Saiba quem é o filho de Ali Khamenei favorito para sucedê-lo como novo líder supremo do Irã

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Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei participando de uma manifestação em Teerã em 2019 - The New York Times

por Folha de S.Paulo

Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá Ali Khamenei, parece ser o favorito para se tornar o sucessor de seu pai.

Mojtaba, 56, é o segundo filho do aiatolá, que foi morto no sábado (28) em um ataque dos Estados Unidos e de Israel. O clérigo nasceu em 1969 em Mashhad, um importante centro religioso no Irã, uma década antes da república islâmica ser estabelecida, em parte por esforços de seu pai, em 1979.

Ele cresceu durante um período de grande mudança política, enquanto seu pai emergia como um clérigo importante que se opunha ao xá Mohammad Reza Pahlavi, que comandava o país antes da revolução. Mojtaba frequentou o colégio Alavi em Teerã, que educa os filhos de muitos funcionários da república islâmica.

Ele ingressou pela primeira vez na Guarda Revolucionária do Irã por volta de 1987, após terminar o ensino médio. Lutou durante o período final da guerra do Irã com o Iraque, que durou de 1980 a 1988, e é conhecido por ter laços com a Guarda, uma das principais instituições do país.

No ano seguinte, seu pai foi nomeado líder supremo, substituindo o falecido aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da república islâmica.

Mojtaba passou a estudar com os principais clérigos do país em Qom —cidade que é um dos principais centros religiosos do Irã— e a lecionar em um seminário local. Nesse período, começou a fortalecer conexões e ganhar prestígio com a liderança religiosa, em parte graças à posição de seu pai.

Segundo o jornal The New York Times, a Guarda tem pressionado os clérigos para que Mojtaba seja o escolhido.

Ele se casou com Zahra Haddad Adel, filha de um político conservador iraniano, Gholam-Ali Haddad Adel. O casamento fortaleceu seus laços dentro da base conservadora do país.

Apesar de sua influência, Mojtaba operava principalmente nos bastidores, dirigindo o gabinete do líder supremo. Ele apareceu nas manchetes apenas ocasionalmente nas últimas décadas.

Em 2005, após o candidato conservador Mahmoud Ahmadinejad ser eleito presidente, reformistas acusaram Mojtaba de trabalhar com líderes religiosos e a Guarda Revolucionária para garantir a vitória de Ahmadinejad, um candidato relativamente desconhecido.

Mehdi Karroubi, um reformista que também disputou o pleito, criticou Mojtaba em 2005, acusando “o filho de um líder” de interferir nas eleições. O líder supremo na época defendeu seu filho, dizendo que ele “é um líder, não o filho de um líder”.

Afirmações semelhantes foram levantadas durante a disputada eleição presidencial de 2009, que levou a protestos em massa após a reeleição de Ahmadinejad.

“Mojtaba é a escolha mais sábia agora porque ele está intimamente familiarizado com a gestão e coordenação dos aparatos de segurança e militares”, disse Mehdi Rahmati, um analista em Teerã. “Ele já estava encarregado disso.”

Rahmati disse que, no entanto, nem todos ficarão satisfeitos. “Uma parcela do público reagirá negativamente e com força a essa decisão, e haverá uma reação contrária”, afirmou ele.

Apoiadores do governo o verão como uma continuação de um governante que consideram mártir e o apoiarão rapidamente, disse Rahmati. Mas opositores também o verão como uma continuação do regime, que nos últimos meses matou centenas de manifestantes.

Em 2024, a Assembleia de Especialistas do Irã se reuniu para planejar a sucessão do líder supremo. O aiatolá Khamenei disse naquela ocasião que seu filho deveria ser excluído da consideração.

A exclusão de Mojtaba se justifica porque sua escolha poderia causar um certo desconforto no Irã. A revolução islâmica de 1979 derrubou o xá e, com ele, a passagem dinástica do poder, substituindo-a pelo governo dos clérigos.

Instalar Mojtaba no cargo que antes era de seu pai poderia irritar iranianos que foram às ruas em protestos recentes em todo o país. Os atos começaram com frustração sobre as más condições econômicas e se transformaram em pedidos de mudança de regime.

Mas selecionar Khamenei enviaria uma mensagem, segundo alguns analistas, de que a linha dura da Guarda Revolucionária permanece no comando, sugerindo aos EUA que pouco mudaria de fato.

Vali Nasr, especialista em Irã e islamismo xiita na Universidade Johns Hopkins (dos EUA), disse que Mojtaba seria uma escolha surpreendente. “Ele estava cotado para se tornar o sucessor há muito tempo”, disse Nasr, “mas nos últimos dois anos, isso parecia ter saído do radar. Se ele for eleito, isso sugere que é o lado muito mais linha-dura da Guarda Revolucionária do regime que agora está no comando.”

Abdolreza Davari, um político próximo a Mojtaba, disse em declarações públicas e em entrevistas ao New York Times que, se Khamenei sucedesse seu pai, ele poderia emergir como uma figura no estilo do líder saudita Mohammed bin Salman.

“Ele é extremamente progressista e vai agir para marginalizar os linha-dura”, disse Davari em uma mensagem de texto antes da guerra. “Veja sua nomeação como uma troca de pele.”

Como funciona o órgão que vai escolher o novo líder supremo

A Assembleia de Especialistas é formada por 88 clérigos xiitas experientes, escolhidos em eleições públicas. De acordo com a Constituição do Irã, o órgão é responsável por nomear, supervisionar e destituir o líder supremo.

Este será o segundo líder supremo que a Assembleia escolherá nos 47 anos de história da república islâmica. Por questões de segurança, as reuniões para escolher o novo líder estão sendo feitas de maneira virtual. Não há prazo definido para que o órgão defina o novo titular do cargo.

Em 1989, a assembleia escolheu Khamenei, entregando-lhe as rédeas de uma teocracia recém-criada. Por mais de quatro décadas, ele governou com poder absoluto e pouca flexibilidade para mudanças.

A esposa de Mojtaba, Zahra Adel; sua mãe, Mansoureh Khojasteh Bagherzadeh, e um filho foram mortos junto com seu pai nos ataques de sábado, disse o governo iraniano.

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