“Paz não pode ser imposta, precisa ser escolhida”, diz secretário-geral da ONU
O secretário-geral da ONU, António Guterres, durante reunião do Conselho de Segurança da organização, em Nova York - Bryan R. Smith/AFP
Em reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas, no domingo (22), o secretário-geral da organização, António Guterres, criticou os ataques dos Estados Unidos contra o Irã realizados no sábado (21).
“O Tratado de Não-Proliferação é uma pedra angular da segurança e da paz internacional e o Irã precisa respeitá-lo completamente. Todos os Estados-membros precisam agir de acordo com suas obrigações na Carta da ONU e outras regras do direito internacional. Mas a paz não pode ser imposta, precisa ser escolhida”, afirmou Guterres.
Ninguém, nem a agência de energia nuclear da ONU, tem condições de avaliar os danos provocados à instalação de Fordow, de acordo com o diretor órgão, Rafael Grossi, que também fez declaração durante a reunião. Ele disse que não há sinais de vazamento radioativo nos locais atingidos.
Para o diretor, qualquer intervenção de força contra o programa nuclear do Irã joga contra o plano de longo prazo para que o país persa não desenvolva usos militares para seu plano de enriquecimento de urânio. “Não vamos deixar que a janela de diplomacia se feche e que o regime de não proliferação falhe”, afirmou Grossi.
A reunião do órgão máximo da ONU, que tem sido criticado pela sua paralisia diante da proliferação de conflitos no mundo, foi convocada horas após a entrada dos Estados Unidos na guerra de Israel contra o Irã —contando a Guerra da Ucrânia envolvendo a Rússia, agora são 2, dos 5 membros permanentes do conselho, diretamente envolvidos em conflitos.
Nove dias depois de o Estado judeu iniciar o ataque contra o rival, neste sábado, o presidente Donald Trump anunciou o ataque de bombardeiros americanos a três instalações do programa nuclear da teocracia persa.
“Nós completamos nosso muito bem-sucedido ataque. Um complemento inteiro de bombas foi lançado no alvo primário, Fordow”, escreveu o americano na rede Truth Social. “Nenhuma outra força armada do mundo poderia fazer isso. AGORA É TEMPO PARA A PAZ”, escreveu, com as usuais maiúsculas.
Depois, replicou uma postagem que dizia: “Fordow já era”. Esta é a primeira ação de grande porte dos EUA contra seu maior rival no Oriente Médio, que tornou-se uma hostil República Islâmica em 1979. Antes, houve diversos entrechoques pontuais.
A primeira resposta do Irã ao inédito ataque dos Estados Unidos a suas instalações nucleares foi a intensificação de suas barragens de mísseis balísticos contra Israel, o aliado a quem Donald Trump se uniu contra Teerã. Mas a teocracia promete revidar contra Washington e vai consultar o aliado Vladimir Putin sobre a crise.
A China, outro membro permanente do Conselho de Segurança, criticou o ataque de Washington. Para o Ministério das Relações Exteriores chinês, a ação do governo Trump violou a Carta da ONU, que estabelece princípios das relações internacionais a serem cumpridos pelos Estados-membros.
A China instou as partes do conflito, especialmente Israel, a cessarem os ataques o mais rápido possível e iniciarem diálogo e negociações. Na reunião, o representante chinês disse que a diplomacia para resolver a questão nuclear iraniana ainda não foi esgotada, por isso ainda há esperança para uma solução pacífica.
Já a Rússia afirmou na reunião que o ataque dos Estados Unidos às instalações nucleares foi irresponsável. Washington demonstrou o seu desprezo pelas leis internacionais, disse o enviado russo. “Ninguém deu aos Estados Unidos autoridade para agir desta forma”.
O enviado de Moscou ainda comparou as alegações dos Estados Unidos de que o Irã estaria perto de desenvolver uma bomba atômica às justificativas dos americanos de que o Iraque teria armas químicas em 2003, para então justificar uma invasão.
“O Irã tem direito de desenvolver o seu programa nuclear para uso civil”, afirmou a Rússia.
A enviada dos Estados Unidos, por sua vez, disse que os ataques de sábado foram necessários para desmantelar as ameaças nucleares do Irã. “O regime do Irã não pode ter uma arma atômica”, afirmou.
Segundo a enviada americana, o Irã deve conter a sua retaliação e negociar paz pelo bem da sua população. Na visão da diplomacia americana, devido aos ataques e ameaças do Irã, Israel tem todo o direito de se defender.
O Irã também falou na reunião, chamando o ataque dos Estados Unidos de “agressão”. “Os Estados Unidos entram em mais uma guerra sem sentido, fazendo o trabalho que Binyamin Netanyahu falhou”, disse o representante persa.
Segundo o enviado do Irã para a ONU, as alegações de Israel e EUA sobre a criação de uma bomba atômica pelo Irã são fabricadas, sem provas legais e com motivações políticas.
O representante iraniano ainda disse que o seu país tem o direito de se defender e que o tamanho da resposta aos ataques de sábado vai ser decidida pelos militares. “Israel e Estados Unidos são os principais culpados por quebrar a lei internacional”, declarou.
Já para a representação de Israel, o mundo mudou ontem após os ataques dos americanos às instalações nucleares iranianas. “Os Estados Unidos removeram a maior ameaça ao mundo livre. O mundo inteiro deveria dizer obrigado para os EUA e para o presidente Trump por agir quando outros hesitaram”, disse o enviado de Israel.
Israel afirma que tentou diplomacia diversas vezes, mas o governo iraniano usou as conversas como estratégia como camuflagem para ganhar tempo e construir mísseis e enriquecer urânio.
“Os objetivos do Irã nunca foram pacíficos. Um Irã nuclear seria uma sentença de morte não só para nós, mas para o mundo todo”, afirmou.