Superlotada, registro de morte e inundações: como é a prisão em que brasileira está no Camboja
Brasileira presa no Camboja é vítima de tráfico humano, adoeceu na prisão e família perdeu R$ 27 mil em golpe — Foto: Arquivo Pessoal
A brasileira Daniela Marys de Oliveira está presa no Camboja após suspeita de envolvimento com tráfico de drogas e ter sido vítima de tráfico humano, conforme denuncia a família dela. Nascida em Minas Gerais, mas com um tempo de estadia em João Pessoa, na Paraíba, ela está na prisão Provincial de Banteay Meanchey no país asiático, que tem um histórico de superlotação, registro de morte e até inundações.
A família denuncia que a prisão é injusta, e que Daniela é vítima de um esquema de tráfico humano. Ela foi para o país no Sudoeste Asiático em busca de emprego em janeiro desse ano. O julgamento da brasileira por tráfico de drogas já deve acontecer esta semana, no dia 23 de outubro.
O portal reuniu as principais informações sobre a penitenciária que fica localizada a seis horas da capital do Camboja, Phnom Penh.
Sistema penitenciário superlotado

A prisão Provincial de Banteay Meanchey tem um histórico de superlotação. A mãe de Daniela Marys, Myriam, disse ao g1, que a cela que a filha está é uma das que estão superlotadas, com certa de 90 mulheres no mesmo local.
De acordo com o noticiado pela mídia do Camboja, um levantamento feito em relação as prisões do país, entre elas a que a brasileira está presa, as penitenciárias estão operando acima da capacidade que suportam. O levantamento destaca que a operação está 200% acima do que é suportado, com o número de presos aumentando 23% nas unidades.
Também conforme a mídia local, em dezembro de 2024 cerca de 75% das pessoas presas no Camboja estavam em regime de prisão preventiva e não haviam sido julgadas formalmente por nenhum crime até aquele momento.
Registro de morte em penitenciária
Em março deste ano, um detento de 22 anos morreu na prisão Provincial de Banteay Meanchey, devido a um problema cardíaco e falta de oxigênio no cérebro, segundo a mídia do Camboja. Ele foi preso em 2023, por posse e transporte de armas sem permissão, violência intencional, roubo e uso de drogas ilegais.
Condenado a três anos de prisão e tendo cumprido, até aquela altura, um ano e dois meses de detenção, a família do preso reportou para a mídia local que a morte dele estava associada a superlotação na penitenciária.
Segundo o pai do detento que morreu, o próprio homem disse a ele em uma visita na prisão que as instalações em que estava eram superlotadas.
Histórico de inundações

A prisão Provincial de Banteay Meanchey também tem um histórico de inundações que geram problemas para os detentos recorrentemente. A província onde a prisão está situada, que leva o mesmo nome da penitenciária, fica a noroeste do Camboja e a imprensa do país registra diversas inundações na região que atingiram várias pessoas.
Em 2020, por exemplo, tempestades mataram 18 pessoas e 25 mil tiveram que ser evacuadas de suas casas. Por conta dessas inundações, a prisão de Banteay Meanchey também teve que evacuar alguns detentos à época. A elevação das águas forçou as autoridades locais a evacuar mais de 1.600 prisioneiros.
Anos antes, em 2013, 842 prisioneiros também tiveram que ser movidos de local por conta de outras fortes chuvas que inudaram a região. Conforme a mídia local, o nível da água chegou à altura do pescoço dos detentos.
Naquele mesmo ano, 104 pessoas morreram no país por conta das enchentes. A região é cortada pelo rio Mekong, que com as tempestades transborda e causa os transtornos. Calcula-se que 1,5 milhão de pessoas foram de alguma maneira afetadas pela enchente.
Quem é Daniela Marys

Daniela Marys de Oliveira tem 35 anos e é arquiteta. Natural de Minas Gerais, ela estava morando na capital paraibana João Pessoa desde novembro de 2024.
Segundo a mãe de Daniela, Myriam Marys, a filha fala inglês fluentemente e “não é uma pessoa sem instrução”. Até janeiro de 2025, a arquiteta enviou vários currículos para vagas de emprego na internet e encontrou uma que particularmente chamou atenção: uma vaga temporária para trabalhar como telemarketing no Camboja.
Daniela embarcou para o Camboja no fim de janeiro deste ano mesmo contra a vontade da família. Até fevereiro, mãe e filha se comunicavam normalmente através de aplicativos de mensagem online, mas em março a família começou a receber mensagens suspeitas, enviados por supostos golpistas que se passaram pela brasileira.
Ainda de acordo com a família, os golpistas teriam pedido dinheiro para Daniela pagar uma multa de rescisão contratual no trabalho como telemarketing. O valor da multa, US$ 4 mil, cerca R$ 27 mil, foi transferido, mas depois disso Daniela ligou para a mãe e contou que foi detida injustamente por tráfico de drogas no Camboja.
Segundo informações repassadas por Daniela à família, cápsulas de droga foram colocadas no banheiro do local onde ela morava porque ela havia recusado participar de um esquema de golpes na internet. A brasileira foi presa e está em “uma cela superlotada”, com cerca de 90 mulheres, ainda de acordo com a família.
Daniela está presa há sete meses e deve ser julgada por tráfico de drogas na próxima quinta-feira, dia 23 de outubro. A família da brasileira afirma que ela chegou a adoecer na prisão, e que segue recebendo “respostas protocolares” do Itamaraty, do Ministério das Relações Exteriores.
O que diz o Itamaraty
Em nota, o Itamaraty disse que “tem conhecimento” do caso. No entanto, não deu detalhes do que está sendo adotado como providência para ajudar Daniela no Camboja.
“A Embaixada vem realizando gestões junto ao governo cambojano e prestando a assistência consular cabível à nacional brasileira, em conformidade com o Protocolo Operativo Padrão de Atendimento às Vítimas Brasileiras do Tráfico Internacional de Pessoas”, diz a nota.
De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, em 2024 foi prestada assistência a 63 brasileiros em situação de tráfico de pessoas, dos quais 41 no Sudeste Asiático.