Prefeitura explica fenômeno natural que pode ter provocado morte de toneladas de peixe no Açude Velho, em Campina Grande

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Mais de 5 toneladas de peixes mortos já foram retiradas do Açude Velho, em Campina Grande — Foto: Artur Lira/TV Paraíba

A Prefeitura de Campina Grande, no Agreste da Paraíba, afirmou que a morte de um grande número de peixes no Açude Velho, principal cartão-postal da cidade, está relacionada a um fenômeno natural conhecido como circulação vertical.

Segundo a gestão do município, o processo teria provocado o revolvimento das camadas mais profundas da água, trazendo à superfície a lâmina de esgoto acumulada no fundo do açude e resultando na retirada de cerca de 10 toneladas de peixes mortos.

“Nós estamos trabalhando com a hipótese de um fenômeno natural chamado de circulação vertical. No domingo, quando iniciou esse processo [de mortes dos peixes] aqui em Campina Grande, nós tivemos uma ventania muito forte. Como a lâmina de água está baixa no açude, por questão do verão e da evaporação excessiva, essa circulação [de ar] faz com essa pouca água circule fortemente, o que provavelmente levantou a lâmina de esgoto, do material orgânico depositado no fundo deste açude. Provavelmente esta movimentação liberou alguns gases que fizeram com que houvesse essa mortandade de peixes exacerbada”, afirmou a coordenadora de Meio Ambiente, Liliam Ribeiro, em entrevista à TV Paraíba.

A coordenadora também afirmou que a aparição de peixes mortos no Açude Velho é um problema frequente, decorrente, segundo especialistas, de um processo de junção de fósforo e nitrogênio que sufoca os animais nesta época do ano. Além da morte em grande quantidade de peixes, o odor é fortemente presente, e, segundo Liliam, ações já estão sendo tomadas para diminuir o mau cheiro no local.

“O trabalho aqui é incessante. Estamos o tempo todo retirando e monitorando essa matéria orgânica no objetivo de diminuir esse odor. Vamos fazer análise dos peixes, estamos fazendo o levantamento de tecnologias que ajudem a aerar esse açude, que é um local com uma demanda baixa de oxigênio. O prefeito tem estudos e projetos de médio prazo para fazer dragagem e limpeza real desse açude”, afirmou.

Funcionário da Sesuma retira peixes mortos do Açude Velho — Foto: Reprodução/TV Paraíba
Funcionário da Sesuma retira peixes mortos do Açude Velho — Foto: Reprodução/TV Paraíba

Um inquérito foi aberto pela Polícia Civil para investigar o caso. Segundo o delegado Renato Júnior, a situação pode configurar o artigo 54 da Lei de Crimes Ambientais, que trata do crime de poluição ambiental. Além do Instituto de Polícia Científica (IPC), a Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) também foi acionada para a realização de novas análises, com o objetivo de dimensionar a gravidade do problema.

A equipe do IPC esteve no local e realizou a coleta de amostras de água. Os resultados das análises devem ser divulgados em um prazo de até dez dias.

De acordo com a Secretaria de Serviços Urbanos e Meio Ambiente (Sesuma), as ações emergenciais num primeiro momento são a limpeza do Açude Velho, com a retirada do material biológico, e a avaliação para instalar aeradores, que são equipamentos que buscam oxigenar a água.

“Os aeradores já foram adquiridos, estamos só esperando as empresas entregarem, ou seja, é a curto prazo. A gente sabe que precisa investigar fundo, se há um depósito irregular de esgoto, para que a gente não fique enxugando gelo, se a gente não for na fonte e cortar o problema, isso vai se repetir mais cedo ou mais tarde”, disse Liliam Ribeiro.

Biólogo explica fenômeno ambiental no Açude Velho

De acordo com o professor de biologia Ronaldo Justino, após a liberação dos gases e do material orgânico do esgoto no Açude Velho, o local entrou em processo de eutrofização artificial, onde a alta quantidade de substâncias provoca o sufocamento das espécies.

“O processo de eutrofização é uma sucessão ecológica que ocorre na água, que sugere basicamente o aumento da diversidade, o melhoramento das condições do ambiente. Isso é a eutrofização natural, que ocorre ao longo de séculos. No caso de eutrofização artificial, o fluxo é o contrário: o aporte de dejetos, o aporte de efluentes domésticos e industriais favorecem um tensionamento do ambiente e ao invés do aumento da riqueza, você tem a redução de espécies, da disponibilidade de oxigênio, uma série de fatores”, pontua o biólogo.

Conforme analisado por Justino, o processo de eutrofização no Açude Velho, que costuma ser comum nesse período do ano, pode ter se agravado pelo despejo contínuo de matéria orgânica no local desde a sua fundação, em meados de 1830.

“No Açude Velho, os efeitos da eutrofização artificial são recorrentes. Ano após ano, a gente observa que a água fica verde, os peixes sobem à superfície, existe mortalidade, apesar da tilápia ser um peixe muito resistente, mas que resiste a condições de disponibilidade de oxigênio baixíssimas. Esse cheiro podre é característico do metabolismo anaeróbio, quando há o metabolismo das bactérias dessa matéria orgânica em excesso, que vem adentrando ao longo de décadas nesse açude que foi construído em 1830 e vem recebendo matéria orgânica de lá pra cá em proporções crescentes. É como um doente que está em estágio terminal”, analisou Justino.

Além da morte dos peixes e poluição do açude, o biólogo fala que só a investigação aberta pela Polícia Civil em conjunto com os demais órgãos envolvidos pode determinar ao certo quais outros possíveis desequilíbrios o fenômeno do Açude Velho pode desencadear.

“A partir da elucidação do fato que causou essa mortandade massiva de peixes é que a gente vai conseguir produzir um prognóstico mais próprio, mas imagino que se foi a floração de cianobactérias, inclusive as garças que se alimentaram desses peixes podem acabar morrendo e a restituição da vida nesse açude pode demorar um pouco mais de tempo até que esses compostos se dissolvam”, finalizou.

Comerciantes relatam prejuízos após toneladas de peixes mortos no Açude Velho

Comerciantes que trabalham no entorno do Açude Velho, em Campina Grande, Agreste da Paraíba, sentem os impactos do mau cheiro ocasionado pela aparição de toneladas de peixes mortos no local. Desde o último domingo (11), mais de 10 toneladas de peixes mortos já foram retirados do açude, principal cartão-postal da cidade.

Emanuel Laury, que preserva um negócio familiar de 60 anos e há três anos abriu um ponto comercial de frente ao Açude Velho, relata que o local era atrativo comercialmente, mas deixou de receber tantos clientes por conta do mau cheiro e da poluição.

O comerciante afirma que o movimento na loja caiu cerca de 80% desde o agravamento do problema, com a mortandade de milhares de peixes. O estabelecimento tem tentado manter as vendas principalmente por delivery, mas o prejuízo para o faturamento “já é real”.

“Estamos trabalhando por necessidade, mas tanto pela saúde dos clientes quanto pela nossa, o ideal era não abrir, por conta do mau cheiro e tudo que envolve ele. O movimento caiu cerca de 80%. É um número assustador, mas real” , disse o comerciante.

Emanuel relata que o mau cheiro vindo das águas do cartão-postal é recorrente, mas que nunca tinha visto o lugar tão poluído. Ele e outros comerciantes que trabalham na região notaram um agravamento da situação há cerca de uma semana.

“Nessa proporção [de poluição] eu jamais tinha visto, mas o mau cheiro não é de hoje. Inclusive, nossa dedetização, que era quinzenal, ultimamente precisa ser feita duas vezes por semana, por conta dos insetos”, afirmou Emanuel.

Andreza Katia, que também tem um ponto comercial e vende comidas às margens do açude, também lida com prejuízos. Ela disse que os clientes não param mais para comer porque “não aguentam o odor”.

“Um corredor, um ciclista… Todos os dias eles paravam aqui pra tomar água de coco, beber água, tomar café. Eles não aguentam por causa do odor, entendeu? Me prejudicou muito porque eu tenho funcionários pra pagar, eu tenho contas pra pagar (…) As pessoas não aguentam mau cheiro” relatou a comerciante.

Apesar dos transtornos, a comerciante reconhece o trabalho dos mais de 60 funcionários da Secretaria de Serviços Urbanos e Meio Ambiente (Sesuma) que, desde o último domingo (11), já retiraram mais de 10 toneladas de peixes mortos do Açude Velho.

“Eles não mediram esforços. Todos os dias estavam aí limpando, estavam preocupados com a gente também porque viram que a movimentação caiu, que não tinha não tinha cliente aqui”, disse Andreza.

A comerciante, assim como vários outros trabalhadores que frequentam a região, espera que a situação seja resolvida o quanto antes.

“Eu espero que isso não aconteça mais, que as autoridades tomem providência porque querendo ou não não prejudica só a mim. É um impacto para o meio ambiente também”, finalizou.

Pontos turísticos avaliam funcionamento

Além dos pontos comerciais, importantes pontos turísticos de Campina Grande estão localizados no entorno do Açude Velho. Um deles é o Museu de Arte Popular da Paraíba (MAPP), popularmente conhecido como Museu dos Três Pandeiros.

A direção do espaço, que é administrado pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) informou ao g1 que o lugar segue funcionando normalmente, mas ressaltou que o funcionamento será reavaliado continuamente em virtude de uma possível diminuição no movimento de pessoas.

Já o Sesi Museu Digital está fechado para uma manutenção internet. A reabertura do espaço também será avaliada considerando as condições de visitação na região do açude.

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