Ministério dos Povos Indígenas de Lula só se preocupou com festa e etnocídio continua, diz escritor
Daniel Munduruku
por Danielle Brant
O Ministério dos Povos Indígenas até agora se preocupou muito mais com “festas” e viagens internacionais do que com a atuação concreta e favor dos povos indígenas, afirma o escritor e ativista indígena Daniel Munduruku para a Folha de S. Paulo.
Na manhã de sexta-feira (12), em uma rede social, ele escreveu que “os dados sobre a saúde dos yanomami não deixam dúvidas: criar um ministério cirandeiro apenas para apagar incêndio é replicar a velha política do pão e circo”.
Os dados sobre a saúde dos Yanomami não deixam dúvidas: criar um ministério cirandeiro apenas para apagar incêndio é replicar a velha política do pão e circo. Muita festa, muita viagem internacional, muito discurso, muito do mesmo e nada do necessário.
Uma lástima!— DANIEL MUNDURUKU (@DMunduruku) January 12, 2024
Para a Folha de S. Paulo, ele diz que a persistente crise que atinge os yanomami dá a impressão de que “realmente o ministério se preocupou muito mais com a festa, com isso que eu chamei de cirandeiro, e menos com uma atuação prática”.
“A gente viu muito mais a ministra [Sônia Guajajara], sobretudo, andando por vários cantos do mundo e menos ela, de fato, atuando dentro do Brasil, dentro das áreas indígenas”, diz.
“Numa comparação boba, é como se eu me dedicasse mais a vender meus livros para que um público externo visse a beleza do que eu escrevo do que querer que meus livros tenham algum tipo de impacto dentro da sociedade brasileira”.
Ele reconhece que o ministério foi criado com pouco espaço orçamentário e elogia a atuação conjunta de aluas pastas, como a da Saúde. No entanto, diz que isso “não foi o suficiente para criar aquilo que o presidente [Lula] havia dito que ia fazer, que era realmente um atendimento muito especial para a população yanomami”.
“Meu povo munduruku está ali, passando pela mesma situação dos yanomami. Eles estão vivendo o mesmo drama, que é a invasão garimpeira”, continua.
“Em todos os lugares do brasil têm esses problemas acontecendo. E a gente não vê, de fato, uma mobilização para conter esse tipo de… continua sendo, né, um etnocídio. Agora dessa vez vindo de onde a gente menos espera, ou pelo menos sendo aceita de onde a gente menos espera.
Na avaliação dele, o ministério deveria chamar as lideranças mais velhas para conversar e dar um protagonismo aos indígenas.
“Eu diria até que talvez uma das urgências seria reformular, refazer, recriar o conselho dos povos indígenas, e que pudesse ser um conselho deliberativo também, ouvir e se esforçar para cumprir aquilo que essa população tem e que é preciso para manter minimamente a sua cultura”.
“E veja que a questão aqui não é só demarcação de terra, aliás, nós não tivemos quase demarcação de terra este ano, que era uma das promessas de campanha também. Então alguma coisa está fora da ordem”.
A crítica do ativista ocorreu na semana em que completa um ano que o governo do presidente Lula decretou emergência de saúde pública na região dos yanomami. O governo anunciou emergência de saúde em janeiro de 2023, após constatar falta de assistência sanitária dos povos que vivem no local e forte presença de garimpo ilegal. Na ocasião, o Ministério da Saúde constatou quadros graves de desnutrição entre os indígenas, sobretudo pelo uso de mercúrio no garimpo — substância que polui os rios com peixes que alimentam os habitantes.
Por meio de publicação nas redes sociais, o Ministério dos Povos Indígenas fez uma série de postagens colocando os investimentos do governo na região. A pasta ponderou que a situação na região ainda é “bastante delicada”, mas apontou medidas realizadas no território indígena. Ao finalizar o texto, aponta que é a “primeira vez que um governo sela um compromisso para garantir um enfrentamento sério a esse grave problema”.
Aproveitamos os questionamento sobre nossa criação, para convidar todas e todos a conhecerem as ações desse primeiro ano de MPI: https://t.co/qdm0qdFpAI.
— Ministério dos Povos Indígenas 🏹 (@mpovosindigenas) January 12, 2024