Putin quer nacionalizar empresas ocidentais
Compradores em um supermercado em Moscou, segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022. © Distributed by The New York Times Licensing Group
Por Anton Troianovski
Cercado por uma série de sanções que no espaço de duas semanas basicamente ameaçaram 30 anos de integração econômica com o Ocidente, o presidente Vladimir Putin propôs nacionalizar os ativos das empresas ocidentais que se retiram da Rússia e incentivou as autoridades a “agir decisivamente” para preservar empregos.
Com a Rússia em perigo de inadimplência de sua dívida soberana e enfrentando uma forte contração em sua economia, o Ocidente está apostando que a crise econômica iminente e definitiva pode fazer com que os russos se voltem contra seu presidente. Também é possível, no entanto, que a situação acabe fortalecendo Putin, validando sua narrativa de que o Ocidente está determinado a destruir a Rússia.
“Não tenho dúvida de que essas sanções teriam sido implantadas, independentemente do que acontecesse. Assim como superamos dificuldades nos últimos anos, vamos superá-las agora também”, afirmou Putin em comentários televisionados, argumentando que a operação na Ucrânia serviu apenas como pretexto para que os países ocidentais tentem destruir a economia russa.
Mas as sanções impostas desde a invasão – combinadas com a decisão de empresas multinacionais, que empregam dezenas de milhares de russos, de se retirar voluntariamente em meio à indignação global – são bem mais severas que qualquer outra pressão econômica que a Rússia já tenha enfrentado sob Putin.
Com o rublo tendo perdido quase metade de seu valor desde o início da guerra na Ucrânia, o preço dos produtos básicos subiu acentuadamente, causando pânico em relação às compras de supermercado. O banco central, que mantém a bolsa de Moscou fechada desde o início da guerra, introduziu novos controles de capital, impedindo que as empresas retirem mais de US$ 5 mil em dinheiro pelos próximos seis meses. “Esta será uma crise gigantesca e transformadora”, declarou Ruben Enikolopov, reitor da Nova Escola Econômica de Moscou.
O Instituto de Finanças Internacionais, associação de empresas financeiras com sede em Washington, previu que a Rússia veria um declínio de 15 por cento em seu produto interno bruto este ano, o que acabaria com grande parte do crescimento econômico que Putin presidiu desde que assumiu o cargo em 1999.
E as coisas podem ficar ainda piores. Uma nova escalada da guerra pode levar mais países a se recusarem a comprar energia russa, segundo os economistas do instituto, “o que prejudicaria drasticamente a capacidade da Rússia de importar bens e serviços, aprofundando a recessão”.
O alarme com que os planejadores russos veem a desaceleração se reflete nas medidas radicais que propuseram para contê-la.
Particularmente preocupantes são as empresas ocidentais que uma vez simbolizaram a integração da Rússia pós-soviética à economia mundial, como o McDonald’s e a Ikea, que fecharam centenas de lojas e fábricas. Putin disse aos funcionários na reunião televisionada que os ativos dessas empresas devem ser colocados sob “gestão externa” e depois transferidos “para aqueles que querem trabalhar”.
De acordo com Dmitry Medvedev, vice-presidente do conselho de segurança de Putin, o Kremlin pode responder às empresas ocidentais que deixam o mercado russo com a apreensão de seus ativos “e uma possível nacionalização”.
A perspectiva de o Kremlin apreender ativos privados abalou a comunidade empresarial russa. Vladimir Potanin, magnata dos metais que é um dos homens mais ricos do país, divulgou um comunicado alertando que tal nacionalização “nos levaria de volta cem anos, para 1917” – o ano da Revolução Russa, quando os bolcheviques tomaram as empresas privadas à força.
Os oligarcas russos estão enfrentando a própria ameaça a seus bens. O governo britânico impôs novas sanções a sete proeminentes empresários russos, incluindo Roman Abramovich, dono do clube de futebol Chelsea, e Oleg Deripaska, poderoso magnata de mineração.
Nem todos os russos são afetados igualmente pelo deslocamento econômico. Os empregados do setor público e das empresas estatais – que compõem grande parte da base política de Putin – estão relativamente isolados, com seu emprego provavelmente seguro. Em contraste, os russos de classe média cujo emprego e cuja vida estão ligados intimamente à economia mundial, e que já são mais propensos do que o russo médio a se opor a Putin, estão sob maior ameaça.
Alguns advertiram que o risco para o Ocidente é que as sanções esmagadoras poderiam provocar uma reação. “O remédio pode vir a ser pior que a doença, mesmo do ponto de vista dos objetivos declarados. Ninguém está olhando para os efeitos colaterais”, afirmou Enikolopov, argumentando que as sanções podem acabar entrincheirando visões antiocidentais.
À beira do Lago Valdai, no oeste da Rússia, a empresária Tatyana Makarova declarou que apoiava a guerra de Putin na Ucrânia – e que o impacto das sanções só mostra que a Rússia tem sido excessivamente dependente do Ocidente. Dona de uma pequena empresa de limpeza, ela comentou em uma entrevista por telefone que acreditava que a crise econômica finalmente forçaria a Rússia a desenvolver tecnologia caseira.
As opiniões de Makarova são notáveis porque ela havia feito uma longa campanha contra a plutocracia de Putin ao tentar impedir construções ilegais de membros da elite do Kremlin à beira do Lago Valdai, onde Putin tem uma residência. “Talvez isso seja bom para nós. Vai acordar os russos, graças a Deus.”
Essa também é a linha que está sendo seguida pela mídia pró-Kremlin. O “Komsomolskaya Pravda”, tabloide mais popular do país, publicou uma pesquisa on-line que dizia mostrar que os russos não sentiriam falta do McDonald’s: “Mais da metade dos entrevistados prefere comida caseira a fast food”, anunciou o jornal.
Timofey Bordachev, proeminente analista político, escreveu: “A nova Cortina de Ferro que agora desce entre o Ocidente e a Rússia ofereceu ao país uma chance absolutamente fantástica de começar uma vida mais significativa e independente.”
Mas nem todos os russos compartilham esse otimismo. Entrevistas com trabalhadores do setor privado em todo o país na semana passada revelaram um profundo mal-estar e mostraram que a crise econômica já estava afetando empregos e meios de subsistência.
Julia Andriyanova, de 37 anos, foi demitida do cargo de diretora criativa em uma agência de publicidade independente em Moscou que trabalhava com marcas globais. Quando entrou na internet para postar seu currículo, notou que os painéis de mensagens da indústria de criação estavam inundados com os recém-desempregados. Segundo ela, parece a crise econômica dos primeiros dias de pandemia – exceto que agora as perspectivas parecem ainda piores. “Parece que todas as marcas internacionais estão saindo agora. E tenho a sensação de que é apenas o começo.”
c. 2022 The New York Times Company