ONG diz que Irã adiou execução de manifestante
O manifestante iraniano Erfan Soltani em foto sem data divulgada pela organização de direitos humanos Hengaw - Hengaw Organization for Human Rights no X
O Irã adiou a execução do manifestante Erfan Soltani, 26, que estava marcada para acontecer na quarta-feira (14), segundo a ONG de direitos humanos Hengaw. Essa seria a primeira vez que a pena de morte seria aplicada contra um opositor do regime desde o início da onda de protestos que abala o país.
Soltani foi preso no último dia 8 na cidade de Karaj, nos arredores de Teerã, e sua família havia sido comunicada a respeito de sua execução, de acordo com a Iran Human Rights (IHR), entidade com sede na Noruega. Agora, a Hengaw afirma que a execução de Soltani, que se daria por meio de enforcamento, foi adiada. A organização diz estar em contato com a família do manifestante preso.
Segundo a IHR, Soltani não recebeu um julgamento e não teve direito à defesa, e não há informações sobre os crimes dos quais foi acusado.
O adiamento aconteceu horas depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dizer que não haveria execuções de manifestantes no Irã e que as mortes estavam diminuindo.
O chefe do Judiciário iraniano, Gholamhosein Mohseni Ejei, visitou uma prisão de Teerã onde manifestantes, chamados de rebeldes pelas autoridades, estão detidos para revisão de seus casos. Segundo ele, os acusados serão julgados de forma rápida e pública. “Se alguém ateou fogo em uma pessoa, a decapitou antes de queimar seu corpo, devemos fazer nosso trabalho rapidamente”, declarou.
Não há informações de casos do tipo no Irã, e o regime não divulgou números de mortos, sejam civis ou membros das forças de segurança. Segundo a IHR, 3.428 pessoas já foram mortas, e vídeos e relatos de testemunhas apontam massacres à queima-roupa de manifestantes desarmados.
O país está sob bloqueio de comunicações há dias depois que o regime cortou o sinal de internet em várias regiões do país. A mídia estatal iraniana transmite continuamente imagens da destruição, incluindo mesquitas incendiadas, e presta homenagens aos membros das forças de segurança mortos —na quarta, veiculou imagens de uma enorme manifestação em Teerã a favor do regime.
O Irã é o segundo país que mais aplica a pena de morte no mundo, atrás apenas da China. Entre os crimes passíveis de execução se encontram traição, espionagem e rebelião, além de assassinato, estupro, tráfico de drogas, terrorismo, homossexualidade e prostituição. Monitoramento da organização Anistia Internacional indica que as autoridades iranianas executaram ao menos mil pessoas em 2025.
Dias antes, Trump havia dito que retaliaria caso o Irã executasse manifestantes. “Se eles os enforcarem, vocês vão ver algumas coisas… Tomaremos medidas muito duras se fizerem algo assim”, disse o presidente americano à emissora CBS na terça (13), sem dar mais detalhes. Em publicação dirigida aos manifestantes iranianos, o presidente americano escreveu que “a ajuda está a caminho”, instando-os a tomar as instituições do país.
Paralelamente, segundo relatos colhidos pela agência Reuters, os EUA determinaram a saída de parte do pessoal de sua principal base no Oriente Médio, Al-Udeid, no Qatar. Não há, contudo, nenhuma movimentação maciça de tropas.
Na noite de terça (13), Teerã acusou Washington de incentivar a desestabilização política, incitar a violência e ameaçar a soberania, a integridade territorial e a segurança nacional do país. O embaixador iraniano na ONU, Amir Saeid Iravani, escreveu em carta ao Conselho de Segurança que “os Estados Unidos e o regime israelense têm responsabilidade legal direta e inegável pela consequente perda de vidas civis inocentes, particularmente entre os jovens”.
A menção à perda de vidas civis é uma rara admissão por parte do regime da resposta violenta aos protestos. Para Iravani, Trump incentiva os atos na busca de “um pretexto para uma intervenção militar”.