Ministro francês diz que venda de bonecas sexuais infantis na Shein é inaceitável; escândalo revela cantos obscuros dos marketplaces

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Protesto em loja da Shein em Paris - Sarah Meyssonnier - 5.nov.2025/Reuters

O ministro do Comércio Exterior da França, Nicolas Forissier, declarou nesta sexta-feira (7) que comunicou às autoridades da China que a venda de bonecas sexuais com aparência infantil na versão francesa do site da Shein era “inaceitável”.

A França iniciou nesta semana um procedimento para suspender a gigante do comércio eletrônico pela venda dessas bonecas. Na quarta-feira (5), a Shein abriu sua primeira loja física em Paris.

O conglomerado fundado na China, mas com sede em Singapura, suspendeu temporariamente a venda de produtos feitos por terceiros em seu site francês, exceto para itens de vestuário.

A França também pediu à União Europeia que tome medidas contra a Shein, que prometeu cooperar plenamente com as autoridades francesas.

O ministro francês visitou o centro financeiro de Xangai em virtude de uma importante feira de importação e declarou que expôs a posição de seu país ao vice-ministro do Comércio chinês, Ling Ji.

“Era importante explicar isso às autoridades chinesas com um espírito de cooperação”, disse Forissier.

O ministro afirmou que expressou sua preocupação “de que na plataforma Shein sejam encontrados produtos que não são aceitáveis”.

Segundo Forissier, a reunião transcorreu “muito bem” e ele acredita que seu interlocutor “entendeu perfeitamente a mensagem”.

Uma porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China recusou-se nesta sexta-feira a comentar o assunto.

“Por princípio, o governo chinês sempre exige que as empresas operem de acordo com as leis e regulamentos e que cumpram com suas responsabilidades sociais”, disse Mao Ning aos jornalistas em uma coletiva de imprensa.

Escândalo da boneca sexual na Shein revela cantos obscuros dos marketplaces

A repressão da França contra a Shein por causa de bonecas sexuais infantilizadas e armas proibidas está expondo falhas antigas dos ecommerces em policiar adequadamente vendedores terceirizados e bloquear vendas de produtos falsificados, ilegais, perigosos ou simplesmente ofensivos.

Os marketplaces —plataformas que permitem que vários vendedores exibam e remetam seus produtos globalmente— cresceram fortemente na última década, com Amazon, Alibaba, Temu e Shein gerando receitas enormes ao oferecer a consumidores uma variedade aparentemente infinita de produtos de baixo custo.

Mas nem todos os produtos estão em conformidade com as normas legais ou de segurança.

Em 2022, a Amazon foi criticada no Reino Unido por vender armas ilegais e, em 2018, por vender bonecas sexuais que se assemelhavam a crianças, os mesmos problemas que causaram agora um alvoroço na França, com o governo decidindo proibir a Shein.

“Como os mercados não estão policiando os produtos o tempo todo, é possível encontrar sósias ou até mesmo os mesmos produtos sendo vendidos com um nome diferente novamente, muito pouco tempo depois de terem sido retirados do mercado”, disse Sylvia Maurer, diretora de coordenação de defesa da organização europeia de consumidores BEUC.

“É um pouco como lutar contra moinhos de vento.”

Representantes da Shein estavam reunidos com a Comissão Europeia na sexta-feira (7), disse um porta-voz do executivo da UE, depois que a França pediu à Comissão que iniciasse uma investigação sobre a varejista com base em sua lei Digital Services Act que rege as plataformas online.

Em uma declaração à Reuters, a Shein disse que examina as listas de produtos para identificar quaisquer mercadorias proibidas ou violações de políticas.

Ela disse que usa ferramentas de detecção para ajudar a sinalizar possíveis problemas e tem mais de 900 funcionários trabalhando globalmente na moderação de conteúdo.

A Amazon disse que toma medidas para evitar que produtos proibidos sejam listados por vendedores terceirizados e monitora continuamente sua loja.

NINGUÉM PARA RESPONSABILIZAR

Os marketplaces, como intermediários, não são responsáveis pelos produtos que vendem, pois não são o “importador considerado” de acordo com a legislação da União Europeia, disse Maurer. Sua organização está entre as que pressionam para que isso mude, na próxima reforma alfandegária da UE.

Muitos fornecedores estrangeiros conseguem se safar vendendo em plataformas com supervisão mínima e nenhuma entidade sediada na UE, disse Gabriela da Costa, sócia do escritório de advocacia K&L Gates em Londres.

“Isso faz com que as autoridades não tenham ninguém na União para responsabilizar, o que é agravado pelas dificuldades práticas e de recursos para fazer cumprir a lei contra grandes volumes”, acrescentou.

As autoridades francesas estão investigando os mercados online Shein, Temu, AliExpress e Wish por supostas violações de regras que incluem a possibilidade de menores de idade acessarem conteúdo pornográfico por meio de seus mercados, informou o promotor de Paris na terça-feira (4).

A repressão da França à Shein ocorre em meio à crescente preocupação na Europa com as plataformas online que facilitam o aumento do fluxo de produtos chineses baratos para o bloco.

Shein, Temu, AliExpress e Amazon Haul enviam produtos de fábricas chinesas diretamente aos consumidores sem pagar taxas alfandegárias, já que a UE as dispensa para pacotes de comércio eletrônico abaixo de 150 euros (US$ 174,93).

Cerca de 4,6 bilhões de pacotes de comércio eletrônico de baixo valor foram importados para a UE em 2024, o dobro do número em 2023.

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