Sem força militar, bloquear petróleo não bastará para Maduro cair, dizem analistas

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Nicolás Maduro. Foto: Miguel Gutierrez/Agência Lusa

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, enfrenta seu maior desafio até agora após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar um bloqueio das exportações de petróleo sancionadas da nação sul-americana, mas Washington provavelmente precisará de ação militar para derrubar o autocrata de longo mandato, disseram especialistas.

Trump declarou o governo socialista revolucionário de Maduro como uma organização terrorista estrangeira e prometeu “um bloqueio total e completo” de petroleiros que se dirigem para a Venezuela ou que saem dela —as embarcações estão sujeitas a sanções dos EUA.

Para aplicá-lo, ele apontou para navios de guerra dos EUA no Caribe, chamando a implantação de “a maior armada já reunida na história da América do Sul”.

O último movimento de Trump seguiu-se a uma dramática operação das forças dos EUA na semana passada para invadir e apreender um petroleiro na costa venezuelana transportando petróleo avaliado em cerca de US$ 100 milhões (RS 548 milhões, na cotação atual), parte do qual era para o aliado de Maduro, Cuba.

“Não vamos deixar ninguém passar por ali que não deveria estar passando”, disse Trump no último dia 17. Em uma aparente referência à nacionalização da indústria petrolífera da Venezuela pelo predecessor de Maduro, Hugo Chávez, Trump acrescentou: “Eles tomaram todos os nossos direitos energéticos. Eles tomaram todo o nosso petróleo não faz muito tempo, e nós o queremos de volta”.

Outros petroleiros com destino à Venezuela mudaram de direção no meio da viagem, e embarcações esperando para deixar suas águas atrasaram sua partida, relataram empresas de rastreamento de navios.

Aproximadamente 11% dos navios de guerra americanos implantados globalmente estavam no Caribe no dia 15 de dezembro, de acordo com um rastreador de frota do Instituto Naval dos EUA. A Casa Branca explodiu mais de 20 lanchas rápidas que Washington diz estarem contrabandeando drogas, e as tropas americanas sobrevoaram a costa venezuelana com bombardeiros e caças.

A chefe de gabinete de Trump, Susie Wiles, disse em uma entrevista à Vanity Fair publicada em dezembro que o presidente “quer continuar explodindo barcos até que Maduro se renda” —um comentário amplamente interpretado como significando de que a mudança de regime é o objetivo real do republicano.

No último dia 17, a Câmara dos Representantes derrotou por pouco duas resoluções lideradas pelos democratas que teriam exigido que o Congresso autorizasse a campanha de Trump no Caribe, uma sobre os ataques a barcos e a outra acerca de “hostilidades dentro ou contra a Venezuela”.

Edward Fishman, ex-funcionário do governo dos EUA e autor de “Chokepoints”, livro sobre sanções econômicas, disse que o último movimento de Trump marcou uma mudança fundamental de estratégia.

“Impor um bloqueio naval e interceptar a maioria, se não todos, os carregamentos de petróleo da Venezuela, isso me parece um ato de guerra”, disse ele. Um bloqueio “é tipicamente um prelúdio para a guerra, isso não é uma ferramenta de diplomacia”.

Os preços dos títulos da Venezuela subiram à medida que os investidores precificam uma chance maior de que Maduro possa cair. Daniel Lansberg-Rodríguez, da Aurora Macro Strategies, empresa de consultoria, afirmou que a gestão Trump “deixou Maduro mais desequilibrado” do que nunca.

Ainda assim, ele acrescentou: “Maduro está sentado em uma pilha gigante de pólvora úmida. Você está apenas tornando a pilha ainda maior. Mas mais cedo ou mais tarde você precisa de algo para acendê-la. Eu não acho que isso a acenda”.

Maduro sobreviveu a sanções, incluindo aquelas aplicadas à PDVSA (a companhia estatal de petróleo da Venezuela), impostas durante o primeiro mandato de Trump, e ainda tem algumas tábuas de salvação.

Algum petróleo ainda está fluindo. A Chevron, que responde por cerca de um quarto do 1 milhão de barris por dia de produção de petróleo da Venezuela, ainda tem licença para bombear e vender petróleo. A empresa disse que suas operações na Venezuela “continuam sem interrupção e em total conformidade com as leis e regulamentos aplicáveis ao seu negócio, bem como com as estruturas de sanções previstas pelo governo dos EUA”.

Nem todos os petroleiros que transportam petróleo venezuelano estão sujeitos a sanções dos EUA, embora os funcionários estejam trabalhando para adicionar mais à lista mantida pela Ofac (Agência de Controle de Ativos Estrangeiros, traduzido da sigla em inglês) do Tesouro dos EUA. Samir Madani, diretor executivo do site de rastreamento TankerTrackers.com, estimou que 60% da “frota obscura” operada com ajuda russa e iraniana ainda não estava na lista.

“Alguns petroleiros deram meia-volta tanto nos oceanos Índico quanto Atlântico, mas muitos mais ainda estão a caminho porque parece improvável que os EUA persigam quaisquer navios que não estejam na lista da Ofac”, disse Madani.

Uma questão é por quanto tempo a Venezuela pode continuar a produção de petróleo se as exportações forem bloqueadas. A PDVSA disse em um comunicado na quarta-feira (17) que as exportações de petróleo bruto “estão continuando normalmente”, mas uma fonte na empresa foi menos otimista.

“Temos uma capacidade de armazenamento em terra de aproximadamente cinco dias e, no melhor cenário, com mais sete dias no mar, dependendo da operacionalidade de nossa frota”, disse a pessoa, que não estava autorizada a falar com a imprensa.

Guillermo Arcay, pesquisador do Harvard Growth Lab, afirmou que a PDVSA provavelmente acumularia grandes estoques antes de ter que interromper a produção devido à falta dos petroquímicos importados necessários para diluir seu petróleo pesado.

Um petroleiro transportando nafta russa, um diluente, deu meia-volta no começo de dezembro, de acordo com a empresa de inteligência comercial Kpler, embora dois navios transportando a substância tenham atracado na Venezuela em 13 e 14 de dezembro.

Além do petróleo, Maduro também tem outras fontes de moeda forte que não aparecem nas estatísticas oficiais da Venezuela. Mineração ilegal de ouro, contrabando de drogas em aviões e contrabando em geral geram dólares que ajudam a manter a lealdade dos executores do regime nas Forças Armadas venezuelanas e em outras forças de segurança.

Mas os EUA já alertaram as companhias aéreas para que não operem no espaço aéreo venezuelano devido aos riscos elevados da atividade militar.

Em Caracas, o regime de Maduro mantém uma postura desafiadora. Mas nas ruas, o bolívar está se desvalorizando mais rápido do que nunca e os dólares são escassos, enquanto os economistas dizem que a inflação está a caminho de mais de 500% neste ano. E enquanto Cuba resistiu às sanções econômicas dos EUA por mais de 60 anos, há diferenças importantes.

A população da Venezuela é quase três vezes maior e suas elites pró-regime se acostumaram a um padrão de vida muito mais alto do que os revolucionários cubanos.

Havana continua sendo o aliado mais importante e confiável de Maduro —fornecendo sua guarda pessoal e oficiais de contra-inteligência— mas outros aliados internacionais, Rússia, Irã e China não ofereceram forte apoio.

O bloqueio de petróleo de Trump “não é apenas um divisor de águas para a administração Maduro, que agora enfrenta a possibilidade de falência completa, mas também é importante para a aplicação das sanções dos EUA”, disse Christopher Sabatini, especialista em América Latina da Chatham House.

“Não vejo como Maduro pode compensar essa enorme lacuna nas receitas com ouro, drogas e lavagem de dinheiro.”

Mas dado que o regime iniciado por Chávez sobrevive há um quarto de século, poucos estão dispostos a apostar no colapso do ditador venezuelano sem pressão militar dos EUA —algo que Trump pode estar relutante em usar.

Um ex-funcionário dos EUA disse que o presidente americano queria “máxima visibilidade e mínimo risco” com sua política para a Venezuela, mas acrescentou: “O risco aumenta significativamente se eles fizerem uma operação de mudança de regime.”

Fishman, o especialista em sanções, afirmou que a pressão militar é a chave para derrubar Maduro.

“Mudança de regime não é um objetivo viável para sanções”, disse ele. “Há poucos exemplos na história em que a pressão econômica não violenta levou à mudança de regime… Mas quando os EUA procuraram usar a força militar para mudar regimes, seja no Afeganistão ou no Iraque, eles o fizeram. A parte mais difícil é: você pode então controlar as consequências?”

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