Missão da Nasa à Lua provoca reflexões sobre a existência humana
Astronautas da Artemis II capturam primeiras imagens da lua — Foto: Reprodução/Nasa
No início, a Artemis 2 era sobre ciência. A missão, que terminou na sexta-feira (10) com uma amerissagem tranquila no oceano Pacífico, levou quatro astronautas ao redor da Lua. Eles coletaram dados, tiraram fotografias e testaram sistemas de suporte à vida.
Mas para os próprios astronautas, e milhões de pessoas que os acompanharam a centenas de milhares de quilômetros de distância, a missão também provocou reflexões sobre questões mais profundas.
“Você simplesmente olha para cima e sente admiração, grandiosidade e pequenez ao mesmo tempo”, disse Jim Davis, pastor na cidade de Orlando, Flórida. Ele jantava em um restaurante com um pequeno grupo de sua igreja quando a missão foi lançada, em 1º de abril. O grupo saiu para o estacionamento para admirar o foguete subindo em direção ao céu no início da noite.
Por alguns dias, as pessoas admiraram a vastidão do Universo. A fragilidade e a interdependência da espécie humana. A grandiosidade absoluta da Lua.
“Tive uma sensação avassaladora de emoção ao olhar para a Lua”, relatou Christina Koch, 47, especialista de missão da Artemis 2, ao controle de missão. “Durou apenas um ou dois segundos, e na verdade não consegui fazer acontecer de novo, mas algo me transportou de repente para a paisagem lunar e ela se tornou real.”
Para muitas pessoas na Terra, a missão foi um breve lembrete da escala imensa do espaço sideral e um convite para contemplar tanto nosso poder quanto nossa impotência. É um paradoxo que cientistas, filósofos e poetas tentam capturar há séculos.
“Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a Lua e as estrelas que estabeleceste, que são os seres humanos para que deles te lembres, os mortais para que com eles te importes?”, perguntou a Deus um escritor do Livro dos Salmos.
“Quando busco as inúmeras espirais giratórias das estrelas, não tenho mais os pés na Terra, mas estou ao lado do próprio Zeus”, diz um texto atribuído ao astrônomo Ptolomeu, do século 2º.
Andrew Davison, teólogo da Universidade de Oxford, disse que uma das “grandes provocações” do Cosmos é que, nele, “os seres humanos parecem incrivelmente pequenos, mas ao mesmo tempo ele testemunha nossa grandeza”.
“Somos um tipo de ser que pode ter todo esse Universo dentro de nós, em nossos pensamentos”, acrescentou ele.
Para muitos astronautas, o que começa como um empreendimento científico se torna algo espiritual. Frank White, filósofo espacial, cunhou o termo “efeito de visão geral” em 1987 para descrever a mudança de perspectiva que alguns astronautas diziam experimentar ao ver a Terra como apenas uma pequena esfera em uma extensão infinita.
Ron Garan assistiu ao pouso da Apollo 11 na Lua em 1969 quando era um menino, junto com sua família, e ficou impressionado com a sensação de que “tínhamos acabado de nos tornar uma espécie diferente”. Durante milênios de história humana, toda a vida na Terra estava confinada aqui. Então, de repente, as regras mudaram, os limites se expandiram.
Garan cresceu e se tornou astronauta, passando seis meses na Estação Espacial Internacional (ISS) em 2011. No espaço, ele foi tomado pela percepção de que todos na Terra também já estão no espaço, juntos.
Agora de volta ao solo firme e trabalhando como consultor e escritor, ele atribui o impacto emocional das viagens espaciais em parte ao ambiente de microgravidade. Se uma pessoa está sentada em uma praia observando o pôr do sol, ou está à beira do Grand Canyon, a gravidade na Terra a conecta à cena que está admirando, disse Garan.
“Mas quando eu estava no espaço, pela primeira vez na minha vida, eu estava do lado de fora da obra-prima olhando para dentro”, disse ele. “Isso muda tudo.”
Garan comparou a viagem espacial a uma experiência psicodélica (embora tenha se recusado a dizer se conhecia isso em primeira mão). Ao longo dos anos, astronautas descreveram ter chorado, adorado a Deus e experimentado sentimentos completamente novos de um deslumbramento quase incorpóreo enquanto estavam no espaço.
Quando o piloto da Apollo 14, Edgar Mitchell, estava voltando da Lua em 1971, ele pensou que “as moléculas do meu corpo e as moléculas da espaçonave haviam sido fabricadas em uma geração antiga de estrelas”, contou mais tarde a um entrevistador. “Foi uma experiência visceral subjetiva acompanhada de êxtase.”
Os astronautas da Artemis 2 pareciam, por vezes, passar por realinhamentos de realidade igualmente transformadores.
“Vocês estão falando com a gente porque estamos em uma nave espacial muito longe da Terra”, refletiu o piloto Victor Glover, 49, em uma entrevista à CBS News no domingo de Páscoa. “Mas vocês estão em uma nave espacial chamada Terra, que foi criada para nos dar um lugar para viver no Universo, no Cosmos.”
Mas as epifanias celestiais sempre estiveram acessíveis àqueles que não podem viajar fisicamente para fora da atmosfera terrestre.
“Desde o surgimento da nossa espécie, toda sociedade humana olhou para as estrelas”, disse Jo Marchant, autora de “The Human Cosmos: Civilization and the Stars”.
A contemplação das estrelas influenciou a religião, a filosofia, a arte, a ciência e a política. A descoberta de Isaac Newton de que as leis do movimento e da gravidade afetam tudo igualmente influenciou as crenças democráticas de que reis e plebeus deveriam estar sujeitos às mesmas regras, segundo Marchant.
Mas, com o avanço da poluição luminosa e das distrações das telas, os seres humanos no século 21 provavelmente passam menos tempo contemplando o céu noturno do que em qualquer outra época.