Sem EUA e China, acordo global para fim do carvão sofre baque na COP26
Kwasi Kwarteng, secretário britânico de negócios e energia, discursa na COP26, em Glasgow. Foto: Ian Forsyth/Getty Images
O governo britânico anunciou nesta quinta-feira, 4, que irá eliminar a geração de energia através da queima de carvão e encerrará a com a construção de novas usinas, se juntando a países como Canadá, Chile, Coreia do Sul, Polônia e Vietnã. O acordo global pretendido nesta Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), no entanto, saiu enfraquecido após os Estados que mais consomem o combustível no mundo não aderirem à iniciativa.
Os britânicos, anfitriões do evento sediado em Glasgow, almejavam que a cúpula deste ano fosse conhecida como aquela que baniu o carvão da história. Na quarta-feira, autoridades diziam esperar que 190 países e organizações iriam se comprometer a eliminar as usinas movidas a carvão e parassem de construir novas. O número total de signatários, no entanto, foi bem menor: 46 países e 31 organizações.
O carvão é o combustível fóssil mais poluente e a emissão decorrente de sua queima é o maior contribuinte individual para as mudanças climáticas. Retirá-lo de cena é visto como fator fundamental para alcançar as metas climáticas, inclusive limitar o aquecimento global a apenas 1,5ºC. Mas, sem a presença de China, Índia e Estados Unidos no acordo, o escopo acaba limitado.
Entre as organizações estão bancos como NatWest, Lloyds e HSBC, que concordaram em encerrar o financiamento de projetos de carvão.
O plano prevê a eliminação na década de 2030 nos países desenvolvidos, ou “o mais rapidamente que puderem depois disso”. Nos países em desenvolvido, a transição foi programada para a década de 2040, “ou mais rapidamente possível depois”.
“O mundo está se movendo para a direção certa, pronto para selar o destino do carvão e abraçar os benefícios ambientais e econômicos de construir um futuro movido a energia limpa”, disse Kwasi Kwarteng, secretário britânico de negócios e energia.
Além das preocupações com o meio ambiente, a ideia de ter a imagem associada à queima de carvão passou a ser considerada uma atitude negativa, fazendo com que cada vez mais países ocidentais se mostrassem dispostos a reduzir suas participações nas últimas décadas.
Apesar da mudança de cenário, o material ainda foi responsável por 37% de toda a energia global em 2019. Sua fácil obtenção e abundância na natureza faz com que países como África do Sul, Índia e Polônia ainda dependam majoritariamente dele, exigindo um enorme investimento financeiro para a obtenção de fontes de energia limpa.
“Sabemos que a transição deve ser justa. Novas ferramentas estão surgindo para que isso aconteça. Bancos de desenvolvimento, iniciativas filantrópicas e o setor privado estão apoiando e ajudando países ao redor do mundo”, ressaltou o presidente da COP26, Alok Sharma, sobre o peso financeiro sobre países.
Apesar de a expansão da indústria do carvão ter diminuído ao longo dos últimos anos, o caminho para zerar as emissões ainda pode estar longe. Alguns países ainda planejam a construção de novas usinas, como Vietnã, China e Índia. No caso do Vietnã, ainda não está claro se a promessa feita durante a COP26 afetará os projetos que já estão em andamento.
Os Estados Unidos, sobre comando de Joe Biden, prometeram internamente banir o carvão até 2035, mas não assumiram uma posição clara na COP para evitar desgastes com senadores de áreas onde o uso do carvão ainda é elevado.
A China, por sua vez, chegou a anunciar em setembro que iria parar de financiar a construção dessas usinas no exterior, porém não se comprometeu a fazer o mesmo em seu próprio território. Atualmente, mais de 60% da energia do país ainda vem da queima de carvão e, apesar dos planos de redução, continua construindo usinas termelétricas a carvão. Só nos primeiros seis meses de 2020, construiu mais de 60% das novas instalações do mundo – infraestruturas planejadas para permanecer utilizáveis por décadas.