Venezuela afirma na ONU ter sido alvo de ataque ilegítimo; EUA dizem que adversários não podem controlar Caracas

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Reunião do Conselho de Segurança da ONU, em Nova York. - Brendan McDermid-05.Jan.26/REUTERS

O Conselho de Segurança das Nações Unidas debateu na segunda-feira (5) a legalidade dos ataques americanos à Venezuela e da captura do ditador Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.

A Venezuela afirmou que foi atacada de forma ilegítima. Já o embaixador dos Estados Unidos, Mike Waltz, negou uma guerra contra Caracas e justificou a prisão com o argumento de que Maduro enriqueceu às custas da miséria dos venezuelanos. Reiterou ainda declarações relacionadas à segurança nacional.

“Não se pode deixar que as maiores reservas energéticas do mundo estejam sob o controle de adversários dos EUA. Esse é o nosso hemisfério. Não se pode transformar a Venezuela em um hub operacional para Irã, Hezbollah, gangues, agentes de inteligência cubanos e outros atores malignos que controlam aquele país”, disse Waltz, sem apresentar provas.

Ele comparou o ataque à prisão de Manuel Noriega, em 1989, no Panamá, e descreveu o ditador venezuelano como um fugitivo e líder de uma organização terrorista estrangeira violenta. Ainda enfatizou que Maduro possui vínculos com redes de tráfico de drogas que utilizam “narcóticos ilegais como arma”, algo que o líder chavista nega.

Por outro lado, o representante da Venezuela, Samuel Moncada, criticou a operação militar americana, afirmou que Maduro foi sequestrado e disse que a ação ameaça não apenas o país, mas todo o mundo.

Brasil, China, Rússia e Colômbia também criticaram os ataques. Sérgio França Danese, que representou o Itamaraty, falou em flagrante violação da Carta da ONU e do direito internacional.

“Os bombardeios em território venezuelano e a captura de seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos constituem uma gravíssima afronta à soberania da Venezuela e estabelecem um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”, afirmou Danese.

A representante da Colômbia, crítica vocal à intervenção dos EUA, afirmou que a ação representou “uma evidente violação da soberania, da independência política e da integridade territorial”. “Constituem, portanto, uma grave violação do direito internacional e da Carta da ONU”, disse Leonor Zalabata.

A Colômbia, membro não permanente do conselho, também tem sido ameaçada pelo presidente dos EUA, Donald Trump. No domingo (4), o republicano disse gostar da ideia de uma operação militar contra Bogotá.

O embaixador da China, Fu Cong, afirmou que está “profundamente chocado” e que “nenhum país pode agir como polícia do mundo”. Já Vasili Nebenzia, que representou a Rússia, disse que não é possível permitir que os EUA se autoproclamem um tipo de juiz supremo, com a liberdade de invadir qualquer país.

“Não há nem pode haver justificativa alguma para os crimes cometidos pelos EUA em Caracas”, afirmou ele. Moscou é alvo de críticas semelhantes devido à guerra contra a Ucrânia, iniciada em 2022.

Waltz, dos EUA, rebateu as críticas. Ele afirmou que, em 2024, mais de 50 países não reconheceram a legitimidade das eleições venezuelanas e consideram que Maduro é um fugitivo da Justiça.

“Ele é o chefe de uma organização terrorista estrangeira violenta, o Cartel de los Soles. Essa entidade, patrocinadora do regime, apoia-se em outras organizações criminosas violentas, como o Tren de Aragua, entre outras, com o objetivo de usar narcóticos ilegais como arma contra os EUA.”

Alinhada ideologicamente a Trump, a Argentina defendeu a ofensiva de Washington. Representada por Francisco Fabián Tropepi, o país disse que a iniciativa foi uma “ação decisiva” e acrescentou que a repressão levou milhões de venezuelanos à pobreza e forçou a fuga de parcela significativa da população.

A sessão de emergência foi agendada após uma solicitação formal da Venezuela, que é a parte afetada, e da Colômbia, que agora é membro do conselho e crítica aos ataques dos EUA. Libéria, Panamá, Letônia, Dinamarca, França, Bahrain, Paquistão, Grécia, Chile, México e Paraguai também se manifestaram.

Na fala de abertura, a subsecretária geral da ONU para Assuntos Políticos, Rosemary DiCarlo, leu uma declaração de António Guterres, o secretário-geral da organização.

“Estou profundamente preocupado com a possível intensificação da instabilidade no país, o impacto potencial sobre a região e o precedente que isso pode estabelecer para a forma como as relações entre os Estados são conduzidas”, disse.

Uma reunião que aconteceu no domingo, comandada pela Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), terminou sem consenso e com apelo da Venezuela por libertação de Maduro.

A organização está rachada e reúne países que apoiam abertamente a ação militar ordenada por Donald Trump, como é o caso da Argentina de Javier Milei. Dessa forma, o encontro de domingo terminou sem a publicação de um comunicado conjunto —algo já esperado por negociadores, justamente pelas posições divergentes já serem conhecidas.

O chanceler chavista, Yvan Gil, afirmou que o governo Trump está interessado nos recursos naturais da Venezuela. Ele disse que Maduro foi sequestrado pelos americanos.

Solução na Venezuela não passa pela criação de protetorados, diz Brasil na ONU

O representante do Brasil nas Nações Unidas, embaixador Sérgio Danese, criticou a operação dos Estados Unidos que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro e afirmou que uma solução para a crise na Venezuela não envolve a “criação de protetorados”.

“O Brasil não acredita que a solução da situação da Venezuela passe pela criação de protetorados no país, mas por soluções que respeitem a autodeterminação do povo venezuelano no marco da sua Constituição”, discursou Danese, durante sessão do Conselho de Segurança das Nações Unidas convocada para debater a ação militar ordenada por Donald Trump.

No sábado (3), horas após anunciar que Maduro havia sido retirado da Venezuela e estava sendo transportado a Nova York, Trump disse numa entrevista coletiva que os EUA governariam o país caribenho por um período até que uma transição seja possível.

Ele também disse que empresas americanas explorariam a indústria de petróleo do país.

O Brasil atualmente não é membro do Conselho de Segurança da ONU, mas pediu para participar da sessão desta segunda (5).

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