Trump vem pressionando por participação do governo em empresas dos EUA e fatia de suas receitas
Trump. - Kent Nishimura - 23.jul.2025/Reuters
Grandes empresas americanas já haviam criado defesas contra nomes como Carl Icahn, Nelson Peltz e outros “corporate raiders” (investidores ativistas agressivos) que sacudiram o mundo corporativo ao pressionar executivos por valorização das ações. Agora, elas têm um novo investidor com quem se preocupar: o presidente dos Estados Unidos.
Donald Trump tem inserido o governo dentro de empresas americanas de maneiras extraordinárias, incluindo a aquisição de participação na US Steel e a pressão para que Nvidia e Advanced Micro Devices entreguem parte de sua receita obtida na China. No mês passado, o Pentágono disse que estava adquirindo uma participação de 15% na MP Materials, uma grande mineradora americana de terras raras.
Na sexta-feira (22), a Intel concordou que o governo dos EUA adquirisse uma participação de 10% em seus negócios, em um aporte avaliado em US$ 8,9 bilhões.
Esses movimentos podem sinalizar uma mudança do aclamado sistema de livre mercado americano para um que se assemelha, pelo menos em alguns aspectos, a uma forma de capitalismo gerenciado pelo Estado mais frequentemente visto na Europa e, em diferentes graus, na China e na Rússia, dizem advogados, banqueiros e acadêmicos versados na história de aquisições hostis e negócios internacionais.
As ações de Trump estão levando advogados e banqueiros de Wall Street a correr para elaborar manuais de defesa ou, ao menos, formas de aplacar as pressões do presidente.
“Praticamente todas as empresas com as quais conversei que recebem regularmente subsídios ou concessões do governo estão preocupadas com isso agora”, diz Kai Liekefett, co-presidente da prática de defesa corporativa do escritório de advocacia Sidley Austin.
Segundo três pessoas a par das discussões, o governo Trump tem lançado uma rede ampla, vasculhando companhias que considera aptas a receber algum tipo de intervenção governamental.
O governo dos EUA já havia assumido participação em empresas antes. A administração Obama comprou ações de bancos e montadoras após a crise financeira de 2008, e tanto Obama quanto Biden usaram subsídios públicos para incentivar tecnologias verdes.
Mas especialistas dizem que o impulso de Trump é diferente —e mais agressivo— do que os Estados Unidos haviam visto antes. As empresas que ele mira não estão à beira do colapso; nem sua eventual quebra, como no caso dos bancos em 2008, representaria ameaça sistêmica à economia global.
“Os Estados Unidos sempre foram cautelosos com a linha que separa o público do privado”, diz Jonathan Levy, historiador e professor da Sciences Po, em Paris, e autor de “Ages of American Capitalism: A History of the United States”.
“A única vez em que essa linha foi suspensa”, acrescentou, “foi em contexto de guerra ou de interesse direto de segurança nacional.”
A Casa Branca insiste que a segurança nacional está de fato impulsionando seus investimentos e contestou a noção de que adquirir participações em empresas criticamente importantes esteja minando os mercados livres.
A Intel, por exemplo, recebeu cerca de US$ 11 bilhões em subsídios dentro do CHIPS Act, lei aprovada de forma bipartidária no governo Biden para reduzir a dependência dos EUA da Ásia na fabricação de semicondutores. O secretário de Comércio, Howard Lutnick, argumentou que, ao assumir participação acionária, os contribuintes americanos terão retorno caso a Intel seja beneficiada.
Para um funcionário da Casa Branca, não se trata de uma fábrica de panelas e frigideiras, e o movimento equivale a algo crítico para a segurança nacional.
Ainda assim, alguns movimentos recentes de Trump representam uma ruptura forte com precedentes históricos. Nos casos da Nvidia e AMD, o governo Trump propôs ditar o mercado global ao qual esses fabricantes de chips podem ter acesso. As duas empresas prometeram dar 15% de sua receita da China ao governo dos EUA para ter o direito de vender chips naquele país e contornar quaisquer futuras restrições americanas.
David Sicilia, professor associado emérito de história da Universidade de Maryland, diz que nunca viu um momento em que os Estados Unidos mudaram sua política comercial para atingir uma ou mais empresas específicas. “A interpretação menos generosa é que se trata de extorsão pelo sucesso.”
Por ora, os acionistas da Intel reagiram positivamente ao aumento da presença do governo. As ações da Intel fecharam com alta de mais de 5% na sexta-feira, quando Trump anunciou que o governo estava adquirindo a participação. As ações de concorrentes como a AMD caíram desde que a notícia do potencial acordo se tornou pública na semana passada, um declínio que os analistas atribuem parcialmente à expectativa de que o governo apoiará a Intel em detrimento de outras empresas de chips.
“Se você olha apenas para o curto prazo, acordos desse tipo podem ser vantajosos, porque de qualquer forma haverá pressão”, diz Sarah Bauerle Danzman, cientista política e professora associada de estudos internacionais na Universidade de Indiana.
Mas, ela adverte, “uma vez que o governo se envolve na tomada de decisões estratégicas, essas escolhas estratégicas não são mais impulsionadas por considerações de mercado”.
Segundo consultores corporativos, o manual atual para empresas que querem evitar o risco de uma intervenção governamental é seguir fazendo o que já estão fazendo para não chamar a atenção de Trump: limpar sites públicos de referências a diversidade, equidade e inclusão, e aumentar as visitas ao presidente em Washington. O CEO do Goldman Sachs, David Solomon, por exemplo, esteve quatro vezes com Trump desde janeiro, de acordo com duas pessoas a par dos encontros —um número incomum para o dirigente do banco.
Especialistas em políticas públicas dizem temer que esse ambiente corroa o princípio de igualdade de condições que consideram essencial para o sucesso de longo prazo do país.
“Quem vai querer investir em empresas que não contam com o apoio do governo?”, questiona Dan Ikenson, economista e especialista em comércio. “O que acontecerá com companhias promissoras que não se curvarem a Trump?”