Ucrânia pronta para ‘grandes batalhas’; papa pede trégua de Páscoa
Um homem acende uma vela em uma sepultura coletiva em Bucha, Ucrânia, 9 de abril de 2022. © Sergei SUPINSKY
A Ucrânia se prepara para travar “grandes batalhas” contra as forças russas no leste do país, novo centro das atenções de uma guerra que dura mais de seis semanas e para a qual o papa Francisco pediu neste domingo (10) uma trégua de Páscoa que permita “alcançar a paz”.
No leste da Ucrânia foram retomadas no sábado as evacuações de Kramatorsk, onde um bombardeio contra uma estação ferroviária lotada de pessoas que tentavam fugir do conflito deixou 52 mortos na sexta-feira.
O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, conversou neste domingo com o chanceler alemão, Olaf Scholz, com quem disse ter acordado que “todos os autores de crimes de guerra devem ser identificados e punidos”, escreveu em um tuíte.
A Ucrânia abriu 5.600 investigações por supostos crimes de guerra cometidos em seu território desde o início da invasão russa, em 24 de fevereiro, e identificou 500 criminosos de guerra, informou neste domingo a procuradora-geral ucraniana, Irina Venediktova, à emissora britânica Sky News.
A procuradora informou que até agora foram encontrados 1.222 cadáveres na região em torno da capital, Kiev, que esteve parcialmente ocupada pelas forças russas durante várias semanas.
Diante deste cenário desolador de morte e destruição, o papa Francisco pediu neste domingo uma trégua pascal para avançar a uma paz “através de uma negociação verdadeira”.
“Deponham as armas! Que comece uma trégua pascal, mas não para recarregar as armas e voltar a combater. Não! Uma trégua para chegar à paz”, disse o pontífice em seu ângelus do Domingo de Ramos na praça de São Pedro, no Vaticano.
O pontífice denunciou uma guerra que “nos coloca diante dos olhos massacres ferozes e crueldades atrozes cometidos contra civis indefesos”. “Que vitória será essa que colocará uma bandeira sobre uma montanha de escombro?”, questionou.
Já o patriarca Cirilo, um dos pilares do regime de Vladimir Putin, pediu à população que se una para combater “os inimigos internos e externos” da Rússia.
“Neste período difícil para nossa pátria, que o Senhor ajude cada um de nós a nos apoiarmos mutuamente, inclusive em torno do governo”, disse o patriarca em uma missa em Moscou.
– Combates e diplomacia –
Zelensky afirmou no sábado que seu país se prepara para “batalhas importantes, alguns dizem que serão decisivas, no leste”, em declarações em Kiev junto do chanceler austríaco, Karl Nehammer.
“Estamos prontos para combater e, paralelamente, tentar acabar com esta guerra mediante a diplomacia”, acrescentou, em alusão às negociações de paz com Moscou.
“A Ucrânia está pronta para grandes batalhas, a Ucrânia pode vencê-las, inclusive no Donbass. Quando isto ocorrer, a Ucrânia terá uma posição negociadora forte, que lhe permitirá determinar certas condições”, declarou, por sua vez, o negociador ucraniano, Mikhailo Podoliak, citado pela agência Interfax.
O chanceler austríaco, Nehammer, que lançou sua própria iniciativa diplomática, afirmou que se reunirá na segunda-feira com Putin, o que segundo seu porta-voz, estava coordenado com “Berlim, Bruxelas e Zelensky”. Ele será o primeiro líder europeu recebido no Kremlin desde o início da guerra na Ucrânia.
No sábado, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson visitou Kiev, onde exaltou a resposta ucraniana à invasão russa e ofereceu enviar armas à Ucrânia, inclusive mísseis Starstreak antiaéreos e 800 mísseis antitanques.
Com milhares de mortos em combates e mais de 11 milhões de pessoas que deixaram suas casas (7,1 milhões de deslocados internos) ou o país (4,4 milhões de refugiados, segundo a ONU), Zelensky pediu ao ocidente para seguir o exemplo do britânico: “Precisamos de mais sanções contra a Rússia. Precisamos de mais armas”.
O líder britânico assegurou que a descoberta de numerosos corpos de civis em cidades ucranianas que estiveram ocupadas por tropas russas “manchou permanentemente” a reputação do presidente russo.
Ao menos dois corpos foram encontrados na entrada da tubulação de esgoto de um posto de gasolina nos arredores de Kiev neste domingo, constatou um jornalista da AFP. Os corpos vestiam um misto de roupas civis e militares.
Uma mulher se aproximou, olhou para o interior antes de cair para trás após reconhecer o corpo do filho pelos sapatos. “Meu filho, meu filho!”, exclamou.
– Aeroporto destruído –
Seis semanas após o início da invasão russa, Moscou se concentra agora no leste e no sudeste da Ucrânia, depois que uma dura resistência frustrou seus planos de tomar a capital, Kiev.
As tropas russas buscam criar uma ligação terrestre entre a península da Crimeia – anexada pela Rússia em 2014 – e os territórios separatistas pró-russos de Donetsk e Lugansk, no Donbass.
Neste domingo, o aeroporto de Dnipro, cidade industrial de um milhão de habitantes, que delimita as regiões orientais do país, voltou a ser bombardeado.
“O próprio aeroporto e as infraestruturas próximas foram destruídas. E os mísseis continuam voando”, escreveu no Telegram o governador regional, Valentin Reznichenko.
– Uma “guerra contra os civis” –
Ao menos dez civis morreram e onze ficaram feridos no fim de semana ao redor e no sudeste de Kharkhiv, no leste da Ucrânia, anunciou neste domingo o governador da região.
Os bombardeios atingiram quatro cidades, informou no Telegram Oleg Synegobov. “Temos conhecimento de dez pessoas mortas, entre elas uma criança, e onze feridos”, acrescentou.
Mais cedo, Synegubov informou que ao menos duas pessoas tinham morrido em um bombardeio e Kharkhiv. “O exército russo segue em uma guerra contra os civis na falta de vitórias no front”, disse.
O prefeito da cidade de Lysychansk, também no leste, Oleksandr Zaika, pediu no sábado que os moradores deixem a cidade.
Outro dirigente do leste, o governador de Lugansk, Sergiy Gaiday, disse em um vídeo que os civis temem deixar a região após a tragédia em Khamatorsk.
“Evacuávamos cerca de 2.500 pessoas por dia, mas agora cada vez há menos, umas 200 hoje”, disse.
“Estou certo de que 20% a 25%” da população de Lugansk continua ali, acrescentou.
Em um comunicado, o Ministério russo da Defesa informou que as autoridades de Kiev e seus aliados ocidentais continuavam fazendo provocações “monstruosas e impiedosas” e assassinando civis na república pró-russa de Lugansk.
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