Na terça-feira, 24, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) completou seis décadas de existência. O partido, criado após o Ato Institucional Nº 2 da ditadura, que pretendia simular um estado democrático com oposição legal, soube aos poucos se reinventar, até ser uma alternativa real de poder com Tancredo Neves, em 1985. Por anos, foi a maior esperança de recuperarmos a democracia brasileira.
O MDB também representa a gênese dos atuais partidos de centro do Brasil, que nos últimos 70 anos só conseguiram eleger, por via direta, dois presidentes no Brasil: Juscelino Kubitschek, em 1959 pelo antigo PSD, e Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998, pelo PSDB (criado de uma costela do MDB, em 1988). Fora isso, só derrotas. Num país, e mesmo em um mundo, com gosto de eleger populistas de direita ou de esquerda, buscar o equilíbrio do centro com o anseio popular tem sido um desafio cada vez mais difícil.
Esta semana pode ser que o PSD de Gilberto Kassab lance uma candidatura mais ao centro, ou pelo menos de centro-direita. A escolha paira entre os nomes dos governadores de Goiás, Ronaldo Caiado, Paraná, Ratinho Júnior, e Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Mas, a não ser que haja uma reversão brusca, o eleitorado segue na disputa de rejeições entre o atual presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro – uma batalha esquerda x direita. O centro originário do MDB segue sem lugar.

Num espírito do tempo em que se exigem posicionamentos contundentes, slogans, frases curtas e tratar o adversário político como inimigo, o centro sai perdendo. Na esfera pública, agredir tem sido mais eficiente do que argumentar. As necessárias composições para se formar um governo tornaram-se, para o público médio, sinônimo de corrupção. Políticas públicas necessárias, como as reformas, impopulares (o centro não é reacionário ou revolucionário, é reformista, e por isso paga certo preço). Certos arranjos envolvendo o Centrão, do qual partidos como o MDB não fazem parte do ponto de vista de sua trajetória, não ajudam em nada a impressão popular.
Por outro lado, quando as pessoas buscam opções de voto, querem saber agora exatamente o que os postulantes pensam. A fluidez doutrinária de quem está ao centro com certeza não ajuda. Há certa tibieza em se posicionar. Soma-se a isso que a chamada intelligentsia, termo que podemos utilizar para rotular nossas elites intelectuais, culturais, etc., sempre teve um (ou os dois) pés na esquerda. Lembrando que na época de FHC ou mesmo de Temer, ambos eram os “fascistas” de ocasião, assim como o atual vice-presidente Geraldo Alckmin, quando ousou enfrentar Lula numa disputa eleitoral em 2006.
Ser considerado de “direita” sempre foi tido como desonra no Brasil nesses ambientes da intelligentsia – o que inclui até redações de jornais. O PSDB, quando no poder e nas disputas contra Lula, suava para se livrar da etiqueta. As ironias do destino são: 1) o candidato que se assumiu de direita, Jair Bolsonaro, foi o único que conseguiu vencer o PT em eleições presidenciais em décadas. 2) Um amplo eleitorado, por vezes majoritário, de fato procurava opções à direita, e a lassidão do centro, seja PSDB ou MDB, não era considerada opção. Aliás, para o bolsonarismo padrão, o PSDB sempre foi um partido de esquerda.
O paradoxo, como se sabe, é que desde que o PSDB saiu do baralho, a definição das eleições está com esse eleitor de centro, que historicamente vem desde o MDB de Ulysses Guimarães, ou se quisermos ir mais longe, desde o PSD de Juscelino. Em 2018, o centrista, em geral, para evitar o PT, preferiu Bolsonaro e lhe deu a vitória. Em 2022, em pânico com Bolsonaro, vota no primeiro turno em Simone Tebet e migra para Lula (Tebet, que poderia ser a opção do centro nesta eleição, mas preferiu, ainda em 2022, aderir ao petismo). O resultado de 2026 segue incerto, mas os eleitores moderados “mdbistas históricos” sabem que são eles que irão definir o resultado da peleja. Mas talvez isso não sirva de consolo.
Opinião de Fabiano Lana