Quem é MC Vitória, menina de 13 anos que é fenômeno do funk consciente. Vídeo
MC Vitória
Ela é um fenômeno do funk consciente, tem milhares de seguidores e atraiu a atenção de nomes como MC Hariel e Ferrugem. Tudo isso com apenas 13 anos de idade.
MC Vitória viu sua vida mudar nos últimos meses, desde que um videoclipe seu viralizou nas redes sociais, em setembro de 2025. No Instagram, foram mais de 7 milhões de plays na prévia de Se Essa Rua, música em que a menina fala sobre a realidade da favela onde morava, a México 70, em São Vicente, no litoral de São Paulo.
“Se essa rua fosse minha e eu tivesse com as notas / Mandava pavimentar pra não pisar mais na lama”, diz um trecho do refrão. No clipe, Vitória percorre as vielas entre os barracos da México 70, enquanto fala que gostaria de “construir várias casinhas”, com “playground e piscina”.
Quatro meses depois do sucesso, ela agora é agenciada por uma produtora de funk, a GR6, se mudou com a família para uma casa em Praia Grande, e este ano vai estudar em outra escola. Um turbilhão de novidades com as quais a MC ainda vem aprendendo a lidar.
“É difícil porque a gente fica muito acostumado com a favela, mas a casa é bem ‘daora’, é grande e eu tenho um quarto só pra mim. Tá muito daora também ver a felicidade dos meus irmãos. Todo mundo tá podendo ter um espaço mais daora”, disse ela, que conversou com o Metrópoles na sede da GR6, na capital paulista.
Cantora de surpresa
“Pra falar a verdade, eu gostava de maquiagem. Eu tinha até um Instagram de maquiagem. Nunca passava na minha mente que um dia eu ia começar a cantar funk”, afirma a adolescente.
Tudo começou a mudar quando Vitória e alguns amigos começaram a brincar de gravar vídeos cantando músicas de funkeiros. “Nós ‘fazia’ videozinho de palminha na mão, sabe?”, diz ela, mostrando como o grupo, apelidado de “Tropa da Maria”, dava o ritmo das músicas batendo palmas.
Os vídeos começaram a fazer sucesso e um deles alcançou 10 mil visualizações nas redes. Foi dia de festa entre os amigos, e Vitória diz que sua mãe fez até um bolo para comemorar.
Mas foi com o clipe de Se Essa Rua, gravado pelo produtor Douglas Oliveira, que a menina ficou conhecida de vez.
A letra foi escrita por Anderson Lourenço, o “2N”, que compôs exclusivamente para Vitória depois de ver um vídeo em que ela e a mãe contavam suas histórias.
O primeiro hit da adolescente foi um sucesso e o vídeo no Instagram recebeu comentários de famosos como a rapper Drik Barbosa e a cantora Kell Smith. Apesar do marco, essa não é a canção favorita de Vitória. O posto é ocupado por “Alpinista da Lama”. A letra fala em uma mulher, a “alpinista da lama”, que foi “mãe e pai”.
“Minha mãe foi mãe solo de todos os meus irmãos, menos do ‘pequeno’. O mais velho, o pai dele abandonou ele recém-nascido, minha mãe criou ele sozinho”.
A composição, também de 2N, diz que os dias de madeirite estão no fim e que as “goteiras no teto do barraco vão cessar”. No México 70, onde Vitória viveu até poucos meses, sua casa era um barraco tal como o da letra. É por essas e outras que a adolescente diz gostar do gênero funk consciente.
“Tem que mostrar a realidade. Muitas pessoas não mostram a realidade da favela periférica pra ninguém e é isso que eu quero mostrar”, afirma a menina.
Apesar disso, ela diz que também gosta de funks “mais dançantes” e tem como um de seus artistas favoritos o MC Hariel. Os dois já se encontraram uma vez. “Eu não sabia nem o que falar. Parecia que ele era uma estátua, sei lá, que era mentira. Eu fiquei sem reação”.
Funk, esporte e negócio próprio
Na família de cinco irmãos, outros dois, além de Vitória, também gostam de cantar. A mais nova, de 9 anos, prefere os louvores. O outro irmão é MC e tem ajudado Vitória a escrever suas próprias letras. “O Biel já me ajudou a fazer uma música, mas nós nunca ‘lançou’”.
No futuro, ela diz que quer ser cantora ou atleta de muay thai – Vitória é fã do lutador Charles do Bronx. Outra ideia é ter um food truck para vender lanches.
“[Quero] ter um negócio próprio, sabe? Uma coisa pra investir. Tipo um carrinho de lanche, que ia ser meu e da minha mãe. Aí depois ter um salão [de beleza], essas coisas assim.”
Em dezembro, Vitória lançou mais uma música, Velhinho do Trenó, uma parceria com MC Livinho. A letra fala que o Papai Noel esquece as favelas.
“Ele vai nas outras casas de pessoas ricas e lá no México 70, na favela, ele não vai, não dá presente e nada.” No Natal, o mais próximo do Papai Noel eram as doações recebidas pelas crianças.
Agora fora da México 70, ela e a família querem tocar um projeto social na favela para ajudar quem ainda vive ali – e não é lembrado nem pelo bom velhinho.
“Vai ser um projeto que vai ter muay thai, curso de trança, de maquiagem, de dança”, diz a menina. O “Projeto Vitória” também terá distribuição de comida.