Novo líder supremo do Irã é figura misteriosa mesmo dentro do país
Imagem do novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, é mostrada em tela em Teerã, após sua escolha - Majid Asgaripour/Wana via Reuters
por The New York Times
A nomeação de Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, como novo líder supremo do Irã sinaliza a continuidade do governo teocrático linha-dura enquanto ataques aéreos de Israel e Estados Unidos continuam atingindo o país. Mojtaba, porém, é uma espécie de mistério mesmo dentro do Irã.
Ele tem sido uma figura influente nos bastidores do poder, coordenando operações militares e de inteligência no gabinete de seu pai, morto no sábado (28). Sabe-se que ele tem laços muito estreitos com a poderosa Guarda Revolucionária do Irã e era considerado o candidato favorito deles.
Sua personalidade ou posições políticas fora do círculo íntimo de seu pai não são conhecidas. Ele raramente fala ou aparece em público. E agora, assumirá o comando não apenas como a nova autoridade religiosa e política do Irã, mas também como comandante-chefe de suas Forças Armadas.
Vali Nasr, especialista em Irã e islamismo xiita na Universidade Johns Hopkins, diz que Mojtaba seria uma escolha surpreendente, mas reveladora.
“A escolha de Mojtaba é uma escolha de continuidade com seu pai, e também ele está mais preparado do que outros candidatos para consolidar rapidamente o poder e assumir o controle do sistema”, afirma Nasr. Ele acrescenta que o filho de Khamenei era considerado um sucessor há muito tempo; mas nos últimos dois anos, ele parecia ter saído do radar.
O pai havia indicado a conselheiros próximos que não queria que seu filho o sucedesse para não tornar o cargo algo hereditário, de acordo com três altos funcionários iranianos familiarizados com Khamenei e o processo de seleção. Eles falaram sob condição de anonimato para discutir questões internas sensíveis.
Afinal, a Revolução Islâmica de 1979 havia derrubado uma monarquia com a promessa de acabar com a transferência hereditária de poder e devolvê-lo ao povo.
Mas a ascensão de Mojtaba sugere que aqueles nos círculos de poder do Irã —os clérigos seniores, a Guarda e políticos influentes, como o chefe do Conselho de Segurança Nacional, Ali Larijani— cerraram fileiras em um momento de crise aguda e guerra.
Larijani, um político veterano pragmático que assumiu o centro do palco na condução do país, e Mojtaba são velhos aliados e amigos. Ambos também são influentes dentro das Forças Armadas iranianas.
Durante as deliberações da Assembleia de Especialistas, que elegeu o novo líder, a maioria dos clérigos seniores pressionou pela nomeação de Mojtaba, argumentando que ele tinha as qualificações necessárias para conduzir o Irã neste momento, de acordo com os três funcionários iranianos. Alguns clérigos disseram que, depois que o aiatolá foi morto pelos EUA e Israel, escolher seu filho honraria seu legado.
“Mojtaba é a escolha mais sábia agora porque ele está intimamente familiarizado com a gestão e coordenação dos aparatos de segurança e militares”, diz Mehdi Rahmati, analista em Teerã. “Ele já estava encarregado disso.”
Mas Rahmati reconheceu que a nomeação carrega o risco de polarizar ainda mais uma população que está profundamente dividida, com muitos iranianos profundamente opostos à República Islâmica.
Khamenei pai tinha a palavra final em todas as principais questões de Estado. Ele mostrou pouca flexibilidade em reformas domésticas e ofereceu poucas concessões nas negociações nucleares com Washington. Ele ordenou a repressão letal aos protestos nacionais em janeiro que pediam o fim de seu governo. As forças de segurança mataram pelo menos 7.000 pessoas durante essa repressão, de acordo com grupos de direitos humanos que dizem que os números podem aumentar significativamente quando a verificação for concluída.
Desde que a guerra começou, ataques aéreos americanos e israelenses mataram não apenas o pai de Mojtaba, mas também sua esposa, Zahra Adel; sua mãe, Mansoureh Khojasteh Bagherzadeh; e um filho, disse o regime iraniano.
Outros candidatos considerados finalistas para o papel de líder supremo foram Alireza Arafi, clérigo e jurista que fazia parte do conselho de transição de liderança de três pessoas nomeado após Ali Khamenei ser morto, e Seyed Hassan Khomeini, neto do pai fundador da Revolução Islâmica, o aiatolá Ruhollah Khomeini.
Arafi e Mojtaba Khomeini são vistos como moderados, sendo o último próximo da facção política reformista marginalizada no Irã.
Alguns analistas sustentam que Mojtaba ainda pode se inclinar para reformas, apesar do estilo de seu pai. Eles argumentam que ele é de uma geração mais jovem e pragmática de clérigos e, por causa de sua linhagem, enfrentaria menos resistência das facções linha-dura e conservadoras.