O que se sabe sobre o acordo da Ucrânia com os EUA para explorar minerais

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Secretário do tesouro americano Scott Bessent e vice-primeira-ministra ucraniana Yulia Svyrydenko assinam acordo sobre minerais - Departamento do Tesouro dos EUA via Reuters - 30.abr.2025

A Ucrânia e os Estados Unidos assinaram na quarta-feira (30) um acordo fortemente promovido pelo presidente Donald Trump e que dará aos Estados Unidos acesso preferencial a novos acordos de minerais ucranianos e financiará investimentos na reconstrução do país.

A seguir, uma visão geral dos minerais críticos, incluindo terras raras, e outros recursos naturais na Ucrânia.

O que são terras raras e para que são usadas?

Terras raras são um grupo de 17 metais usados para fazer ímãs que transformam energia em movimento para veículos elétricos, telefones celulares, sistemas de mísseis e outros eletrônicos. Não existem substitutos viáveis.

O Serviço Geológico dos EUA considera 50 minerais como críticos, incluindo terras raras, níquel e lítio.

Minerais críticos são essenciais para indústrias como defesa, aparelhos de alta tecnologia, aeroespacial e energia verde.

Quais recursos minerais a Ucrânia possui?

A Ucrânia possui depósitos de 22 dos 34 minerais identificados pela União Europeia como críticos, de acordo com dados ucranianos. Eles incluem materiais industriais e de construção, ligas de ferro, metais preciosos e não ferrosos, e alguns elementos de terras raras.

De acordo com o Instituto de Geologia da Ucrânia, o país possui terras raras como lantânio e cério, usados em TVs e iluminação; neodímio, usado em turbinas eólicas e baterias de veículos elétricos; e érbio e ítrio, cujas aplicações variam de energia nuclear a lasers. Pesquisas financiadas pela UE também indicam que a Ucrânia possui reservas de escândio. Dados detalhados são sigilosos.

O Fórum Econômico Mundial afirmou que a Ucrânia também é um potencial fornecedor-chave de lítio, berílio, manganês, gálio, zircônio, grafite, apatita, fluorita e níquel.

O Serviço Geológico do Estado disse que a Ucrânia possui uma das maiores reservas confirmadas de lítio da Europa, estimadas em 500 mil toneladas. Esse elemento químico é vital para baterias, cerâmicas e vidro.

O país possui ainda reservas de titânio, localizadas principalmente nas regiões noroeste e central.

As reservas de grafite da Ucrânia, um componente-chave em baterias de veículos elétricos e reatores nucleares, representam 20% dos recursos globais. Os depósitos estão no centro e oeste.

A Ucrânia também possui significativas reservas de carvão, embora a maioria esteja agora sob controle da Rússia, nos territórios ocupados no leste do país.

Analistas de mineração e economistas dizem, porém, que Kiev atualmente não possui minas de terras raras comercialmente operacionais.

A China é hoje o maior produtor mundial de terras raras e muitos outros minerais críticos.

O que sabemos sobre o acordo?

Os dois países assinaram o acordo em Washington após meses de negociações às vezes tensas, com incertezas persistindo até o último momento com notícias de um impasse de última hora.

O documento estabelece um fundo de investimento conjunto para a reconstrução da Ucrânia, enquanto Trump tenta garantir um acordo de paz na guerra que já dura três anos.

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e a primeira vice-primeira-ministra ucraniana, Iulia Sviridenko, assinaram o acordo nesta quarta-feira. Uma publicação do Tesouro americano no X disse que o pacto “sinaliza claramente o compromisso do governo Trump com uma Ucrânia livre, soberana e próspera.”

Sviridenko escreveu no X que o acordo prevê a contribuição de Washington para o fundo. Ela também disse que o acordo prevê nova assistência, por exemplo, com sistemas de defesa aérea para a Ucrânia. Os EUA não abordaram diretamente essa sugestão.

A vice-primeira-ministra disse que o acordo permite à Ucrânia “determinar o que e onde extrair” e que seu subsolo permanece de propriedade do país.

Sviridenko afirmou também que a Ucrânia não tem obrigações de dívida com os EUA, um ponto-chave nas longas negociações entre os dois países. Também está em conformidade com a Constituição da Ucrânia e com a candidatura de Kiev para aderir à União Europeia, segundo ela.

O rascunho não forneceu nenhuma garantia de segurança concreta dos EUA para a Ucrânia, um de seus objetivos iniciais.

Quais recursos ucranianos estão sob controle de Kiev?

A guerra causou danos generalizados em toda a Ucrânia, e a Rússia agora controla cerca de um quinto de seu território.

A maior parte dos depósitos de carvão da Ucrânia, que alimentavam sua indústria siderúrgica antes da guerra, está concentrada no leste e foi perdida.

Cerca de 40% dos recursos metálicos da Ucrânia estão agora sob ocupação russa, de acordo com estimativas dos think-tanks ucranianos We Build Ukraine e do Instituto Nacional de Estudos Estratégicos, citando dados até o primeiro semestre de 2024. Eles não forneceram uma análise detalhada.

Desde então, as tropas de Moscou continuaram a avançar constantemente na região de Donetsk (leste). Em janeiro, a Ucrânia fechou sua única mina de carvão metalúrgico, nos arredores de Pokrovsk, uma instalação que as forças russas tentam capturar.

A Rússia ocupou pelo menos dois depósitos de lítio ucranianos durante a guerra —um em Donetsk e outro na região de Zaporíjia, no sudeste. Kiev ainda controla depósitos de lítio na região central de Kirovohrad.

Quais oportunidades a Ucrânia oferece?

Oleksii Sobolev, primeiro vice-ministro da Economia, disse em janeiro que o governo estava trabalhando em acordos com aliados ocidentais, incluindo os Estados Unidos, Reino Unido, França e Itália, em projetos relacionados à exploração de materiais críticos. O governo estima o potencial total de investimento do setor em cerca de US$ 12 bilhões a US$ 15 bilhões (R$ 68 bilhões a R$ 85 bilhões) até 2033.

O Serviço Geológico do Estado disse que o governo estava preparando cerca de cem locais para serem licenciados e desenvolvidos conjuntamente, mas não forneceu mais detalhes.

Embora a Ucrânia tenha uma mão de obra altamente qualificada e relativamente barata, além de infraestrutura desenvolvida, especialistas destacam uma série de barreiras ao investimento, entre elas processos regulatórios ineficientes e complexos, bem como dificuldade de acesso a dados geológicos e obtenção de terrenos.

Tais projetos levariam anos para se desenvolver e exigiriam considerável investimento inicial, disseram eles.

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