Mortos em protestos no Irã passam de 500, diz ONG; número já é semelhante ao dos atos de 2022
Pessoas observam corpos de mortos em protestos colocados em sacos do lado de fora de centro de perícia perto de Teerã - Mídias sociais/Reuters
O Irã advertiu o presidente americano Donald Trump que qualquer ataque dos Estados Unidos levaria Teerã a contra-atacar e mirar Israel e bases militares regionais americanas como “alvos legítimos”. O presidente do parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, fez o alerta neste domingo (11).
De acordo com a ONG de direitos humanos Hrana, baseada nos EUA, o número de mortes nos protestos que se espalharam por cidades iranianas subiu para mais de 500 desde o dia 28 de dezembro, que marcou o início dos atos —a contagem da entidade mais que quadruplicou em relação ao começo deste domingo, quando era de 116 e depois passou a 203.
Segundo a Hrana, há pelo menos 538 mortos, dos quais 490 manifestantes e 48 membros de forças de segurança. O número de presos, ainda de acordo com a ONG, já supera 10 mil. Não é possível confirmar de forma independente esses números. O regime até agora não divulgou balanço oficial de vítimas.
Em imagens divulgadas nas redes sociais, cuja autenticidade não pode ser checada, filas de cadáveres em sacos foram formadas do lado de fora de um instituto de perícia forense na cidade de Kahrizak, perto de Teerã.
A cifra de vítimas registrada até agora já se equipara aos mortos nos protestos de 2022, até então os maiores e mais letais na história recente do país. De acordo com outra ONG, a Iran Human Rights, sediada na Noruega, 551 pessoas morreram, e outras 22 foram classificadas como mortes suspeitas, durante aquela onda de manifestações que durou meses. O estopim foi a morte da iraniana Mahsa Amini, sob custódia policial, depois de ela ser detida sob acusação de não vestir corretamente o véu islâmico.
“Sejamos claros: no caso de um ataque ao Irã, os territórios ocupados (Israel), bem como todas as bases e navios dos EUA, serão nosso alvo legítimo”, disse Qalibaf, ex-comandante da Guarda Revolucionária, uma tropa de elite do Irã.
Diante desse cenário, Israel está em estado de alerta máximo para a possibilidade de uma intervenção no Irã em apoio às manifestações, disseram em anonimato três autoridades israelenses. No sábado (10), o presidente americano Donald Trump disse que os Estados Unidos estão “prontos para ajudar” os manifestantes, além de outras ameaças de interferência.
Também no sábado (10), o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, conversou por telefone com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, sobre a possibilidade de intervenção, de acordo com funcionário de Israel que participou da reunião. Uma autoridade do governo americano confirmou que os dois conversaram, mas não informou quais tópicos foram discutidos.
O regime tem acusado os EUA e Israel de fomentarem os atos, um discurso reforçado neste domingo pelo presidente Masoud Pezeshkian em entrevista à TV estatal. Segundo ele, Washington e Tel Aviv querem disseminar “caos e desordem” ao ordenarem protestos. Ele declarou que os iranianos precisam se distanciar dos “agitadores e terroristas”. Também convocou para esta segunda-feira (12) uma “marcha nacional de resistência” para denunciar a violência que, segundo o regime, tem sido cometida por “criminosos terroristas urbanos”.
O regime também decretou três dias de luto nacional pelos “mártires”, incluindo os membros das forças de segurança.
Israel e Irã travaram uma guerra de 12 dias em junho do ano passado, na qual os EUA se juntaram a Tel Aviv e promoveram ataques aéreos contra instalações nucleares do regime. Teerã retaliou, disparando mísseis contra uma base aérea americana no Qatar.
As autoridades iranianas intensificaram os esforços para conter os distúrbios que se espalharam pelo Irã desde 28 de dezembro.
Os protestos começaram em resposta à inflação crescente, antes de se voltarem contra o establishment clerical que governa desde a Revolução Islâmica de 1979.
O fluxo de informações do Irã foi prejudicado por um apagão de internet imposto pelas autoridades desde quinta-feira (8). O observatório de monitoramento da internet Netblocks relatou que os níveis de conectividade nacional permaneceram em cerca de 1% do normal.
Um vídeo nas redes sociais postado no sábado (10) mostrava grandes multidões reunidas no bairro de Punak, em Teerã, à noite, batendo ritmicamente nos corrimãos de uma ponte ou outros objetos metálicos em um aparente sinal de protesto.
A mídia estatal iraniana transmitiu procissões fúnebres em cidades do oeste iraniano, como Gachsaran e Yasuj, de membros das forças de segurança mortos nos protestos.
A TV estatal relatou que 30 membros das forças de segurança seriam enterrados na cidade central de Isfahan, e que seis membros das forças de segurança foram mortos em Kermanshah, no oeste. A mídia oficial também relatou que uma mesquita foi incendiada por manifestantes em Mashhad, no nordeste, na noite de sábado.
A Guarda Revolucionária acusou “terroristas” de atacarem instalações de segurança no sábado
Uma alta autoridade de inteligência dos Estados Unidos descreveu no sábado a situação no Irã como um “jogo de resistência”. A oposição estava tentando manter a pressão até que figuras-chave do regime fugissem ou mudassem de lado, enquanto as autoridades tentavam semear medo suficiente para limpar as ruas sem dar aos Estados Unidos justificativa para intervir, disse a autoridade.
Israel não sinalizou desejo de atuar na crise, com as tensões entre os dois arqui-inimigos elevadas devido às preocupações de Tel Aviv com os programas nuclear e de mísseis balísticos do Irã.
Em uma entrevista à revista The Economist publicada na sexta-feira (9), Netanyahu disse que haveria consequências horríveis para o Irã se atacasse Israel. Aludindo aos protestos, ele disse: “Quanto a todo o resto, acho que devemos ver o que está acontecendo dentro do Irã”.