Última pessoa a usar joia roubada no Louvre era bisneta de Dom Pedro II; entenda a relação
Colar, coroa e brincos da rainha francesa Maria Amélia de Bourbon, que estão entre as joias roubadas por ladrões no museu do Louvre, em Paris, em 19 de outubro de 2025. — Foto: Divulgação/ Museu do Louvre
Um conjunto de joias com safiras e diamantes roubado no domingo (19) do acervo do Museu do Louvre tem uma ligação direta com a história do Brasil. Os criminosos levaram oito joias de grande valor, em uma ação que durou menos de sete minutos.
Em entrevista à GloboNews, a pesquisadora Cláudia Thomé Wiite explicou que as peças passaram pelas mãos de reis e rainhas europeus até chegar à “família imperial brasileira” — e a última pessoa a usá-las foi uma neta da princesa Isabel, bisneta de Dom Pedro II.
“As joias também pertenciam à imperatriz Josefina, primeira esposa de Napoleão. Depois, passaram por herança para a filha dela, que acabou vendendo o conjunto para o rei Luís Filipe, da França. Ele, então, deu esse fabuloso conjunto de safiras para sua esposa, a rainha Maria Amélia de Bourbon”, explica.
A rainha Maria Amélia, por sua vez, era tia da imperatriz Leopoldina, esposa do Imperador Pedro I e Imperatriz Consorte do Brasil. Amélia também é mãe do marido de uma das irmãs de Dom Pedro II.
“As safiras permaneceram na família Orleans e acabaram sendo herdadas por uma neta da princesa Isabel — também chamada Isabel — que se casou dentro da própria família Orleans, com o descendente do trono francês (embora a França já não fosse mais uma monarquia). A última pessoa a usar essas safiras foi justamente essa neta da princesa Isabel. Depois disso, as peças foram vendidas ao longo do século XX para o Museu do Louvre”, completa.
Avaliados em milhões de euros, o conjunto inclui uma coroa com safiras e quase 2.000 diamantes e colar com oito safiras do Sri Lanka e mais de 600 diamantes. Os brincos e um broche da mesma coleção não foram levados.
As autoridades francesas estão em uma corrida contra o tempo para encontrar os ladrões. Na segunda (20), o diretor de uma organização especializada na localização e recuperação de obras de arte roubadas alertou que, se os ladrões não forem detidos nas próximas 24 a 48 horas, as joias roubadas provavelmente “desaparecerão para sempre”.
Roubo no Louvre: joias roubadas valem mais de R$ 550 milhões
As joias roubadas do Museu do Louvre no domingo (19) têm um valor estimado de 88 milhões de euros, o equivalente a mais de R$ 550,2 milhões, anunciou a promotora Laure Beccuau na terça-feira (21).
“O curador do Louvre estimou os danos em 88 milhões de euros”, uma quantia “extremamente impressionante”, mas que “não é de forma alguma paralela ou comparável aos danos históricos”, declarou a promotora em entrevista à rádio RTL.
Saiba tudo sobre o roubo
O famoso Museu do Louvre, no coração de Paris, foi palco de um crime cinematográfico na manhã de domingo (19).
Em uma ação de sete minutos, ladrões entraram no museu por uma janela e levaram oito peças da coleção de joias e pedras preciosas da Galeria de Apolo, onde fica um acervo de relíquias e tesouros da realeza francesa. As peças são avaliadas em milhões de euros.
Ninguém ficou ferido. Nenhum tiro foi disparado. Foi uma operação cirúrgica.
O local teve que ser fechado e os turistas que estavam no local foram retirados imediatamente.
Veja abaixo o que se sabe e o que falta esclarecer sobre o crime que deixou o mundo em choque.
Como foi o roubo?
A invasão ocorreu por volta de 9h30 (no horário local, madrugada no Brasil), cerca de 30 minutos após a abertura do museu.
Segundo as autoridades francesas, ao menos quatro suspeitos participaram do roubo. Dois invadiram o Louvre pela fachada voltada para o Rio Sena usando um guindaste acoplado a um caminhão e arrombaram uma janela. O veículo estava estacionado ao lado do museu.
Dentro da Galeria de Apolo, os ladrões quebraram as vitrines para pegar as joias. Depois, fugiram de moto com os comparsas.
O que foi levado e o que não foi?
Nove peças foram levadas, segundo o Ministério Público da França, mas uma delas já foi recuperada, após ser encontrada danificada em uma rua próxima ao museu.
É a coroa da imperatriz Eugênia, esposa de Napoleão III, composta por 1.354 diamantes e 56 esmeraldas.

Alguns dos itens que permanecem desaparecidos:
- Coroa com safiras e quase 2.000 diamantes.
- Colar com oito safiras do Sri Lanka e mais de 600 diamantes da rainha consorte Maria Amélia.
- Colar e brincos da imperadora Maria Luisa, segunda esposa de Napoleão Bonaparte, com 32 esmeraldas e 1.138 diamantes.
- Broche com 2.634 diamantes da imperatriz Eugênia, esposa de Napoleão III, adquirido pelo Louvre em 2008 por € 6,72 milhões – cerca de R$ 42,2 milhões.

O item mais caro da coleção não foi levado. É o diamante Regent, de 140 quilates, avaliado em US$ 60 milhões (cerca de R$ 377 milhões), segundo estimativas da casa de leilões Sotheby’s.
O que se sabe sobre os ladrões?
Ninguém foi preso até agora, nem identificado. Os investigadores vão avaliar imagens de câmeras de segurança e interrogar funcionários para tentar chegar aos suspeitos.
As autoridades também buscam saber se há envolvimento de algum trabalhador do museu para facilitar a entrada dos ladrões, que usavam coletes amarelos como disfarce.
Todas as hipóteses são consideradas, disse Laure Beccuau, promotora de Paris. Uma das linhas de investigação, segundo ela, é que o roubo tenha sido encomendado por um colecionador.
O envolvimento do crime organizado não está descartado. Neste caso, afirmou ela, as joias poderiam ser usadas em transações para lavar dinheiro de origem ilegal.
“Hoje em dia, tudo pode estar ligado ao narcotráfico, dadas as somas significativas de dinheiro obtidas.”

O que disseram as autoridades?
O presidente Emmanuel Macron, prometeu recuperar as joias roubadas e afirmou que os criminosos serão punidos e “levados à Justiça” em um post na rede social X.
“O roubo do Louvre é um ataque a um patrimônio que prezamos porque faz parte da nossa história. Recuperaremos as obras e os responsáveis serão levados à justiça. Tudo está sendo feito, em todos os lugares, para alcançar esse objetivo, sob a liderança do Ministério Público de Paris”, disse.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, lamentou o crime e afirmou que as peças roubadas tinham um “valor inestimável”.
“Eles claramente fizeram um reconhecimento prévio. Parecem muito experientes. Essas joias tinham valor inestimável, eram um verdadeiro patrimônio”, declarou o ministro.
A ministra da Cultura do país, Rachida Dati, afirmou que ninguém ficou ferido na ação criminosa.
Os relatos de quem estava no museu na hora do crime
A brasileira Aline Lemos Ferreira registrou em vídeo o momento em que fortes pancadas foram ouvidas nas janelas da Galeria de Apolo, pouco antes da invasão. Veja acima.
Aline contou que filmava a entrada da sala e o teto, quando o barulho chamou sua atenção e a fez interromper a gravação.
“Eu estava bem próxima da janela no momento, quando começou um barulho de batidas bem alto. Nesse momento a funcionária da sala já alertou todos para saírem correndo. O museu tinha acabado de abrir, então não tinha quase ninguém nesse salão ainda”, relatou.
Os brasileiros Karen Ligeiro Schlickmann, de 31 anos, e Danilo Carvalho Gomes, de 36, estavam visitando o museu pela primeira vez e contaram que perceberam uma movimentação estranha antes de serem abordados pelos seguranças para deixarem o local.
“Estávamos no nível 1 do museu, indo em direção à sala da Mona Lisa, quando percebi uma correria no sentido contrário. Acabou virando quase que uma manada de pessoas correndo, seguindo para a escada rolante”, contou Danilo.
Qual é a importância do Museu do Louvre?
O Louvre é o museu mais visitado do mundo e tem mais de 33 mil obras no acervo. São tesouros de civizações antigas, mobiliários, esculturas e pinturas de mestres das artes.
O museu recebeu quase nove milhões de visitantes no ano passado, sendo 80% estrangeiros.
A estrela maior do Louvre é a Mona Lisa, obra de arte mais famosa do mundo. O enigmático retrato foi pintado por Leonardo da Vinci, gênio do Renascimento italiano.
A Mona Lisa atrai cerca de 20 mil pessoas diariamente à Salle des États, a maior sala do museu.
Em 1911, a tela pintada por Da Vinci no século 16 desapareceu de sua moldura, roubada por Vincenzo Peruggia, um ex-funcionário que se escondeu dentro do museu e saiu com a obra debaixo do casaco. A Mona Lisa foi recuperada dois anos depois, em Florença.
Também estão entre as principais obras a Vênus de Milo, O casamento em Caná e a Vitória de Samotrácia.
