Venezuela começa a libertar presos políticos, incluindo estrangeiros; veja nomes já confirmados

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O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez - Gaby Oraa/Reuters

Dias depois do ataque dos Estados Unidos que culminou na captura do ditador Nicolás Maduro, a ditadura da Venezuela começou a libertar presos políticos no país. O anúncio foi feito na quinta-feira (8) pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, irmão da líder interina, Delcy Rodríguez.

Ao longo da tarde de quinta (8), o governo da Espanha confirmou a liberação de cinco cidadãos que se preparavam para viajar ao país europeu.

“O governo espanhol expressa suas condolências a esses cidadãos, suas famílias e amigos. O Ministro das Relações Exteriores, da União Europeia e da Cooperação, José Manuel Albares, conversou pessoalmente com todos eles”, disse o governo espanhol em nota.

“A Espanha, que mantém relações fraternas com o povo venezuelano, acolhe esta decisão como um passo positivo nesta nova fase para a Venezuela”, continuou o comunicado.

Ao anunciar a libertação dos presos, Jorge Rodríguez afirmou que, “para a convivência pacífica, o governo bolivariano, junto com as instituições do Estado, decidiu liberar um número significativo de venezuelanos e estrangeiros”.

“É um gesto unilateral de paz e não foi acordado com nenhuma outra parte”, disse ele. A Casa Branca, por sua vez, escreveu em nota que as libertações são “exemplo da influência” de Trump sobre a nova liderança do país —na quarta (7), Trump disse ao jornal americano The New York Times que os EUA devem supervisionar e extrair petróleo da Venezuela por anos e insistiu que o regime está “dando tudo” o que Washington considera necessário.

Rodríguez acrescentou que “esses processos de liberação estão acontecendo a partir deste exato momento”. Aos jornalistas que acompanhavam o discurso, ele apenas disse, em seguida, que a libertação dos presos ocorreria “em algumas horas”.

O líder do Parlamento disse ainda que “queria aproveitar para agradecer aos que sempre estiveram ao lado da Venezuela para defender o direito a uma vida plena, autodeterminação e paz”, citando o político espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o Qatar.

O parlamentar também afirmou que a pressão do governo de Donald Trump por petróleo venezuelano é algo que faz parte de acordos entre dois governos soberanos que fazem negócios há mais de cem anos e anunciou a instalação de uma comissão de diferentes ministérios para atuar, a partir de instituições de direito internacional, para pressionar pela libertação de Maduro e da primeira-dama.

São as primeiras libertações sob Delcy Rodríguez, que assumiu após a captura de Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em uma operação militar dos EUA, no sábado passado (3). Ambos estão presos em Nova York.

“Esperemos que isso, como bem disse o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, seja uma transformação, um processo de reconciliação nacional e pacificação, e não um simples gesto, como ele também falou”, afirmou Romero, diretor da ONG venezuelana Foro Penal.

Não está claro em que condições essas pessoas serão libertadas e se elas serão submetidas a alguma restrição, como apresentação periódica à justiça, por exemplo.

A ONG estima em 806 os presos por motivos políticos na Venezuela, incluindo 175 militares, 105 mulheres e um adolescente. O número, no entanto, pode ser ainda maior —a organização venezuelana Justiça, Encontro e Perdão, por exemplo, contabilizou mais de mil presos políticos no país em novembro do ano passado.

Segundo o Foro Penal, o regime utiliza estratégias sistemáticas de perseguição política, incluindo desaparecimentos forçados e detenções arbitrárias.

Em dezembro, em uma das últimas detenções antes da invasão americana, a ditadura prendeu um dos dirigentes do partido Vamos Venezuela, liderado por María Corina Machado. De acordo com a sigla, agentes do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional) capturaram Melquiades Pulido García enquanto ele caminhava em Caracas.

Veja quem são os primeiros presos políticos da Venezuela libertados pela ditadura

Segundo a ONG venezuelana Foro Penal, a lista de libertados inclui nomes de peso, como a ativista Rocío San Miguel, presa em fevereiro de 2024, e Enrique Márquez, ex-candidato presidencial.

Veja abaixo quem são os libertados confirmados até a publicação desta notícia, na madrugada desta sexta (9).

  • Rocío San Miguel

Ativista renomada e especializada em questões militares, Rocío, 57, venezuelana filha de espanhóis, foi detida no Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em Maiquetía, em fevereiro de 2024, quando tentava deixar o país.

Rocío se tornou conhecida por ter sido um dos primeiros alvos da perseguição política na Venezuela, ainda sob Hugo Chávez. Em 2004, quando atuava como funcionária no Conselho Nacional de Fronteiras da Venezuela, ela e outras duas colegas foram demitidas após assinarem uma petição a favor de um referendo que votaria a revogação do mandato do então líder.

Na ocasião, Chávez afirmou que o referendo atentava contra a soberania nacional. Na sua mais recente prisão, a ativista foi acusada de traição à pátria, terrorismo e conspiração e foi vinculada ao caso “Brazalete Blanco”, um dos muitos supostos planos para matar Maduro e outras autoridades do país.

  • Enrique Márquez

Candidato à Presidência nas eleições que deram um terceiro mandato a Maduro, em 2024, Márquez foi preso em janeiro de 2025, às vésperas da posse do ditador e após denunciar fraudes no pleito por meses.

Em setembro de 2024, Márquez, conhecido por compôr uma oposição moderada, solicitou à Sala Constitucional do TSJ (Tribunal Supremo de Justiça), a máxima instância do Judiciário da Venezuela, a anulação da sentença que validou a questionada reeleição. O regime nunca publicou a apuração mesa por mesa, como obriga a lei.

“Nossa democracia está ameaçada, está em risco. Nossa República está em risco. A paz e a convivência dos venezuelanos estão violadas”, disse Márquez na ocasião. Ele foi levado por homens encapuzados quatro meses depois, em meio a uma nova onda de repressão no país.

  • Biagio Pilieri

Junto com Márquez, também foi libertado o ex-deputado e opositor do regime chavista Biagio Pilieri. Ele estava detido no Helicoide desde agosto de 2024, segundo seus correligionários. Pilieri foi preso junto com seu filho, após um comício da opositora e vencedora do Nobel da Paz de 2025 María Corina Machado, em Caracas.

“Ele sabia do risco e acompanhou os venezuelanos em Caracas como testemunho de sua responsabilidade e dedicação à causa. O regime perdeu completamente o senso de realidade e isso é mais um sinal de seu colapso. Sem mais prisioneiros! Não há como voltar atrás, e o mundo deve reagir!”, escreveu María Corina naquele momento.


Este texto será atualizado à medida em que novos nomes forem confirmados.

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