‘Poderia ser eu’: Entenda por que o true crime virou um fenômeno entre mulheres
Marina Ruy Barbosa em 'Tremembé', Charlie Hunnam em 'Monstro: A História de Ed Gein' e Amanda Marie Knox - Divulgação
Nos últimos anos, o true crime deixou de ser um nicho e passou a ocupar o centro do entretenimento. Séries como “Tremembé”, que se tornou a produção de maior audiência da história do Prime Video no Brasil, “Monstro: A História de Ed Gein”, da Netflix, e documentários como “A Vítima Invisível: O Caso Eliza Samudio” figuraram entre os conteúdos mais assistidos das plataformas.
Em comum, além de crimes reais e narrativas detalhadas, está o público: majoritariamente feminino.
O sucesso não é casual. O gênero cresce ancorado em histórias que, embora chocantes, dialogam diretamente com experiências cotidianas de medo, risco e vulnerabilidade vividas por mulheres. Para além da curiosidade, o true crime se consolidou como um espaço de identificação —e, em muitos casos, de alerta.
Ele aparece de forma explícita no consumo e na produção de conteúdo. Giulia Carvalho, criadora de vídeos sobre true crime no TikTok e no Instagram, onde acumula mais de 2 milhões de seguidores, diz que os comentários que recebe reforçam essa conexão direta entre histórias narradas e experiências pessoais das espectadoras.
“Vejo muitos relatos de mulheres dizendo: ‘poderia ser eu’”, afirma. Ela cita como exemplo o caso de uma jovem assassinada após entrar em um carro acreditando se tratar de um motorista de aplicativo. “Nos comentários, muitas mulheres diziam que já entraram em carros sem conferir a placa. Existe muito essa identificação, de se colocar naquela situação e pensar no risco”, diz.
Segundo Giulia, esse padrão se repete especialmente em casos de feminicídio e violência doméstica. “Quando conto histórias assim, surgem muitos desabafos de mulheres que já passaram por isso ou conseguiram sair de relações abusivas. Outras dizem que amigas não conseguiram a tempo. É muito forte.
@ehgiulia mais um caso de feminicid1o. até quando? #fy #fyp #truecrime #viral #casosbrasileiros Caso Clara Maria Venâncio
Antes de produzir conteúdo para um público majoritariamente feminino —que hoje representa cerca de 80% de seus seguidores—, ela própria já era uma consumidora assídua do gênero. “A gente tenta entender o que poderia ter sido feito diferente, mesmo sabendo que, em muitos casos, não havia o que fazer. Existe essa curiosidade porque as vítimas são mulheres como nós.”
Pesquisas ajudam a explicar esse fenômeno. Um estudo da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, aponta que um dos principais motores do consumo feminino de true crime é a identificação com as vítimas e a tentativa de se precaver diante de riscos reais.
Segundo o relatório publicado no periódico Social Psychological and Personality Science, embora exista a percepção de que homens se interessariam mais por histórias violentas, é o medo de se tornar vítima que faz das mulheres as maiores consumidoras do gênero —especialmente em casos em que serial killers e agressores têm mulheres como alvo principal.
Para Beto Ribeiro, produtor e apresentador de um dos canais de true crime mais populares do país no YouTube, o público feminino também influencia o crescimento do interesse masculino.
“Tenho encontrado muitos homens que começaram a assistir por causa das namoradas, esposas ou mães, e virou um programa do casal ou da família”, conta. Ainda assim, ele observa diferenças no engajamento. “A mulher é mais curiosa, quer entender o fato, mesmo que seja duro. Ela prefere conhecer a realidade para saber como agir.”
Beto diz que recebe relatos frequentes de mulheres que passaram a reconhecer sinais de relações abusivas após consumir esse tipo de conteúdo. “Muitas falam que aprenderam com histórias tristes, mas que isso ajudou a interromper um ciclo antes de um fim mais trágico. Não é só sobre o crime, mas sobre o que levou até ele.”
Os números confirmam essa tendência. Uma pesquisa de 2024 da Podchaser mostrou que 61% dos ouvintes dos 25 principais podcasts de true crime dos Estados Unidos são mulheres. No Brasil, o cenário é semelhante. O podcast Modus Operandi, um dos mais populares do país, tem mais de 70% do público feminino.
Na CrimeCon, maior convenção do gênero nos Estados Unidos, realizada em Denver, 75% do público presente no ano passado era composto por mulheres —dado que os organizadores classificaram como “nada surpreendente”.
Do ponto de vista psicológico, esse interesse também tem explicação. A psicóloga e neurocientista Anacláudia Zani afirma que o cérebro aprende sobre perigo mesmo sem vivenciar a situação diretamente.
“Ao ouvir uma história de crime real, o sistema de alerta do cérebro é ativado, enquanto outras áreas registram detalhes como contexto, início da violência e relações envolvidas. Isso cria um banco de dados interno de risco”, explica.
Segundo ela, nas mulheres esse processo costuma envolver áreas ligadas à compreensão de emoções, intenções e vínculos. “Muitas dessas histórias envolvem confiança, manipulação e relações próximas. O cérebro entende isso como informação relevante para proteção.”
Quando consumido com equilíbrio, o true crime pode aumentar a percepção de risco e a sensação de preparo. O problema surge no excesso. “Se o sistema de alerta fica ativado o tempo todo, pode levar à ansiedade, hipervigilância e sensação constante de ameaça”, alerta.