Rússia faz ataque massivo ao sistema de energia da Ucrânia
Socorristas tentam extinguir incêndio em residência privada atingida por drone em Kharkiv - Sergei Bobok/AFP
A Rússia atacou cidades e o sistema de energia na região leste da Ucrânia com mísseis de cruzeiro e balísticos e drones na manhã de ontem (25), disseram o ministro da Energia ucraniano e outras autoridades locais. O presidente Volodimir Zelenski descreveu os ataques, realizados no dia de Natal, de desumanos.
Segundo o governo, ao menos 6 pessoas ficaram feridas em um bombardeio a Kharkiv, no nordeste, e 1 pessoa morreu na região de Dnipropetrovsk.
Do lado russo, quatro pessoas morreram e várias ficaram feridas em um bombardeio ucraniano em Lgov, uma cidade na região fronteiriça de Kursk, onde a Ucrânia efetua uma ofensiva desde agosto, informou o governador Alexander Khinshtein.
As forças aéreas ucranianas disseram que Kharkiv foi atacada por mísseis balísticos. O governador da região, Oleh Siniehubov, anunciou “danos à infraestrutura civil não residencial”.
Já o governador de Dnipropetrovsk, Serhii Lisak, disse que o Exército russo estava desde a manhã atacando massivamente a região de Dnipro. “Está tentando destruir o sistema de energia da região”, completou.
Cerca de 500 mil pessoas ficaram sem aquecimento em temperaturas apenas alguns graus acima de 0 ºC, e houve apagões na capital, Kiev, e em outros lugares.
“Putin escolheu deliberadamente o Natal para atacar. O que poderia ser mais desumano? Mais de 70 mísseis, incluindo mísseis balísticos, e mais de 100 drones de ataque”, disse Zelenski. “Os alvos são nossa infraestrutura energética. Eles continuam lutando por um apagão na Ucrânia.”
O ministro da Energia da Ucrânia, German Galushtchenko, afirmou no Facebook que a Rússia “está atacando massivamente o setor de energia” e que o operador do sistema de transmissão impôs restrições ao fornecimento de eletricidade para minimizar os impactos disso.
Mais cedo, ontem (25), o Exército ucraniano havia lançado um alerta aéreo em todo o país em resposta ao lançamento de mísseis de cruzeiro russos.
O Ministério da Defesa da Rússia confirmou que conduziu um “ataque massivo” no que disse serem instalações energéticas críticas que apoiam o trabalho do “complexo industrial militar” de Kiev. “O objetivo do ataque foi alcançado. Todas as instalações foram atingidas”, afirmou a instituição em comunicado.
A Rússia intensificou os ataques ao setor energético ucraniano nos últimos meses, danificando quase metade de sua capacidade de geração de eletricidade e causando apagões prolongados.
A maior empresa privada de energia do país, a DTEK, afirmou que suas usinas foram atacadas, o que causou “danos graves” aos seus equipamentos. “Este é o 13º ataque massivo ao setor energético ucraniano e o décimo ataque massivo às instalações energéticas da empresa só neste ano”, disse a organização no Telegram.
Autoridades locais e a Força Aérea relataram sobrevoos de mísseis nas regiões leste, central, sul e oeste do território ucraniano. Durante um ataque massivo anterior, ocorrido em 17 de novembro, Moscou lançou 120 mísseis e 90 drones, matando pelo menos sete pessoas e causando danos severos ao sistema de energia.
Os ucranianos celebraram pela segunda vez o Natal no dia 25 ontem. Cristãos ortodoxos, eles costumavam festejar a data em 7 de janeiro, quando teria ocorrido o nascimento de Jesus segundo o calendário juliano, utilizado pela Igreja Ortodoxa. Desde o ano passado, porém, os líderes da corrente em Kiev a celebram no mesmo dia que no calendário gregoriano, utilizado pelo Ocidente, em uma tentativa de afastar a influência de Moscou.
A embaixadora dos Estados Unidos na Ucrânia, Bridget Brink, repudiou as ações russas desta quarta, que chamou ironicamente de um “presente de Natal” direcionado “às famílias ucranianas celebrando em suas casas e à infraestrutura energética que as mantém”. A Rússia não comentou os ataques.
Também nesta quarta, detritos de um drone ucraniano abatido na Rússia causaram uma explosão e um incêndio em um shopping na cidade de Vladikavkaz, no sudeste do território, anunciou o governador local, Sergei Meniailo.
Ele escreveu em sua conta oficial no Telegram que os sistemas de defesa aérea abateram o drone às 8h28 do horário de Moscou (2h28 em Brasília). Quatro pessoas teriam morrido, incluindo uma mulher que estava no interior do shopping.

O Ministério da Defesa russo disse que 119 drones ucranianos foram destruídos entre terça (24) e quarta (25). Por sua vez, os militares ucranianos afirmaram que as suas defesas aéreas derrubaram 59 mísseis russos e 54 drones durante a noite de terça e na manhã de quarta-feira.
A Rússia intensificou nos últimos meses seu avanço no leste da Ucrânia, com o objetivo de controlar o máximo de território possível antes da posse do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, em janeiro.
O republicano prometeu encerrar rapidamente o conflito de quase três anos durante a sua campanha eleitoral. Embora ele não tenha delineado nenhuma estratégia específica, especula-se que ele vá sugerir congelar as atuais frentes do conflito, daí o esforço russo por consolidar ganhos em mais territórios.
O Exército russo afirma ter tomado este ano mais de 190 localidades ucranianas, enquanto Kiev luta em meio a carências de homens e de munições.
O papa Francisco pediu em sua mensagem de Natal ontem (25), chamada de “Urbi et Orbi”, para a cidade e o mundo, que as nações envolvidas no conflito no Leste Europeu tenham “a coragem necessária para abrir a porta para a negociação” de cessar-fogo.
Falando da sacada da Basílica de São Pedro, no Vaticano, para as milhares de pessoas aglomeradas na praça abaixo, ele clamou por “gestos de diálogo e encontro, a fim de alcançar uma paz justa e duradoura” e “que o som das armas seja silenciado na Ucrânia devastada pela guerra”.
O pontífice, que celebra seu 12º Natal como líder da Igreja Católica neste ano, também rezou pelo fim dos conflitos na Faixa de Gaza, no Líbano, no Mali, em Moçambique, no Haiti, na Venezuela e na Nicarágua.