Vaticano negociou asilo de Maduro na Rússia antes de operação dos EUA, diz jornal
O secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, durante celebração da Sexta-feira Santa na Basílica de São Pedro - Yara Nardi - 18.abr.2025/Reuters
O cardeal italiano Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, procurou representantes americanos na Santa Sé no final do ano passado para tentar mediar um asilo para o ditador Nicolás Maduro na Rússia, diz o jornal The Washington Post.
De acordo com o veículo, a conversa ocorreu na véspera de Natal, quando o religioso convocou Brian Burch, embaixador dos EUA na Santa Sé, para obter detalhes dos planos dos Estados Unidos na Venezuela.
Embora confirme negociações no período natalino, o Vaticano afirmou ao jornal que é “decepcionante que partes de uma conversa confidencial tenham sido divulgadas sem refletir com precisão o conteúdo”. O Departamento de Estado americano não comentou, assim como o porta-voz do Kremlin.
O Washington Post atribui a informação a documentos governamentais e entrevistas com quase 20 pessoas, que teriam pedido anonimato para discutir assuntos sensíveis.
Durante a conversa com Burch na Cidade do Vaticano, Parolin teria perguntado se os EUA realmente buscavam uma mudança de regime e insistido em uma saída pacífica —admitindo, porém, que Maduro precisava sair do poder.
Ele teria dito, então, que a Rússia estava pronta para receber o ditador e pedido paciência aos americanos para evitar instabilidade e derramamento de sangue no país da América Latina. O cardeal, que já atuou como embaixador do Vaticano em Caracas, tem um interesse especial na Venezuela.
O documento sobre a reunião, diz o Washington Post, afirma que Parolin citou o que descreveu como um rumor: a Venezuela havia se tornado uma “peça fundamental” nas negociações entre Moscou e Kiev e a Rússia “abriria mão da Venezuela se estivesse satisfeita com a situação na Ucrânia”.
O cardeal se referia à mudança na correlação de forças no mundo após o início da Guerra da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Segundo analistas consultados pelo jornal, a Rússia, ocupada com o conflito no país vizinho, diminuiu seu apoio à Venezuela nos últimos anos, e a suposta oferta de asilo a Maduro teria sido uma forma garantir um acordo favorável sobre a Ucrânia.
Parolin teria dito ainda que Maduro parecia estar disposto a renunciar após as eleições de 2024, nas quais foi declarado vencedor sem apresentar as provas exigidas pela lei venezuelana. Na época, ele teria sido convencido a permanecer no poder por seu ministro do Interior, Diosdado Cabello, face da repressão do regime.
O cardeal disse estar “muito, muito, muito perplexo com a falta de clareza dos planos finais dos EUA na Venezuela”, segundo os documentos, e pediu que Washington desse um prazo para a saída de Maduro e garantias à sua família.
Dias depois, porém, os EUA bombardearam cidades venezuelanas, incluindo Caracas, e capturaram o líder e sua esposa, Cilia Flores. Ambos estão agora em Nova York para serem julgados pela justiça americana por acusações de narcoterrorismo.
De acordo com o jornal, Maduro pode ter recusado o asilo devido às restrições financeiras na Rússia. Acredita-se que o ditador tenha dinheiro em paraísos fiscais provenientes do comércio de ouro venezuelano, e ele não teria acesso a essas reservas na Rússia.
Segundo na hierarquia do papa, Parolin liderou nas casas de apostas para ser o novo líder da Igreja Católica após a morte de Francisco, no ano passado. Ele era descrito como forte candidato por sua experiência diplomática e por não se comprometer ser aberto a continuar o caminho de reformas iniciado pelo argentino.
A reportagem do Washington Post também fala da tentativa do empresário e dono da JBS, Joesley Batista, de persuadir Maduro a deixar o poder. Ele teria sugerido exílio ao ditador na Turquia.
Batista se reuniu com Maduro no final de novembro com uma lista de quatro pedidos, dentro os quais, a sua saída da Venezuela, acesso americano a petróleo e minerais críticos e o rompimento do país com Cuba.
Segundo o jornal, duas pessoas familiarizadas com o encontro disseram que naquele dia Maduro recebeu uma oferta para ir para o exílio na Turquia ou para outro país disposto a recebê-lo. Procurada pelo Washington Post, a Embaixada da Turquia não se manifestou.
Um acordo de asilo para Maduro na Turquia já vinha sendo negociado anteriormente, de acordo com o jornal, e incluiria garantias de que o ditador não seria extraditado. Mas Maduro e a mulher teriam reagido de forma indignada à proposta.
Batista informou ao governo Trump as conclusões da sua reunião, segundo informou um alto funcionário da Casa Branca ao jornal. Mas, segundo esse mesmo funcionário, ele “não estava trabalhando a pedido dos Estados Unidos”. A informação sobre o encontro de Batista com o Maduro foi noticiada inicialmente pela Bloomberg em dezembro.
Os laços da família Batista com a Venezuela remontam a pelo menos uma década. Há anos, a JBS e Maduro negociaram um acordo de US$ 2,1 bilhões (R$ 11,1 bilhões) para fornecer carne bovina e frango à Venezuela, em um momento em que o país passava por uma grave escassez de alimentos e hiperinflação.
Batista também tem boas relações com Trump. A JBS é proprietária da Pilgrim’s Pride, produtora de frango com sede no Colorado, que doou US$ 5 milhões (R$ 26,5 milhões) ao comitê de posse de Trump, a maior doação individual.
O empresário também atuou para que o governo americano retirasse as tarifas impostas sobre as carnes brasileiras.