Presidente de grande siderúrgica dos EUA diz esperar alívio de tarifa de Trump sobre Brasil

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Donald Trump

Barry Schneider, presidente da Steel Dynamics, quarta maior produtora de aço bruto dos Estados Unidos, disse a investidores estar preocupado com as tarifas de 50% impostas por Donald Trump a produtos brasileiros. Essa é uma das primeiras sinalizações dos barões americanos do aço em direção favorável ao Brasil nas negociações com o governo americano.

A Steel Dynamics depende da importação de ferro-gusa para produzir alguns tipos de aço vendidos pela empresa. O produto, feito a partir da redução de minério de ferro com coque, é matéria-prima para a fabricação de aço e, no Brasil, é produzido principalmente em Minas Gerais e no Pará. O Brasil foi responsável no ano passado por 73% das importações desse material para os EUA.

“A tarifa é preocupante. Historicamente, o governo dos Estados Unidos não considerou as matérias-primas como algo que seria tarifado, remontando à fundação do nosso país. As seções 201, 301 e 232 anteriormente não tarifaram o ferro-gusa importado para o país”, disse Schneider a investidores na terça-feira (22).

De acordo com ele, a Steel Dynamic precisou reestruturar seu fornecimento de ferro-gusa após a guerra da Ucrânia. Até então, os russos e os ucranianos eram os principais fornecedores da empresa, mas as sanções contra a Rússia e a queda de produção na Ucrânia impediram o fluxo.

“Na medida em que os ucranianos podem fornecer, estamos felizes em comprar deles, mas transferimos grande parte da nossa produção para o Brasil”, afirmou. “Existem alternativas que podemos explorar, mas continuaremos a trabalhar com o governo e esperamos que haja algum tipo de alívio quando se trata de matérias-primas na estratégia tarifária.”

O comentário de Schneider vai ao encontro da estratégia do governo Lula de estimular empresários brasileiros a mobilizarem seus clientes americanos para que conversem com o governo americano sobre as tarifas.

Joga a favor do Brasil nestas negociações o peso da indústria de aço no jogo político dos EUA. A Nucor, por exemplo, maior siderúrgica dos EUA, é uma das principais compradoras de ferro-gusa do Brasil e tem relações de décadas com os produtores mineiros. A empresa também tem contratos com a Samarco, de quem compra pelotas de minério de ferro extraído em Mariana (MG) –o minério de ferro também deverá ser taxado em 50% a partir de 1º de agosto.

O governo brasileiro deu aval às mineradoras brasileiras para entrarem no radar de negociações pela revisão das tarifas. Na quarta-feira (23), o embaixador interino dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, se encontrou com o diretor-presidente do IBRAM (Instituto Brasileiro de Mineração), Raul Jungmann, para discutir o tema.

O presidente do Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (Sindifer), Fausto Varela Cançado, disse que na segunda-feira (21) alguns de seus clientes conseguiram se reunir com integrantes do governo Trump para tratar do tema.

“Estamos conversando com os americanos para ver se eles podem nos ajudar nas negociações com os EUA. Eles estão dispostos, mas estão aguardando negociação entre os governos, porque a conversa tem que ser de governo com governo nesse primeiro momento”, afirma. “As siderúrgicas americanas têm acesso ao governo, mas o problema é que essa é uma situação atípica de disputa entre governos e, nesse caso, a interferência pode não ser muito bem-vinda”, acrescenta.

O interesse em relação à flexibilização das tarifas sobre o ferro-gusa por si só, no entanto, não é indício de uma movimentação favorável a outros produtos brasileiros, nem mesmo na indústria do aço. As grandes siderúrgicas americanas têm comemorado as tarifas de 50% de Donald Trump sobre todas as importações de aço, uma vez que elas diminuíram a concorrência estrangeira no mercado dos EUA.

Marcio Barbosa, vice-presidente do American Metals Supply Chain Institute, que representa sobretudo os importadores de aço nos EUA, disse que, apesar de o aço semiacabado brasileiro (produzido pela ArcelorMittal) chegar mais caro ao mercado americano, as siderúrgicas americanas lucram com a falta de concorrência para seus produtos finais.

O New York Times relatou nesta semana que tanto a Steel Dynamics quanto a Cleveland-Cliff, segunda maior siderúrgica do país, relataram que cobraram mais por seus produtos no segundo trimestre deste ano do que nos três primeiros meses de 2025. Segundo o jornal, à medida que a chegada de produtos do exterior diminuíram, os produtores dos EUA ganharam mais poder para aproveitar a ocasião e aumentar seus preços, segundo os compradores.

“Como as grandes siderúrgicas não têm mais tanta concorrência e podem subir o preço final, acho que elas não estão preocupadas, mas o problema é que não tem como fazer planejamento dessa forma, porque cada dia tem uma tarifa diferente”, afirma Barbosa.

Segundo ele, desde que Trump aumentou a tarifa sobre o aço de 25% para 50%, não houve mais produtos acabados do setor entrando no país. A brasileira CSN, membro da American Metals Supply Chain Institute, é uma das afetadas –a empresa tem um braço importador nos EUA.

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