O desgoverno da deseconomia (por Ricardo Guedes)

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Foto: Michael Melo/Metrópoles

Final de ano. A única coisa que não se poderia esperar de um governo supostamente monetarista e liberal é a perda do controle da inflação. Há 28 anos que estamos com a economia estável, desde 1994 com o Plano Real, em um país que desde o Império já teve 12 moedas circulantes. Hoje, a inflação está perto dos 11%, consideradas todas as variações de preço na economia como bens de capital e outros setores, e acima de 30% em bens e serviços de primeira necessidade, massacrando o consumidor. Da carne ao ovo, do ovo à carniça.

Adam Smith em A Riqueza das Nações diz que o mercado, tendência natural do homem, deve ser mantido sem interferências externas, pela “mão invisível do mercado”. Milton Friedman, um dos pais do liberalismo moderno, diz que a inflação é sempre um fenômeno monetário, devido ao aumento de dinheiro circulante ou de meios de pagamento sem contrapartida de produto, na intervenção do governo com propósitos políticos.

Na reunião de Bretton Woods um ano antes do final da Segunda Guerra Mundial foram sugeridos parâmetros básicos para o melhor desempenho e controle da economia internacional. Em 1945, foi criada a ONU para a mediação política entre os países, o Banco Mundial para o fomento ao desenvolvimento, e o FMI para a estabilidade monetária das economias. Entrar em atrito com o FMI, baluarte internacional do liberalismo, por um governo supostamente liberal, é no mínimo incompreensível e contraditório,

No Brasil de hoje vê-se o inverso do liberalismo por liberalistas, em um estado autocrático e sem critérios no trato da economia. É verdade que nos países hoje se procuram coadunar políticas de mercado com políticas keynesianas. Mas aqui não se tem nada, nem mercado, nem keynesianismo, na falta de uma política definida.

O Brasil da campanha política é muito diferente do Brasil da economia atual. Em 2018, prometia-se a privatização das empresas públicas e liquidação do déficit do governo o que iria gerar uma propulsão da economia em um ímpeto nunca dantes visto na história do país, com o crescimento de 8% do PIB logo em seu primeiro ano. Ao contrário, o PIB do Brasil em dólares correntes caiu 2,0% em 2019, e 25,8% em 2020, acumulando perdas irreparáveis para a nossa economia.

Os revezes da política econômica do governo são muitos, por falta de apoio do Congresso e, principalmente, do próprio Palacio do Planalto. O pouco que foi feito, como a reforma da previdência, provém do governo Temer. As reformas tributária e administrativa não deram um só passo. No quadro do Ministério da Economia, mais de 20 pessoas que ocupavam cargos fundamentais se demitiram ou foram demitidas, em discordância à política econômica.

Argumentar que o projeto econômico foi tentado, mas que não houve espaço político para o seu desenvolvimento, é uma ignominia, posto que foram eleitos para isto. Trata-se de dever não cumprido.

Ricardo Guedes é Ph.D. pela Universidade de Chicago e CEO da Sensus

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