Trump diz que EUA vão realizar ação terrestre contra cartéis, sem citar Venezuela

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O secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversam com a imprensa na Casa Branca, em Washington - Jim Watson - 23.out.25/AFP

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse na quinta-feira (23) que haverá “operações terrestres” contra cartéis de drogas latino-americanos “muito em breve”, sem citar a Venezuela. A fala aumenta a pressão sobre o ditador Nicolás Maduro em meio a ataques a embarcações nas águas da América do Sul que já mataram pelo menos 37 pessoas.

Em conversa com a imprensa na Casa Branca, Trump disse que os EUA estão “muito insatisfeitos” com Caracas. Setores importantes do governo americano liderados pelo secretário de Estado, Marco Rubio, defendem que Washington use a força para derrubar o regime de Maduro —a CIA recebeu autorização de Trump para realizar operações secretas em solo venezuelano com esse fim.

Mais cedo nesta quinta, o ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino, disse que operações dos EUA em território venezuelano não terão sucesso. “Poderão inserir não sei quantas unidades designadas à CIA em operações encobertas a partir de qualquer flanco da nação e qualquer tentativa fracassará”.

Em paralelo e frente ao Congresso, a Casa Branca busca fortalecer seus argumentos jurídicos a respeito da legalidade dos ataques contra embarcações que acusa de levarem drogas a território americano. Sem ameaça iminente, o direito internacional só permite ataques contra combatentes inimigos em situações de guerra declarada —o que não é o caso. Além disso, a Constituição dos EUA reserva ao Congresso o direito de declarar guerra.

Ciente dessa limitação, a gestão Trump comunicou ao Legislativo que os EUA estão “em estado de conflito armado” com grupos narcotraficantes da América Latina, classificando as organizações de terroristas.

“Não precisamos fazer uma declaração de guerra”, disse Trump nesta quinta. “Nós simplesmente vamos matar quem tentar trazer drogas ao nosso país.” O presidente também afirmou que as rotas marítimas que levam drogas aos EUA “estão quase mortas” e que os cartéis “não conseguem vir tão rápido por terra”. “E as [rotas] por terra são muito mais perigosas, vocês vão ver isso em breve”, acrescentou.

Trump disse ainda que o Pentágono “sabe tudo” sobre os traficantes. “Sabemos de onde eles saem, quem está nos barcos.” Em outro momento, disse que a Venezuela “esvaziou suas prisões” e enviou criminosos como imigrantes aos EUA.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, comparou as ações no Caribe e no Pacífico aos ataques realizados pelo Pentágono no Afeganistão e no Iraque e disse que as facções narcotraficantes são comparáveis à Al Qaeda e ao Estado Islâmico.

“Se você repensar como entende o mundo em nosso próprio hemisfério, é exatamente isso que essas organizações terroristas estrangeiras são. E nós vamos rastreá-las, mapeá-las, caçá-las e eliminá-las porque elas estão matando e envenenando o povo americano”, disse Hegseth.

Como parte da Guerra ao Terror após o ataque de 11 de Setembro, o Congresso americano de fato aumentou os poderes do presidente dos EUA para permitir ações contra organizações terroristas que a Casa Branca considerasse responsáveis pelo atentado que destruiu o World Trade Center.

A gestão Barack Obama ampliou esse entendimento para atingir organizações terroristas na Líbia, na Somália e em outros países do Oriente Médio sem autorização do Congresso sob o argumento de que esses grupos tinham ligações com a Al Qaeda e que, portanto, sua eliminação era feita em legítima defesa. Em 2013, o governo Obama adotou restrições, exigindo que os ataques tivessem “certeza quase completa” da ausência de vítimas civis e da impossibilidade de captura dos alvos.

Senadores democratas e alguns republicanos questionam a aplicação dessa lei como justificativa aos ataques a embarcações na América do Sul. Entre outras razões, citam o fato de que os supostos traficantes poderiam ter sido capturados, que facções criminosas não são comparáveis a grupos terroristas com objetivos políticos, e que não há provas suficientes de que os mortos eram mesmo traficantes de drogas.

Pelo menos um homem que sobreviveu a um dos ataques e foi repatriado ao Equador acabou liberado pelas autoridades do país. A Procuradoria-Geral equatoriana disse não haver processos judiciais contra ele nem provas de que tivesse cometido qualquer crime em território nacional.

Já a tentativa do governo Trump de argumentar que há um conflito armado entre os EUA e cartéis de drogas também não foi bem recebida pelos parlamentares. No último domingo (19), o senador republicano Rand Paul reafirmou que, se o presidente busca entrar em guerra com a Venezuela, precisa pedir ao Congresso que vote a respeito.

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