Quem são os ‘exvangélicos’, ex-evangélicos que migraram de religião

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Paula Renata Santino, 35, coordenadora pedagógica e ex-evangélica convertida para o candomblé - Rafaela Araújo/Folhapress

Falar de evangélico no Brasil é falar também de conversão em massa. A rapidez com que esse bloco se esparramou pela demografia nacional de fato impressiona, se pensarmos que até o Censo de 1991 a população crente acima de 10 anos não chegava a 1 em cada 10 brasileiros, e no levantamento de 2022 já era 26,9%.

Esse grupo se consolidou como o segundo maior grupo religioso do país, avançando sobre um catolicismo em declive. Com várias gerações já nascidas em famílias evangélicas, o fluxo de novos convertidos diminuiu, e a permanência na igreja deixou de ser automática.

O resultado é uma maior circulação entre crenças —e fora delas. Jovens evangélicos migram para outras denominações, para religiões afro-brasileiras, para o catolicismo ou simplesmente se declaram sem religião, fenômeno que expõe limites de um modelo baseado na expansão contínua e coloca as igrejas diante do desafio de reter fiéis num ambiente de escolhas cada vez mais caleidoscópicas.

Nos Estados Unidos, essa mobilidade gerou o termo “exvangelical”. Ex-evangélicos, traduzindo para a realidade local.

Não que seja uma debandada em larga escala, nem há pesquisas específicas sobre esse contrafluxo. Mas não passou batida, como símbolo dessa contracorrente, a aproximação de um líder pop no segmento com a doutrina católica. Anderson Silva, líder da Igreja em Movimento e da Machonaria, não abandonou o título de pastor e recentemente até pregou no Primícias, célula evangélica organizada por Pablo Marçal.

Ele chamou atenção, contudo, por criticar abertamente aspectos do protestantismo, como uma suposta tendência a rinhas internas. “Nenhum padre briga com outro e abre uma igreja, porque a Igreja é una, santa, católica e apostólica”, disse. Já pastores, segundo ele, vivem se digladiando e criando dissidências.

Especula-se no meio se Silva vai “sair do armário cristão” e se assumir católico. Aconteceu com o auxiliar administrativo Rafael Santos, 25.

Nos anos 2010, o jovem viu um por um da sua família se converter à fé evangélica. Primeiro a mãe, que trocou o kardecismo por uma igreja pentecostal na zona sul de São Paulo. O efeito manada foi forte: pai, tios, primos, “de repente era todo mundo crente”. Ele, inclusive. “Passei sete anos indo ao culto duas vezes por semana. Virei o irmão Rafa.”

Neste ano, Santos “desconverteu”, termo que usa para contar seu retorno ao catolicismo. “Antes eu era o proverbial católico não praticante. Batizado e só. A última vez que tinha ido a uma igreja [católica] foi porque tava uma tempestade do cão, e eu entrei lá para esperar passar.”

Até a morte do papa Francisco, com quem já simpatizava mesmo sendo pentecostal, o deixar reflexivo. O conclave que elegeu Leão 14 o capturou de vez. “Não tem nada parecido no meio evangélico, nada. Sei que o que vou dizer não é apropriado para falar das coisas de Deus, mas foi um baita espetáculo litúrgico, e querendo ou não isso exerce um fascínio.”

Hoje Santos explica assim sua transição religiosa: atravessava um período turbulento. Havia rompido um noivado e falido sua barbearia. Precisava de norte para a vida. Avalia que fez todo sentido se reencontrar numa instituição tão sólida quanto a Igreja Católica, com seus ritos milenares. Um porto seguro se comparado às flutuações de uma religião com um poder bem mais descentralizado, sem nada próximo a um Vaticano para ditar as regras de cima para baixo.

A coordenadora pedagógica Paula Renata Santino, 35, lembra de frequentar desde pequenina templos batistas. O primeiro ficava perto do trabalho do pai, que era zelador no Brooklin (zona sul paulistana). A vida orbitava em torno da identidade evangélica, do namoro à participação no coral da igreja.

Mas aquela “estrutura patriarcal” foi deixando de fazer sentido para ela. “Toda igreja é muito parecida. Machista, misógina.” Começou a incomodar. “Por exemplo, nunca tinha mulheres pregando. Elas ficavam em cargos de cuidado. Na escolinha, na creche com os bebês, para os pais poderem assistir ao culto.”

Também aborrecia o discurso “um tanto agressivo” de que “existia só um único Deus”, ou “aquelas partes mais tradicionais do Antigo Testamento”, como a que fala da mulher vindo da costela de Adão.

Levou os conflitos ao relacionamento, que degringolou de vez. “Meu namorado tinha algumas questões com a forma de ver o sexo. Acontecia. Porém, sempre tinha alguma questão ali da culpa cristã. Isso me incomodava profundamente, porque eu não conseguia ter uma experiência satisfatória.”

Rompeu com ele e também com sua fé. Mais tarde, trabalhando com escolas, a pedagoga se aprofundou nos estudos da cultura afro. Encontrou-se no candomblé.

O universitário Maurício Viana, 22, “tinha muita fé em Deus”, mas não conseguia se conectar com o lado católico da família. Achou-se entre os crentes, e de 2019 a 2023 fez de tudo um pouco na igreja, de operar a mesa de som a passar o slide com as letras do hino gospel da vez.

Acabou “voltando às origens”, o que em parte credita ao entorno cultural. “Aqui na Bahia temos o Senhor do Bonfim, que é a representação de Cristo naquele último momento na cruz. Sempre gostei daquela imagem. Um dia eu fiz uma oração e fui atendido. E aí eu realmente tive essa fé resgatada.”

O crescimento evangélico se alimentou por décadas da conversão de católicos, umbandistas, candomblecistas e outros, aponta a antropóloga Regina Novaes. “Como explicar um movimento inverso?”

Multiplicam relatos de “desconvertidos” como Rafael, Paula e Maurício, que optaram por outra crença ou continuaram a se definir como evangélicos, mas sem frequentar um templo específico —os “desigrejados”.

Essa reacomodação religiosa não espanta a autora de “Os Escolhidos de Deus: Pentecostais, Trabalhadores e Cidadania”. A expansão atingiu um ponto de saturação e não é mais linear, exigindo que essas igrejas disputem espaço em um mercado espiritual cada vez mais fragmentado e mutante, ela diz.

“Os evangélicos agora enfrentam as comparações e as buscas por respostas espirituais que movimentam o campo religioso.” Esse vaivém entre denominações, segundo a antropóloga, “movimenta a vida de muitos que não encontraram em suas igrejas e em seus pastores o que estava prometido”. O que vai, volta.

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