
A pré-candidatura do vice-governador Lucas Ribeiro (PP) ao Palácio da Redenção não carrega apenas articulações partidárias da tríplice aliança PP, PSB e Republicanos. Carrega também um peso histórico que muitos prefeririam manter enterrado — mas que insiste em emergir no debate público.
Nos bastidores políticos e nos movimentos sociais organizados, cresce a disposição de confrontar essa postulação com fatos que fazem parte da memória viva da luta camponesa na Paraíba. E o epicentro dessa história tem nome: Fazenda Antas.
Após 64 anos de luta, sofrimento, perseguições e derramamento de sangue, a área foi finalmente destinada à reforma agrária pelo INCRA. Uma vitória tardia, mas simbólica, para trabalhadores que reivindicavam apenas o direito de plantar e sobreviver com dignidade.
Foi justamente na Fazenda Antas que germinaram as Ligas Camponesas da Paraíba. E foi nesse contexto que João Pedro Teixeira, seu principal líder, foi brutalmente assassinado. À época, o nome do latifundiário Agnaldo Veloso Borges — bisavô de Lucas Ribeiro — figurou como principal acusado intelectual do crime, embora nunca tenha sido condenado.
A história não para por aí.
Agnaldo Veloso Borges também foi apontado como suspeito em outros episódios trágicos do campo paraibano, incluindo o assassinato de Margarida Maria Alves, na década de 1980, entre outras mortes ligadas à luta por terra e direitos trabalhistas. Acusações que jamais resultaram em condenação judicial, mas que permanecem registradas na memória política do Estado.
Lucas Ribeiro, evidentemente, não era nascido à época dos fatos. Tampouco sua mãe, a senadora Daniela Ribeiro. Não se trata aqui de imputar culpa hereditária — mas de reconhecer que há uma herança histórica que exige posicionamento.
Em política, o silêncio também comunica.
Se pretende governar a Paraíba, Lucas precisará ir além das alianças partidárias e enfrentar com maturidade um passado que envolve sua própria linhagem familiar. No mínimo, cabe um gesto público de respeito às vítimas dessa história — especialmente a Elizabeth Teixeira, viúva de João Pedro, símbolo de resistência, que aos 101 anos segue como testemunha viva de um dos períodos mais sombrios da luta pela terra no Brasil.
Elizabeth não perdeu apenas o marido. Perdeu filhos. Viveu 17 anos na clandestinidade para escapar da morte. Sua trajetória foi eternizada no documentário “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho — obra obrigatória para quem deseja compreender as raízes da questão agrária na Paraíba.
A pré-candidatura de Lucas Ribeiro inevitavelmente será confrontada com esse passado. Não por responsabilidade direta, mas por responsabilidade histórica.
A pergunta que ecoa é simples e inevitável:
Qual será o posicionamento de Lucas Ribeiro sobre a reforma agrária e sobre esse capítulo da história paraibana?
Ignorar o tema pode até ser conveniente eleitoralmente. Mas não será suficiente.
Porque a terra tem memória. E a história, quando mal resolvida, cobra seu preço nas urnas.