Padre Julio lembra de quando ganhou solidéu do papa Francisco: ‘Gesto de carinho para a população de rua’

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O padre Júlio Lancelotti em sua paróquia, na Igreja de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca. Foto de janeiro de 2020 — Foto: Werther Santana/Estadão Conteúdo/Arquivo

O padre Julio Lancellotti diz que ficou “atônito” ao receber a notícia da morte do papa Francisco, na segunda (21). “A gente não esperava. Embora ele estivesse se recuperando, ontem [domingo de Páscoa] nós o vimos na Praça de São Pedro, e ele ainda andou no papamóvel.”

Responsável pela paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca (zona leste), e coordenador da Pastoral do Povo da Rua, Lancellotti se recorda de quando, em 2015, dois anos após assumir como líder máximo da Igreja Católica, o papa Francisco mandou, por intermédio de um amigo, o seu solidéu como um gesto de carinho para as pessoas atendidas pelo brasileiro.

“Eu tinha enviado para ele fotos e presentes da população de rua [que atendemos aqui], o papa pegou terços, medalhinhas e santinhos para nos enviar. Mas ele disse que queria mandar algo dele, algo que fosse pessoal. E pegou o solidéu e disse: ‘Leve para o padre Julio e entrega para ele como um gesto de carinho. Quem tocar ele [o solidéu] está apertando a minha mão'”, relembrou o religioso. O item está guardado em uma caixa de vidro e foi levado por padre Júlio em todas as suas atividades da segunda (21).

O religioso também contou que conversou uma vez com o papa por telefone. “Ele me ligou em um momento muito difícil que eu estava vivendo. Levei um tempo para perceber que era ele, mas logo reconheci a voz. Ele disse que sabia tudo que eu estava passando e que era para eu continuar firme. Ele usou a palavra ‘não desanime’ e perguntou como era o meu dia. Expliquei as nossas atividades, e ele falou: ‘Continue fazendo isso, porque é isso o que Jesus faria, é isso que Jesus quer’.”

Na época, Lancellotti afirma que vinha sofrendo “ataques e perseguições” por sua atuação.

“É um momento de muita tristeza [a morte do papa], de perder uma referência que é muito importante para nós e valida o nosso trabalho. A Pastoral de Rua não era uma coisa estranha pra ele. Ele conhecia [o trabalho] e gostava. Ele fazia isso em Roma também”, relata. “Uma irmã brasileira que mora em Roma e faz comida para levar para os moradores de rua, ela passou uns dias comigo e contou que, algumas vezes, quando chegava para dar a comida para os moradores de rua, eles falavam, ‘o papa passou aqui agora há pouco’.”

Padre Julio relata que o carinho era recíproco, e muitas pessoas que estão em situação de rua no Brasil também reconheciam a atuação do papa Francisco. “Eles falavam pra mim, ‘ele gosta de nós, esse papa gosta da gente’.”

Questionado sobre a sucessão, o religioso afirma que “é difícil fazer uma previsão neste momento”. “A gente tem que confiar no Espírito Santo de que os cardeais em Roma vão refletir, vão rezar”, diz. Ainda que políticos no mundo todo, como Donald Trump, queiram influenciar na escolha do novo papa, o padre Julio diz esperar que haja um discernimento dos cardeais para se chegar a um nome que seja de fato o “melhor para o povo e para a Igreja Católica”.

 

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