Nordeste e Amazônia são duas das regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas; leia análise
Seca e Fome no Nordeste
Por Paulo Artaxo

Algumas discussões relevantes no relatório são aumento dos eventos climáticos extremos, redução da nossa capacidade de produzir alimentos, impactos nas cidades, aumento do nível do mar que afeta todas as áreas costeiras, ondas de calor e seus impactos na saúde humana, comprometimento dos serviços ecossistêmicos.
Regiões tropicais, como o Brasil, são particularmente vulneráveis. O calor e a umidade ultrapassariam os limites da capacidade de sobrevivência humana sem cortes nas emissões de gases de efeito estufa. Duas regiões brasileiras são particularmente vulneráveis: o Nordeste, onde a queda de 22% na chuva, que já é pouca, combinada com aumento de temperatura de 3°C a 4°C, pode tornar a região semidesértica. A Amazônia, que é o maior reservatório de carbono de todas as regiões continentais, pode se tornar uma fonte de carbono, lançando parte dos 120 bilhões de toneladas de carbono que o ecossistema contém, agravando o efeito estufa.
A agricultura brasileira pode ser fortemente impactada, com queda forte na chuva, aliada ao aumento da temperatura e de eventos climáticos extremos. Isso mostra que o Brasil tem que repensar o seu modelo de desenvolvimento econômico. Nossas cidades e áreas costeiras também têm vulnerabilidades importantes que precisam ser equacionadas em um plano de adaptação climática.
Plantação de soja danificada pela seca
O relatório aponta que os riscos e as vulnerabilidades de nosso sistema socioeconômico são enormes, particularmente para a população mais carente e que vive em regiões de risco climático. Nosso sistema energético, dependente da chuva e do clima, precisa ser redesenhado, com maior geração de energia eólica e solar. Se quisermos construir uma sociedade minimamente sustentável, é fundamental que seja implementado planos de adaptação às mudanças climáticas, que contemple também a redução das enormes desigualdades econômicas. O Brasil, signatário do Acordo Paris e em fase de implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS), precisa levar a sério as mudanças climáticas se quiser ter um potencial de crescimento econômico, pois os desafios são enormes, e muitos dos impactos ambientais e em nossa sociedade são irreversíveis.
*É autor-líder de um dos capítulos do relatório do IPCC e professor da Universidade de São Paulo (USP).