Trump anuncia, mais uma vez, negociação de paz após falar com Putin
Fotos mostram o presidente Trump ao telefone em maio e o russo Putin, no fim de 2023 - Drew Angerer - 19.mai.2025 e Gavriil Grigorov - 27.dez.2023/AFP
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou duas horas e cinco minutos ao telefone com seu colega russo, Vladimir Putin, na segunda-feira (19). Ao fim, fiel a seu estilo, anunciou em rede social que as conversas de paz entre Rússia e Ucrânia “começariam imediatamente” —ignorando que elas foram iniciadas na semana passada.
Coube ao longevo líder russo, em fala a repórteres antes da postagem do americano, explicar as entrelinhas. Putin disse aceitar a negociação de um memorando com os itens que considera essenciais à paz —em outras palavras, seus termos— e só então seria possível discutir o cessar-fogo que Trump tanto pressionava para que ele aceitasse.
Foi a terceira ligação divulgada entre os líderes desde que Trump voltou à Casa Branca, em janeiro, encerrando o rompimento total que marcou a relação das maiores potências nucleares do planeta desde que Putin invadiu a Ucrânia, em 2022.
Segundo Putin disse em um centro educacional do balneário do mar Negro de Sochi, de onde fez a ligação, a conversa foi “produtiva e bem franca”. “Estamos no caminho certo, de forma geral”, afirmou. Ele disse, contudo, que uma trégua é possível apenas “quando certos acordos forem feitos”.
Disse estar pronto para trabalhar em um “memorando de acordo de paz” com os ucranianos, mantendo a posição de só aceitar um cessar-fogo quando o que considera “as causas do conflito” for negociado. Ou seja, manter a Ucrânia neutra militarmente e tomar para si as áreas que anexou ilegalmente em 2022, condições mínimas que já havia divulgado.
O republicano havia ligado antes para o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, e voltou a chamá-lo.
Na rede Truth Social, Trump vendeu uma versão mais otimista e a temperou com promessas comerciais aos russos. “A Rússia quer um comércio de larga escala com os EUA quando esse catastrófico banho de sangue acabar, e eu concordo. Da mesma forma, a Ucrânia pode ser uma grande beneficiária”, disse.
Ele então anunciou que “negociações irão começar imediatamente”. Na verdade, elas haviam recomeçado diretamente entre Kiev e Moscou na semana passada, na Turquia. Disse ter informado Zelenski e aliados, e que o papa Leão 14 disse “estar muito interessado” em sediar as conversas.
Depois, na Casa Branca, Trump afirmou que falou com os europeus para “amarrar a coisa toda”. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, disse que seus pares apoiam a reunião no Vaticano.
Com isso, Trump tenta salvar sua imagem no processo truncado e difícil de negociação. Putin ganha tempo, restando a Kiev aceitar ou não o encaminhamento todo. A primeira sinalização, na forma de uma fala de Zelenski a jornalistas na capital ucraniana, indica que sim.
Ele não criticou os termos da conversa entre Trump e Putin, como já fizera anteriormente. Disse que os EUA estão dispostos a reforçar sanções contra Moscou em caso de violação de um eventual cessar-fogo e que propõe um encontro direto com o russo, o americano e líderes europeus.
De seu lado, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, escreveu no X que é importante o engajamento americano e agradeceu a Trump pelo esforço. Segundo o assessor presidencial russo Iuri Uchakov, ambos, Putin e Trump, querem se encontrar pessoalmente —mas não há, assim como em relação à Ucrânia, um cronograma estabelecido.
O americano vem sinalizando exasperação com a falta de saída para a crise, que busca mediar desde que voltou ao poder. Russos e ucranianos chegaram a se reunir pela primeira vez desde 2022, mas não concordaram com um cessar-fogo.
Nos meios políticos russos, há a sugestão de que os combates só serão suspensos se a Ucrânia de cara abrir mão do que restou sob seu controle dos quatro territórios que Putin tomou: Donetsk, Lugansk, Zaporíjia e Kherson. Kiev rejeita isso.
Pouco antes dos telefonemas, o vice-presidente americano, J. D. Vance, havia dito que a situação havia chegado a um impasse e voltou a dizer que os EUA devem se retirar do processo para tentar acabar com o mais sangrento conflito em solo europeu desde 1945 caso fracassem.
“Nós percebemos que há um pequeno impasse aqui. Sinceramente, acho que o presidente Putin não sabe muito bem como sair da guerra”, disse Vance antes de deixar a Itália. “É preciso dois para dançar um tango. Se a Rússia não estiver disposta, então vamos simplesmente dizer: esta não é a nossa guerra.”
Ele já usou essa terminologia, que sugere o abandono do apoio americano a Kiev, antes, mas não foi endossado por Trump, que busca negociar no estilo vaivém com Zelenski e Putin.
O presidente chegou a congelar o envio de armamentos para os ucranianos, mas ele foi retomado quando Zelenski passou a flexibilizar sua posição, além de aceitar um acordo de exploração conjunta de minerais estratégicos com Washington.
Os EUA são os maiores apoiadores de Kiev. Desde o começo da guerra até o fim de fevereiro, segundo o Instituto para a Economia Mundial de Kiel (Alemanha), Washington enviou sozinha o equivalente hoje a R$ 727 bilhões, ante R$ 875 bilhões de todos os países europeus juntos.
Mais importante, 56% da ajuda americana é militar, em armas. O valor é cinco vezes maior do que o doado pelo segundo maior apoiador bélico da Ucrânia, a Alemanha. Desde a volta de Trump, os países do continente discutem como aumentar o fluxo.
As conversas ocorrem em um momento particularmente violento do conflito. No domingo (18), a Rússia havia lançado o maior ataque com drones contra a Ucrânia na guerra.
Foram disparados 273 aparelhos, com 88 sendo derrubados e 128, caindo sem consequências —provavelmente eram de modelos inertes, sem explosivos e construídos com material barato, que servem para atrair as defesas aéreas e revelar suas posições aos rivais. Nesta segunda, ao menos cinco pessoas morreram em bombardeios no país.
Na via inversa, na segunda-feira (19) um drone matou uma pessoa na região russa de Belgorodo, segundo as autoridades locais. Foi também decretado um alerta de ataque contra o balneário de Sochi, no mar Negro, onde Putin passou o dia em reuniões.