUMIDOR?
A gripe aviária já levou ao sacrifício de mais de 120 milhões de aves nos Estados Unidos e é um dos principais fatores responsáveis pela alta no preço dos ovos no país.

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