Pesquisadora é presa sob suspeita de furto em laboratório de alta biossegurança da Unicamp
Instituto de Biologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). - Denny Cesare - 06.mai.25/Folhapress
por Folha de São Paulo
Uma professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) é investigada sob suspeita de furtar material biológico de um laboratório de elevado nível de biossegurança da instituição, no interior de São Paulo.
Soledad Palameta Miller, vinculada à FEA (Faculdade de Engenharia de Alimentos), foi presa na segunda-feira (23) e chegou a ser levada para a Penitenciária Feminina de Mogi Guaçu, mas foi liberada no mesmo dia. Segundo a PF (Polícia Federal), a prisão faz parte de um inquérito instaurado logo após a universidade comunicar, em fevereiro, o desaparecimento do material científico do Laboratório de Virologia e Biotecnologia Aplicada do Instituto de Biologia.
Não foram fornecidas informações que detalhassem as características do material furtado nem como ele seria usado pela suspeita, mas o laboratório de onde a amostra foi retirada é voltado a pesquisas de agentes infecciosos de relevância animal.
O advogado Pedro de Mattos Russo, que defende a pesquisadora, afirmou à Folha que não houve furto e que a pesquisadora utilizava a estrutura do Instituto de Biologia por não dispor de laboratório próprio.
As amostras foram recuperadas em laboratórios usados pela professora e, em seguida, encaminhadas ao Ministério da Agricultura e Pecuária. A apuração também contou com o apoio da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Além da prisão, a PF cumpriu dois mandados de busca e apreensão expedidos pela 9ª Vara Federal de Campinas. Os investigados podem responder por furto qualificado, fraude processual e transporte irregular de organismo geneticamente modificado, segundo a corporação.
Soledad Palameta Miller é professora doutora da FEA desde 2025. A biotecnologista é formada na Universidade Nacional de Rosario, na Argentina, e doutora em ciências na área de fármacos, medicamentos e insumos para saúde pela própria Unicamp.
Atualmente, ela coordena o Laboratório de Virologia e Biotecnologia em Alimentos em linhas de pesquisa relacionadas ao desenvolvimento de diagnósticos e terapias relacionadas aos vírus transmitidos por alimentos e água.
O laboratório de virologia do IB é uma das 12 unidades do país certificadas com nível de biossegurança 3 (ou NB3), aptas a manipular agentes biológicos de alto risco.
O espaço opera sob níveis 2 e 3 de biossegurança, em uma escala que vai até 4 —o mais elevado grau de contenção biológica, que ainda não existe no Brasil. Em construção em Campinas, o projeto Orion, do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), deve ser o primeiro da América Latina a ter certificação NB4.
A classificação indica que esses laboratórios têm certificação para lidar com agentes biológicos de diferentes classes de risco, obedecendo a protocolos rigorosos de segurança.
Na categoria NB3, os agentes são considerados de alto risco individual e risco moderado para a comunidade e podem causar doenças graves ou letais, geralmente transmitidas pelo ar, com potencial de disseminação —ainda que existam medidas de prevenção e tratamento disponíveis.
Esses laboratórios também exigem práticas e equipamentos de contenção mais eficazes, como cabines de segurança biológica. O acesso é restrito, e a entrada de materiais de consumo e amostras biológicas deve ser feita por intermédio de câmara pressurizada ou por outro sistema de barreira equivalente, segundo as Diretrizes Gerais para o Trabalho em Contenção com Agentes Biológicos, publicação do Ministério da Saúde.
De acordo com informações da instituição, o laboratório atua principalmente no estudo de pneumovírus aviário, vírus da bronquite infecciosa aviária, doença infecciosa da bursa, vírus respiratório sincicial bovino e herpesvírus equino e bovino.
Já a pesquisadora, de acordo com o seu currículo Lattes, atua em projetos relacionados aos vírus sincicial respiratório, metapneumovírus aviário e vírus da bronquite infecciosa, estabelecimento de linhagens celulares de morcegos para estudos in vitro de vírus e desenvolvimento de linhagens celulares aviárias como método alternativo para a produção de vacinas.
Em nota, a reitoria da Unicamp declarou que mantém colaboração integral com a PF e que detalhes adicionais sobre o inquérito serão preservados para não comprometer as investigações.