Trump conquista todos os estados-pêndulo e consolida mandato ‘sem precedentes’

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Donald Trump em fevereiro de 2024 — Foto: Sam Wolfe/Reuters

Quando, na madrugada de 6 de novembro, Donald Trump subiu ao palco em West Palm Beach, na Flórida, para dar seu primeiro discurso como presidente eleito dos Estados Unidos, somente a emissora conservadora Fox News havia projetado sua vitória.

Mas a tendência era irreversível, e não demoraria para que outros veículos da imprensa americana chegassem à mesma conclusão: àquela altura, tendo superado Kamala Harris na Carolina do Norte, na Geórgia e no mais importante dos chamados estados-pêndulo, a Pensilvânia, o jornal The New York Times já afirmava que as chances de vitória de Trump superavam 95%.

No discurso, Trump disse que os eleitores haviam lhe concedido um mandato poderoso e sem precedentes: “Nós alcançamos a coisa política mais incrível, uma vitória política que nosso país nunca viu antes.”

No sábado (9), os resultados do último dos sete estados-pêndulo reforçaram a afirmação: o republicano foi vitorioso no Arizona, conquistando assim todos os sete estados-pêndulo da eleição presidencial americana, uma vitória avassaladora no Colégio Eleitoral.

Assim, o empresário superou a adversária democrata lá, na Pensilvânia, Michigan, Wisconsin, Geórgia, Carolina do Norte, Nevada.

Trump é o primeiro presidente eleito a conquistar todos os estados-pêndulo da disputa em ao menos 20 anos. Desde 2004, o que chegou mais perto disso foi Barack Obama, com 4 de 5 conquistados (87% dos 84 delegados do Colégio Eleitoral disputados); o próprio republicano, quando venceu em 2016, abocanhou 75% dos delegados em estados com pleito acirrado.

Os chamados estados-pêndulo (swing states, toss-up states ou battleground states, nos termos mais comumente usados em inglês), são locais em que o resultado eleitoral varia entre os partidos Republicano e Democrata ao longo do tempo. Sua definição não é exata e, portanto, os estados-pêndulo podem mudar a cada ciclo eleitoral.

Analistas e a imprensa consideram um estado como chave para a disputa a cada ano a partir de uma série de fatores. Contam na classificação o quão acirrada está a disputa naquele estado, mudanças sociodemográficas recentes com impacto na escolha partidária e a força política dos postulantes ao cargo para influenciar grupos de eleitores com maior presença em cada estado, entre outros.

Um exemplo claro dessa mudança é a Pensilvânia. O estado, fundamental nas últimas três eleições, com 19 delegados do Colégio Eleitoral em disputa em 2024, deu vitória aos democratas de Bill Clinton, em 1992, até o segundo mandato de Obama. No pleito de 2012, portanto, não era considerado um pêndulo, mas um bastião democrata consolidado.

Em 2024, a atenção dos estrategistas de campanha estava voltada para os sete estados considerados chave para a disputa devido ao peculiar sistema de votação americano. No país, vence quem tiver a maioria dos membros do Colégio Eleitoral —538 delegados distribuídos entre os 50 estados americanos proporcionalmente à população de cada local.

Via de regra, o candidato vencedor em um determinado estado ganha todos os delegados dali. Na prática, porém, o placar não começa no zero a zero, já que muitas regiões são tradicionalmente democratas ou republicanas e, por isso, praticamente ignoradas por estrategistas.

Em Nova York e na Califórnia, por exemplo, candidatos democratas vencem desde 1988 e 1992, respectivamente. Já no Texas, presidenciáveis do Partido Republicano são a preferência desde 1980. Esse cenário faz com que, para fins de análise, a corrida de 2024 tenha começado com 226 delegados garantidos para Kamala e 219, para Trump.

Com esse placar, cada um correu atrás de conquistar os 93 delegados restantes.

Trump conquistou sua vitória após levar alguns deles: bastou ultrapassar a marca de 270 delegados no Colégio Eleitoral. Com vitórias rápidas na Carolina do Norte, na Geórgia e na Pensilvânia, a vitória do republicana já ficou encaminhada.

Ao final, porém, com 312 votos, Trump obteve a maior margem de delegados desde a reeleição de Obama em 2012, e superou sua vitória sobre Hillary Clinton em 2016, quando teve 304 votos no Colégio Eleitoral.

Também se tornou o primeiro presidente republicano em 20 anos a vencer o voto popular —e fez isso ao conquistar eleitores entre os grupos demográficos normalmente associados ao Partido Democrata, como negros e latinos. Esse fato, combinado à alta abstenção de eleitores democratas, ajuda a explicar o bom desempenho de Trump nos estados-pêndulo que lhe garantiram a vitória.

Isso não significa que as margens em cada um dos estados-pêndulo não tenham sido acirradas: na Geórgia, um estado vencido por Biden em 2016 mas com forte eleitorado conservador, Kamala perdeu por cerca de 100 mil votos; em Michigan, estado com o maior número de árabes-americanos do país, a diferença foi de menos de 80 mil votos; e em Wisconsin, um estado tradicionalmente democrata, Kamala perdeu por apenas 30 mil votos.

Este era, aliás, o cenário previsto para todos os estados-pêndulo pela maioria das pesquisas imediatamente anteriores ao pleito, que projetavam um empate técnico, considerando as margens de erro, nesses lugares.

Ainda assim, a derrota em todos os sete estados decisivos não estava precificada pelo Partido Democrata. A sigla, que também perdeu controle do Senado e pode ficar sem maioria na Câmara dos Representantes, vive agora uma crise interna, com trocas de acusações e discussão de um sem-número de cenários hipotéticos nos quais Trump poderia ter sido derrotado.

A característica acirrada da corrida, entretanto, dá argumentos para vozes alinhadas a Nancy Pelosi, principal cardeal do partido e grande responsável pela articulação da desistência de Joe Biden da corrida. Em entrevista ao New York Times publicada no sábado (9), ela insistiu que não houve uma rejeição generalizada do eleitor americano ao seu partido e elogiou a campanha de Kamala.

No Arizona, um estado na fronteira com o México muito impactado pela questão migratória, a campanha republicana teve terreno fértil. Trump reiterou ataques a imigrantes e propostas de deportação em massa e fechamento da fronteira que ressoam com sua base radical, mas também com eleitores mais moderados que veem o assunto com preocupação.

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