Trump suspende tarifas contra Europa e diz que acordo com Groenlândia está encaminhado

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Trump e Mark Rutte, secretário-geral da Otan, durante reunião no Fórum Econômico Mundial, em Davos - Jonathan Ernst/Reuters

Horas depois de dizer que não abriria mão da Groenlândia, mas que descartava o uso da força, o presidente Donald Trump anunciou a abertura de uma negociação com a Otan sobre o tema e suspendeu a aplicação de tarifas contra países que defendem a soberania da Dinamarca sobre o território autônomo.

Ele encontrou-se no início da noite da quarta-feira (21) com o secretário-geral da aliança militar ocidental, o holandês Mark Rutte, em Davos, na Suíça.

Horas antes, Trump havia feito um discurso caudaloso no encontro anual do Fórum Econômico Mundial, no qual disse: “As pessoas acham que eu vou usar a força, mas eu não preciso usar a força. Eu não quero usar a força. Eu não vou usá-la”.

“Estou buscando negociações imediatas para discutir a aquisição da Groenlândia pelos EUA”, completou. O encontro com Rutte foi breve, e ambos não deram declarações públicas. Coube a Trump ir à sua rede social, a Truth.

“Definimos a estrutura de um futuro acordo com relação à Groenlândia e, na verdade, a toda a região do Ártico. Essa solução, se concretizada, será excelente para os EUA e para todas as nações da Otan. Com base nesse entendimento, não imporei as tarifas que entrariam em vigor em 1º de fevereiro”, afirmou.

No sábado (17), Trump havia anunciado as sobretaxas de 10% sobre importações feitas pelos EUA da Dinamarca e de mais sete países europeus que apoiaram Copenhague, inclusive com o envio de pequenos contingentes militares para um exercício visando demonstrar capacidade de defesa da ilha ártica.

A União Europeia havia marcado uma reunião de emergência nesta quinta (22) para discutir como faria a retaliação à medida anunciada. Com o recuo de Trump, talvez mude de ideia.

Não há detalhes sobre qual o arranjo a ser negociado, mas um porta-voz da aliança afirmou que ele ocorrerá no âmbito da Otan “por meio de esforços coletivos dos aliados, em especial os sete aliados árticos”.

Os EUA já têm a maior presença militar na ilha, com uma base remanescente da Guerra Fria que monitora eventuais lançamentos de mísseis nucleares de silos terrestres russos ou chineses usando o atalho do Ártico.

Uma possibilidade é os EUA ampliarem sua presença na ilha estratégica, aproveitando a brecha do tratado que tem com a Dinamarca desde 1951 e que permitiu a existência de outras bases na ilha, que acabaram fechadas.

O jornal New York Times disse, ouvindo pessoas ligadas à negociação, que poderia ser espelhado o modelo usado pelo Reino Unido em Chipre, onde os britânicos têm base que é reconhecida como seu território. Assim, haveria cessão de áreas em torno de novas instalações, segundo esse modelo.

No seu esperado discurso, o americano defendeu a investida sobre a ilha ártica, que novamente chamou de um ativo indispensável para a segurança dos EUA em caso de um conflito com a Rússia ou a China. “Qualquer guerra seria travada lá”, disse.

“Tudo o que eu peço é um grande e belo pedaço de gelo. É bem menos do que recebemos ao longo dos anos. Nós demos à Otan muito e não recebemos nada de volta”, disse Trump sobre a aliança militar ocidental criada pelos EUA em 1949, da qual a Dinamarca é membro fundador.

O chanceler dinamarquês, Lokke Rasmussen, disse logo depois que achou positivo o descarte momentâneo do uso da força, mas ressaltou que “a ambição do presidente continua intacta”.

O republicano lembrou que os EUA ocuparam a ilha quando os nazistas tomaram a Dinamarca em seis horas, em 1940, devolvendo o território a Copenhague ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

A medida visava evitar a chegada de forças alemãs à periferia americana. “Foi estúpido”, disse Trump, dizendo que “a Dinamarca foi ingrata”.

Em 1946, a Casa Branca tentou comprar a ilha, mas a proposta foi rejeitada pelos europeus. “Só queremos esse pedaço de gelo. Se vocês aceitarem, vamos gostar bastante. Se não, vamos nos lembrar”, afirmou, sem elaborar.

Ao mesmo tempo, fez diversas referências ao poderio militar americano, lembrando da captura de Nicolás Maduro na Venezuela no começo do ano e do bombardeio a instalações nucleares do Irã no ano passado. Queixou-se de que a Dinamarca só teria aplicado 1% do prometido em 2019 para a defesa da Groenlândia.

Até aqui, pouco havia ocorrido em termos de negociação: uma delegação dinamarquesa e groenlandesa foi a Washington tentar discutir o caso, mas recebeu do vice-presidente J. D. Vance e do secretário Marco Rubio (Estado) o relato simples: o chefe deles quer a ilha.

“Nenhuma nação ou grupo de nações está em posição de assegurar a Groenlândia além dos EUA”, afirmou, citando a posição estratégica da ilha como o motivo de desejá-la. Trump negou que esteja atrás dos recursos minerais locais, segundo ele de difícil acesso.

As Bolsas subiram após o presidente americano retirar as ameaças de impor tarifas a diversos países da União Europeia. O S&P 500, principal índice de Wall Street, subia 1,2%, com os 11 setores em território positivo. A Bolsa brasileira disparou 3% no pregão.

Na terça-feira (20), o índice americano havia caído 2,1%, no pior desempenho diário desde o início de outubro. O Nasdaq Composite, de forte peso de empresas de tecnologia, também se recuperou da queda do dia anterior, com alta de 1,3%.

As ações de empresas de semicondutores estiveram entre os maiores destaques do dia, com a fabricante de chips Intel chegando a subir até 12%. O governo dos Estados Unidos adquiriu, em agosto, uma participação de cerca de 10% na companhia. Desde então, o preço das ações da Intel mais do que dobrou.

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