PF pede para investigar se ex-ministro de Bolsonaro tentou obter passaporte português para Mauro Cid
Gilson Machado Neto é ex-ministro do Turismo e um dos principais aliados de Bolsonaro - Isac Nóbrega/Presidência da República
A Polícia Federal pediu, e a PGR (Procuradoria-Geral da República) autorizou, na segunda-feira (9), a abertura de uma investigação contra Gilson Machado (PL), ex-ministro do Turismo do governo Bolsonaro. A peça foi enviada na terça-feira (10) ao STF (Supremo Tribunal Federal), que deve decidir sobre o pedido.
A suspeita é que Machado tenha atuado junto ao consulado de Portugal em Recife, no mês passado, para obter a expedição de um passaporte português em favor do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, segundo suspeitas da Polícia Federal.
O intuito, segundo a peça assinada pelo procurador-geral Paulo Gonet, com informações da polícia, seria viabilizar a saída do militar do território nacional. O ex-ministro, porém, não teria obtido êxito na emissão do documento.
Procurado, Machado afirmou que nega “veementemente ter ido a qualquer consulado”. Ele acrescentou que apenas manteve contato telefônico, em maio, com o consulado português para solicitar uma agenda para renovar o passaporte de seu pai, “o qual foi feito após dita solicitação”.
Gonet justifica o pedido de investigação sob o argumento de que Machado poderia buscar alternativas junto a outras embaixadas e consulados para Cid obter passaporte de outro país.
O procurador solicitou ainda medidas cautelares de busca e apreensão, pessoal e domiciliar e afastamento dos sigilos dos dados telemáticos e telefônicos contra o investigado deste ano.
Segundo o documento, a PF teria ressaltado que, conforme arquivos armazenados no telefone celular de Mauro Cid, o militar teria procurado o serviço de assessoria para obtenção da cidadania portuguesa em janeiro de 2023.
De acordo com as investigações, na ocasião, ele enviou imagens de sua carteira funcional, comprovante de cidadania portuguesa e do passaporte português de sua mãe.
“A análise das informações reunidas pela Polícia Federal indica a necessidade de complementação das diligências investigavas, a fim de possibilitar um juízo adicional e mais abrangente sobre a autoria das condutas apuradas”, ressaltou Gonet.
O ex-ajudante de Bolsonaro prestou depoimento ao STF nesta segunda, na primeira sessão com acusados de integrar o núcleo principal da trama golpista do dia 8 de janeiro.
Cid afirmou que o ex-presidente recebeu e editou no fim de 2022 uma minuta de decreto que previa a prisão de autoridades, como ministros do Supremo e integrantes do Legislativo, e a criação de uma comissão para organizar novas eleições presidenciais.
Segundo Cid, Bolsonaro alterou a minuta do decreto golpista algumas vezes. “Ele enxugou o documento, retirando as autoridades das prisões. Só o senhor ficaria preso”, disse Cid ao ministro Alexandre de Moraes.
O tenente-coronel também afirmou ao Supremo que o ex-presidente pressionava o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, para incluir suspeitas de fraudes no relatório das Forças Armadas sobre a fiscalização do processo eleitoral entregue ao TSE.
“A conclusão mais técnica dos militares que estavam na comissão dizia que não foi encontrada fraude. O presidente Bolsonaro não queria isso, talvez incluísse as denúncias que foram levantadas. Algo para dar uma conotação de que havia fraude nas eleições”, disse.
Já Gilson Machado lançou, no último mês, uma campanha nas redes sociais para pedir doações para o ex-presidente. Ele argumentou que o dinheiro serviria para Bolsonaro pagar advogados, despesas pessoais e os gastos do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, onde ele está desde março alegando perseguição do STF.