Revogação de tarifas foi avanço, mas 22% das exportações seguem sobretaxadas, diz Alckmin

0
image (4)

Vice-presidente da República, Geraldo Alckmin — Foto: Vinícius Cassela/g1

A retirada de tarifas anunciada pelo presidente americano Donald Trump na quinta-feira (20) foi o maior avanço nas negociações entre Brasil e Estados Unidos desde que o tarifaço foi implementado, mas 22% das exportações brasileiras para o país continuam sobretaxadas em no mínimo 40%, afirmou na sexta-feira (21) o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).

Foram excluídos das tarifas mais de 200 itens agrícolas e da pecuária, incluindo alguns fertilizantes à base de amônia. Mas alguns itens do agronegócio, como pescados, cereais, mel, açúcar e tabaco, continuam sujeitos à tarifa de 40%.

Para Alckmin, o trabalho de negociação com o governo americano ainda não foi concluído, considerando os setores que permanecem sendo afetados, mas caminha com menos restrições.

“Tivemos o maior avanço”, afirmou Alckmin. “Na exposição [do decreto] de motivos do presidente Trump, ele destaca o diálogo que teve com o presidente Lula, que foi importante. Continuamos otimistas e o trabalho não terminou. Ele avança agora com menos barreiras.”

Alckmin afirmou que não há uma nova reunião prevista entre os dois chefes de Estado.

Em comunicado, o presidente americano Donald Trump cita a conversa que teve por videoconferência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e afirma ter ouvido opiniões de autoridades no sentido de que as tarifas não são mais necessárias porque “houve progresso inicial nas negociações com o governo do Brasil”.

O levantamento do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) detalha que 22% das exportações (US$ 8,9 bilhões) estão sob efeito da sobretaxa de no mínimo 40% (em alguns casos, de 50%, já que certos itens ainda pagam a taxa de 10% aplicada a todos os países).

Além destes produtos, 15% das exportações (US$ 6,2 bilhões) estão sujeitos à tarifa global e outros 27% (US$ 10,9 bilhões) continuam enquadrados na chamada Seção 232 (que permite impor tarifas por razões de segurança nacional). É o caso, por exemplo, de aço e autopeças.

Os dados são diferentes dos números levantados pelo setor privado. Cálculos do Centro de Estudos de Negócios Globais da FGV EESP apontam que 40,95% dos produtos vendidos aos EUA continuam pagando tarifa de 50% (incluindo a sobretaxa global de 10%, a penalidade específica do Brasil de 40% e as tarifas específicas da Seção 232). Essa fatia correspondeu a US$ 16,1 bilhões em 2024.

A porcentagem de produtos tarifados aumenta, segundo os dados da FGV, se for considerado o número total de produtos importados. Segundo a instituição, o Brasil exportou 4.252 produtos diferentes em 2024 (de suco de laranja a petróleo). Do total, 3.624 não entraram em nenhuma lista de exceção de tarifas, o equivalente a 85,23% da pauta exportadora do ano passado.

Essa fatia de produtos inclui aqueles penalizados pelo tarifaço e por outras medidas setoriais, como as aplicadas para aço e alumínio.

O professor da FGV responsável pelo estudo, Lucas Ferraz, destaca que alguns dos setores que ainda estão tarifados são os que mais enfrentam dificuldade para encontrar novos mercados.

“Um setor como o de máquinas e equipamentos, que são produtos de alto valor agregado para a pauta brasileira, tem dificuldade de realocar, porque as máquinas são feitas seguindo especificações técnicas e de segurança que dificultam encontrar outro comprador”, observa.

Em nota, o presidente da CNI, Ricardo Alban, afirma que as mudanças recentes sinalizam disposição dos EUA para aprofundar a negociação, o que pode incluir avanços na pauta industrial. “Setores muito relevantes, como máquinas e equipamentos, móveis e calçados, que tinham os EUA como principais clientes externos, ainda não entraram na lista de exceções. O aumento das isenções é um sinal muito positivo de que temos espaço para remover as barreiras para outros produtos industriais. Esse é nosso foco agora”, avalia.

A FGV ainda aponta que a retirada de tarifas desta quinta-feira (20) cobriu 10,21% dos produtos exportados pelo Brasil em valor (US$ 4 bilhões). Café e carne bovina representam 74% desse total isento de sobretaxas.

Ferraz avalia que a retirada de tarifas por parte do governo Trump foi fortemente influenciada pela inflação de alimentos nos EUA. Para ele, isso pode “enfraquecer o senso de prioridade” das negociações com o Brasil, uma vez que a nova medida já deve causar uma queda de preços para o consumidor americano.

About Author

Compartilhar

Deixe um comentário...