Pesquisadores identificam cela onde ditadura simulou suicídio de Vladimir Herzog

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Pesquisadores identificam cela onde foi simulado o suicídio de Vladimir Herzog no DOI-Codi, em São Paulo - Divulgação Unifesp

por Folha de S.Paulo

Pesquisadores da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) identificaram a cela do DOI-Codi em São Paulo onde foi encenado o suicídio do jornalista Vladimir Herzog, morto sob tortura por agentes da ditadura militar em 1975.

Segundo a universidade, a identificação do espaço foi possível após a análise de arqueologia forense que cruzou fotografias produzidas à época, depoimentos de torturados, laudos periciais e plantas arquitetônicas originais com evidências físicas ainda preservadas na estrutura do prédio localizado na Rua Tutóia, na Vila Mariana.

“O mais importante desta descoberta é a gente provar que todo esse processo foi uma farsa. A gente ainda tem muitas perguntas a serem respondidas, mas essa descoberta responde uma: que esta fotografia foi feita nesta sala a partir também de um laudo fraudulento”, afirma a pesquisadora Deborah Neves, em vídeo publicado pela Unifesp.

Vladimir Herzog, conhecido como Vlado, era diretor da TV Cultura quando compareceu de forma espontânea ao DOI-Codi no dia 25 de outubro de 1975 para explicar suas relações com o PCB (Partido Comunista do Brasil), principal organização de esquerda do país na época. Ele morreu no mesmo dia no local, após intensas sessões de tortura.

Foto divulgada pelo regime militar com simulação de suicídio do jornalista Vladimir Herzog, morto no DOI-Codi, em São Paulo – Silvaldo Leung Vieira/Jornal do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo

A ditadura alegou que Vlado se enforcou em sua cela com um cinto –embora os uniformes usados pelos presos no DOI-Codi não tivessem cintos.

A foto divulgada, montada pelo regime, mostrava o jornalista de joelhos dobrados, com o corpo pendurado por uma distância menor que a altura dele. Na preparação para o sepultamento, foram encontradas marcas de tortura.

A versão do suicídio logo foi contestada, mobilizando protestos, greves estudantis e questionamentos públicos à época, entre eles um ato inter-religioso na Catedral da Sé que desafiou abertamente a ditadura.

Viúva de Vlado, a publicitária Clarice Herzog entrou com uma ação na Justiça Federal de São Paulo, em abril de 1976, pedindo que o Estado fosse responsabilizado pela prisão, tortura e morte do marido. Em outubro de 1978, o juiz Márcio José de Moraes condenou a União pelo crime.

Os responsáveis diretos, no entanto, nunca foram julgados e os processos judiciais sobre o caso foram derrubados com base na Lei da Anistia de 1979, que concedeu perdão aos militares que cometeram crimes durante a ditadura.

A pesquisa que identificou a cela faz parte do projeto Memorial Virtual DOI-Codi, que busca documentar e tornar acessíveis evidências históricas relacionadas ao funcionamento do centro de repressão política que funcionou entre 1969 e 1983.

Escavações já encontraram inscrição na parede, material biológico que pode ser sangue e outros vestígios. Uma das expectativas dos pesquisadores é a de que o material encontrado possa fortalecer o pedido a favor da transformação do local em um memorial.

Atualmente, um dos quatro prédios que formam o complexo serve de endereço para o 36º Distrito Policial de São Paulo.

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