O que as eleitoras brasileiras esperam de Lula e Bolsonaro

0
voto mulher urna eletronica eleiçao(1)

© Rovena Rosa/Agência Brasil

Por Deborah Hana Cardoso

A poucos dias da decisão do segundo turno, as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) ainda buscam acertar o tom para “conversar” com a maior fatia do eleitorado, as mulheres. De acordo com os dados Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 2022, elas compõem 52,65% dos votantes, enquanto os homens representam 47,33%.

A pesquisas mostram que o petista tem mais capilaridade entre elas. Na consulta do Datafolha (19/10), Lula detinha 51% deste eleitorado enquanto Bolsonaro ficava com 42% dos votos, diferença de 9 pontos percentuais. No levantamento feito pelo Ipespe/Abrapel (18/10), Lula ficava com 55% dos votos e Bolsonaro com 36%, uma diferença de 19 pontos porcentuais.

Para conquistar o voto delas por meio do marketing, a política fez a sua parte. Bolsonaro utilizou a máquina pública e suplementou o Auxílio Brasil em R$ 200, o ampliando para R$ 600 e autorizou o consignado do benefício. Para conversar com elas, a campanha apostou na primeira-dama, Michelle Bolsonaro, que se tornou o rosto da mulher conservadora, avessa a pautas como aborto e temente a Deus. “Não olhe para meu marido, olhe para mim que sou uma serva do Senhor”, disse Michelle, no dia 20/10, a evangélicas da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (RJ), do pastor Silas Malafaia.

Já a comunicação de Lula aposta na nostalgia, onde os mais humildes tinham “fartura” e diz reiteradas vezes que se eleito, os mais pobres voltarão a “comer picanha”. Já para falar com elas, Lula conta com Simone Tebet e Marina Silva, respectivamente católica e evangélica. Além disso, há a “primeira-dama” do ex-presidente, Janja Lula da Silva, que atende as progressistas.

O portal também averiguou o que os planos de governo dos candidatos propõem para as mulheres. Os documentos resumem metade do eleitorado brasileiro em palavras-chave como “microempreendedorismo”, “chefes de família”, “maternidade”, “violência contra mulher” e “equidade de direitos”.

O que elas pensam

Na percepção de Raimunda, 43 anos, de Itapoã, no Distrito Federal, apesar do suposto passado de glória do PT, foi no governo Bolsonaro que ela se sentiu “melhor assistida” devido a atenção às mães solteiras, pois “o apoio financeiro foi melhor”. Questionada sobre as primeiras-damas, a brasiliense afirmou: “A do Lula eu nem conheço e a do Bolsonaro eu me simpatizo”.

Para Adelya, 24 anos, de Riacho Fundo II, no Distrito Federal, que se identificou como eleitora de Bolsonaro, isso não é o suficiente. Ela também criticou seu candidato. “Não há proposta de nenhum dos lados, só troca de acusações”. Para ela, as mulheres precisam entrar nos projetos para serem equiparadas aos homens, inclusive na carreira militar. “Temos mais dificuldades de nos formarmos, devia ter mais incentivo para seguirmos carreira militar e com chance de patentes mais altas”.

Zâmbia, 47 anos, do Paranoá Park, no Distrito Federal, que afirmou ao site ser eleitora de Lula disse que a pauta da violência contra a mulher é necessária dentro de ambos os planos por ser “algo muito sério”, já que o problema “vem de casa”. Segundo ela, se os projetos estão tratando o cuidado à maternidade de forma institucional, o problema está na paternidade. “Esse cuidado do Estado em relação à maternidade é porque não tem a presença do pai”, e completou: “Precisamos orientar as mulheres a terem menos filhos, a estudar”.

As mulheres ouvidas pela reportagem pediram para serem identificadas apenas pelo primeiro nome.

Comunicação efetiva

De acordo com a cientista política e pesquisadora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Carolina de Paula, as campanhas sabem o que as eleitoras querem, por fazerem suas próprias pesquisas e terem acesso a outras, mas a dificuldade está em “montar uma comunicação efetiva”.

“As mulheres que se interessam por política ponderam mais antes de escolher seu candidato. E existem as que não se interessam devido às suas atribuições como trabalho, casa, filhos e família. São essas que as campanhas precisam buscar”.

O sociólogo e professor de marketing da ESPM, Gabriel Rossi, explicou que faltam às campanhas “mulheres em posição de liderança” para trazer diversidade nas tomadas de decisão. “As campanhas têm a visão das pesquisas, mas não estão sabendo se falar com as eleitoras em um ambiente diverso”, disse. “Por exemplo, o eleitorado evangélico, não dá pra dizer que todas elas são bolsonaristas”, destacou.

Rossi ainda avaliou o erro de cada candidato ao longo desta eleição. “Bolsonaro tem uma trajetória errada desde a sua eleição em 2018 em relação ao tratamento das mulheres. Já [no caso de] Lula, há falta de protagonismo da Janja na campanha”, opinou.

About Author

Compartilhar

Deixe um comentário...