Viktor Orbán reconhece derrota, e Hungria encerra 16 anos de premiê no poder

0
image (3)

Viktor Orbán

por Folha de S.Paulo

Em votação histórica, a Hungria compareceu em massa às urnas no domingo (12) para definir seu próximo Parlamento e decretar o fim da era Viktor Orbán, primeiro-ministro do país desde 2010 e ícone da ultradireita global. Com mais de 98% das urnas apuradas, o Tisza, partido do opositor Péter Magyar, liderava a votação, alcançando 138 das 199 cadeiras, maioria crucial na Casa.

“Obrigado, Hungria”, escreveu Magyar no Facebook, seu canal preferido de comunicação durante a campanha. Minutos depois, também pelas redes sociais, Orbán reconheceu a derrota e congratulou o adversário, um gesto que muitos consideravam inimaginável antes do pleito. “Os resultados ainda não são definitivos, mas a situação é compreensível e clara”, declarou, mais tarde, aos jornalistas.

Em quatro mandatos, Orbán, 62, um líder político anticomunista que abdicou do liberalismo para se aferrar ao poder com um conservadorismo populista, transformou a Hungria na prática em uma autocracia. Submeteu Poderes, perseguiu adversários, fechou jornais —cerca de 80% da imprensa do país está sob sua influência. Tornou o sistema eleitoral refém do Fidesz, seu partido, com mudança de distritos e votos de húngaros étnicos no exterior, até então redutos.

“Liberamos a Hungria, retomamos nossa pátria”, declarou Magyar, em sua primeira entrevista, prometendo trabalhar por uma transição tranquila. A maioria de dois terços lhe proporciona capacidade para reverter o retrocesso democrático e reformas do antecessor.

Para superar tantos obstáculos, os húngaros tiveram que ir às urnas em uma quantidade recorde (quase 78%), uma mobilização centrada em Magyar, 45, um político pró-Europa e Otan, dono de uma campanha que explorou os diversos indícios de corrupção da gestão atual, assim como a debilitada situação econômica do país. A “democracia iliberal” de Orbán, festejada por aliados internacionais como Donald Trump e a família Bolsonaro, administrou mal a Hungria durante esse período.

O país ostenta a maior inflação da Europa desde a pandemia, em 2020, acumulados 58%, mais que o dobro da registrada na média da União Europeia, 28%. A ostentação de riqueza de oligarcas ligados a Orbán também incomodava a população, sobretudo os eleitores jovens, público que vinha garantindo a popularidade de Magyar nos últimos meses.

Não por acaso, em uma tentativa de última de hora de movimentar a campanha do aliado, o presidente americano prometeu ajudar na recuperação econômica da Hungria. O vice, J. D. Vance, cumpriu visita oficial a Budapeste na última semana, afirmando que a UE interferia na eleição.

“A Hungria escolheu a Europa”, escreveu no X Ursula von der Leyen. A presidente da Comissão Europeia, assim como Volodimir Zelenski, presidente da Ucrânia, aparecia em cartazes da campanha de Orbán, retratados ao lado de Magyar e sob uma tarja que os classificava de “perigosos”.

Sinal dos tempos, o destino de Orbán também preocupava o presidente russo, Vladimir Putin. O primeiro-ministro era uma das únicas pontes que lhe restavam na UE. No capítulo mais recente da relação, escrutinada por uma série de denúncias na imprensa nas últimas semanas, o húngaro vetou um empréstimo de € 90 bilhões do bloco para a Ucrânia, provocando indignação em Bruxelas.

Magyar, que estrategicamente deixou a guerra da Ucrânia e Putin de lado na campanha, promete zerar as relações com a UE. Não que tenha grandes simpatias por Kiev, mas porque a Hungria, punida pelos danos ao Estado de Direito causados por Orbán, tem cerca de € 20 bilhões de fundos europeus congelados.

Para a UE, que considera Putin um risco existencial e ainda lida com a ambiguidade de Trump na procura de uma solução para o conflito, a saída de Orbán é um presente, comemorado abertamente pelos principais líderes do continente na noite deste domingo. “Uma vitória para a Hungria e também para a democracia europeia”, escreveu Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido.

Para a ultradireita europeia, até o ano passado um fenômeno em ascensão, uma nova derrota, em curto espaço de tempo. Antes de Orbán, um resultado muito aquém do esperado nas eleições municipais da França e, na Itália, o veto em plebiscito de uma tentativa de reforma do Judiciário em que a primeira-ministra Giorgia Meloni se empenhou pessoalmente.

Precedida por uma série de alertas negativos, a eleição húngara se deu de maneira tranquila no domingo. Os adversários votaram quase na mesma hora, no começo da manhã.

“Nenhum patriota pode ficar em casa”, afirmou Orbán, replicando o tom nacionalista de sua campanha, voltada para questões externas. Magyar, por sua vez, reiterou o caráter decisivo da eleição. “O destino da Hungria está sendo decidido hoje e por um longo tempo.” O advogado e eurodeputado, que já fez parte do Fidesz, legenda conservadora de Orbán, lembrou que “fraude eleitoral é um crime sério”.

Comentava os indícios da participação de serviços de inteligência russos na campanha de Orbán. Segundo avaliação da comissão do Parlamento Europeu que monitora o retrocesso democrático na Hungria, além de desinformação, as atividades patrocinadoras por Moscou poderiam incluir compra de votos, como ocorreu no ano passado na Geórgia, intimidação de eleitores e até mesmo episódios de violência.

“Ninguém deve ceder a qualquer provocação. Temos certeza de que, se esta eleição ocorrer de forma tranquila e dentro da lei, ela será vencida pelo Tisza e pela Hungria”, afirmou Magyar, citando o nome do partido que fundou.

“A Hungria tem uma Constituição, e ela precisa ser respeitada. A decisão do povo precisa ser respeitada”, disse Orbán, quando questionado sobre eventuais tentativas de desqualificar o pleito.

Até o fechamento das urnas, às 19h locais, não foram registrados maiores incidentes.

About Author

Compartilhar

Deixe um comentário...