Na Conferência de Munique, Europa teme futuro sem aliança automática com os EUA
O vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance - Leah Millis/Reuters
Depois de décadas em que a aliança americana com a Europa era algo dado como garantido, as declarações do vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, na Conferência de Segurança de Munique na sexta-feira (14) deixaram os líderes do continente em choque.
Não só o guarda-chuva militar está em dúvida —vide as conversas entre Donald Trump e Vladimir Putin que apontam para um acordo sobre a Guerra da Ucrânia que até não incluiriam a Europa—, como Vance mostrou que os EUA podem ser uma força de desestabilização interna no bloco.
Nos dois dias da conferência, que reúne num hotel em Munique algumas das principais lideranças políticas e militares dos dois lados do Atlântico, a principal preocupação dos europeus passou a ser não ficar de fora das negociações de paz que podem reconfigurar o mapa do continente.
O pleito esteve no discurso de praticamente todos os líderes da União Europeia (UE) —que também demonstraram um claro incômodo com o discurso do vice de Trump.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, defendeu que qualquer entendimento para a paz precisa respeitar o sacrifício dos ucranianos.
Já o presidente do Conselho Europeu, António Costa, disse que o bloco não vai desistir da Ucrânia e, numa referência às informações que surgiram após a conversa de Trump com Putin, afirmou que fazer concessões na etapa inicial das conversas é um grande erro.
“Só a Ucrânia pode definir quando há condições para negociar”, afirmou. “Não haverá uma negociação com credibilidade ou bem-sucedida sem a Ucrânia e a UE.”
O próprio presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, exortou no sábado (15) os europeus a se prepararem para um cenário de redução do auxílio militar de Washington. “Eu não acredito em garantias de segurança sem os EUA, mas eles só darão essas garantias se a Europa também as der”, declarou.
O senador republicano Lindsey Graham adicionou o componente transacional que permeia todos os aspectos da política externa de Donald Trump: disse que Zelenski deveria assinar um acordo sobre a exploração de minerais raros pelos EUA porque, em caso de agressão, o presidente americano teria interesses materiais a defender ali.
Zelenskiy, por sua vez, disse que o acordo proposto por Washington sobre o tema não continha as provisões de segurança que Kiev precisa. Segundo três fontes ouvidas pela Reuters, os EUA propuseram assumir a propriedade de 50% dos minerais raros da Ucrânia.
Questionado sobre qual era o problema com o documento dos EUA, Zelenskiy afirmou que “não está em nosso interesse hoje, não está no interesse de uma Ucrânia soberana.”
“Não há coisas muito concretas sobre garantias de segurança neste documento. Isso para mim é muito importante: a conexão entre algum tipo de garantias de segurança e algum tipo de investimento”, prosseguiu.
De acordo com a Reuters, os ucranianos querem receber garantias de que os EUA dissuadiram a Rússia de iniciar uma nova invasão ao país enquanto um acordo de paz é costurado.
O profundo impacto do discurso de Vance ainda repercutiu em praticamente todas as sessões de debate que ocorreram.
As conversas nas sessões e nos corredores da Conferência Munique deixaram de passar por uma solução militar ou pela expectativa de avanços ucranianos no campo de batalha. No seu lugar, influenciados pelo enfraquecimento da aliança transatlântica, diversos líderes defenderam um aumento expressivo nos seus gastos com defesa da Europa —se preciso, com a flexibilização de regras fiscais.
Segundo a agência Reuters, a França está discutindo com seus aliados a possibilidade de realizar uma reunião informal entre líderes europeus sobre a Ucrânia, embora nada tenha sido decidido. A informação foi divulgada por um funcionário da presidência francesa no sábado (15).
Em um painel durante a conferência, o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radoslaw Sikorski, disse que o presidente francês, Emmanuel Macron, havia convocado uma cúpula de líderes europeus em Paris.
“O presidente Trump tem um método de operação que os russos chamam de reconhecimento através da batalha. Você avança e vê o que acontece, e então muda sua posição, táticas legítimas. E precisamos responder”, disse Sikorski.
“E estou muito satisfeito que o presidente Macron tenha convocado nossos líderes para Paris amanhã [domingo], e espero que eles tratem isso de maneira muito séria.”
O funcionário da presidência francesa disse, porém, que, se houver tal cúpula, não será neste domingo (16).
“Estou satisfeito que o primeiro-Ministro (polonês) @donaldtusk irá na segunda-feira, a convite do presidente @EmmanuelMacron, para uma reunião de líderes europeus. Precisamos mostrar nossa força e unidade”, escreveu Sikorski mais tarde no X.
Não estava claro se o convite seria enviado apenas aos estados membros da União Europeia ou de forma mais ampla e se o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, seria convidado.
O discurso de Vance assustou os europeus não só pelo fato de a Ucrânia ter sido ignorada. A acusação de que a maior ameaça hoje na Europa são as políticas de regulação das redes sociais —a ameaça que vem de dentro, nas palavras de Vance—, foi interpretada como uma interferência direta na política europeia.
As críticas dos europeus só aumentaram depois que Vance se encontrou com Alice Weidel, do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD), a poucos dias das eleições no país.