Violência de gangues avança no Haiti e expõe fracasso do Estado e da Minustah
Motociclista passa em frente à pintura de brigada de segurança, no Cabo Haitiano - Nathalia Dunker - 4.fev.25/Folhapress
Pelo menos 1.247 pessoas foram assassinadas e outras 710 ficaram feridas no Haiti de 1º de julho a 30 de setembro de 2025, segundo dados recentes das Nações Unidas. O cenário de violência é agravado por uma relação fluida e sobreposta entre gangues, grupos de autodefesa e forças estatais no país. Além disso, em setembro, 1,4 milhão de haitianos estavam deslocados de suas casas.
Segundo o relatório da ONU, 30% das mortes foram atribuídas à violência de gangues, 9% à atuação de grupos de autodefesa, e 61% às operações das forças de segurança.
A crise econômica, a insatisfação política, o vácuo de poder e a baixa capacidade de governança ampliaram a influência das facções criminosas —fenômeno que se aprofundou após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021.
Trata-se de um círculo vicioso: as gangues haitianas surgem sobretudo a partir de grupos comunitários de segurança, formados para suprir a ausência do Estado —enfraquecido, por sua vez, por esses centros de poder paralelos.
“O narcotráfico não é central no modelo de financiamento desses grupos”, afirma o pesquisador Pedro Braum, da ONG Viva Rio, que tem atuação em Porto Príncipe. “Sua principal fonte de recursos é o controle territorial, a extorsão e os resgates por sequestros.”
Chamadas de bases ou brigadas, essas estruturas surgem quando moradores se organizam para garantir a proteção do bairro. Wesley Belotte, líder de uma base comunitária da cidade de Milot, no norte do país, afirmou ao jornal Folha de S.Paulo que as associações locais promovem eventos recreativos, assumem pautas políticas e pressionam o poder público por demandas que incluem, por exemplo, o fornecimento de energia elétrica.
Criadas inicialmente para autodefesa, essas organizações também desempenham funções culturais, políticas e de reivindicação territorial —e podem, com o tempo, transformar-se na semente de novas gangues.
“A ordem pública foi privatizada pelas gangues”, afirma o sociólogo Jean Casimir, da Universidade Estatal do Haiti. Na ausência de um Estado funcional, as brigadas ganharam apoio de autoridades locais e de parte da população, frustrada com um sistema judicial paralisado.
A situação se deteriorou ainda mais a partir de 2024, quando as gangues obrigaram o então primeiro-ministro, Ariel Henry, a renunciar. O país, que não realiza eleições desde 2016, passou a ser governado por um Conselho Presidencial de Transição, incapaz de conter a escalada da violência.
Inicialmente dispersas, as gangues passaram a se articular em plataformas e formaram a coalizão Viv Ansanm, que enfrenta as forças de segurança e faz ataques em larga escala.
Em resposta ao agravamento da crise, o Conselho de Segurança da ONU aprovou, no fim de setembro, uma resolução que reforça a Missão Multinacional de Segurança (MMAS) —criada em 2023 e liderada pelo Quênia—, transformando-a em uma força mais robusta para tentar frear o avanço dos grupos paramilitares.
Em 2024, as Nações Unidas já haviam denunciado pessoas acusadas de crimes graves contra centenas de crianças: 213 foram assassinadas, 138 ficaram feridas, 566 foram vítimas de violência sexual, e 302 foram recrutadas por gangues.
Entre a população deslocada, o número de crianças que precisou sair de casa quase dobrou no último ano, chegando a 680 mil, segundo relatório da Unicef divulgado em outubro. São menores de idade que podem estar sozinhos e buscam refúgio em edifícios abandonados, escolas ou abrigos improvisados sem água potável nem saneamento.
As condições são propícias para a propagação de doenças, em particular a cólera —que chegou ao país em 2010 por meio de soldados da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah).
Para o professor da Unicamp Omar Thomaz, a atual crise de segurança no Haiti é outro importante legado dessa operação, que durou de 2004 a 2017 e foi liderada pelo Brasil.
“A parte civil da missão, encabeçada pelo Chile, contribuiu para fragilizar ainda mais instituições já debilitadas, enquanto o componente militar —sob comando do Brasil e voltado ao combate às gangues— acabou produzindo o efeito de empoderar esses grupos criminosos.”
“O Haiti foi inserido na rede internacional de tráfico de armas após a Minustah, o que mudou a configuração da violência no país” afirma Thomaz. Apesar de ser a maior operação militar brasileira desde a Guerra do Paraguai, pouco se sabe sobre atuação das Forças Armadas no território haitiano. Não houve responsabilização por eventuais crimes cometidos ou inquérito sobre práticas durante a intervenção.
Para Pedro Braum, a frustração social eclodiu em 2018, pouco depois da retirada da Minustah, quando o governo aumentou em 50% o preço dos combustíveis. O reajuste detonou o movimento “Pays Lock” (“país fechado”), canalizando um descontentamento generalizado que abriu espaço para a expansão dos grupos armados.
Contrabando dribla sanções e impulsiona entrada de armas no Haiti
O Haiti vive hoje uma de suas piores crises de segurança, marcada pela expansão da violência e pela incapacidade do Estado de retomar o controle territorial —um conflito alimentado pela entrada constante de armas de fogo no país. Embora a nação não fabrique armamento nem munição, estima-se que de 270 mil a 500 mil armamentos ilegais circulem em seu território, segundo dados da ONU.
A violência armada se prolifera apesar do embargo imposto em 2022 e renovado em 17 de outubro de 2025 pelo Conselho de Segurança, que proíbe o fornecimento, venda ou transferência de armamentos e assistência militar a indivíduos ou grupos envolvidos na violência.
Mesmo assim, as armas continuam entrando por portos, aeroportos e pela fronteira com a República Dominicana —além do desvio de armamento originalmente destinado às forças de segurança haitianas. A fiscalização frágil e os altos níveis de corrupção agravam o cenário.
O porte de armas, mais permissivo do que no Brasil, somado ao colapso da segurança pública, levou inclusive setores da população civil a se armarem. Além disso, há a presença de seguranças privados e milícias contratadas para a proteção dos mais ricos.
A polícia haitiana afirma que gangues e facções já controlam cerca de 90% da capital, Porto Príncipe, impondo bloqueios, cobrando pedágios ilegais e desafiando abertamente as autoridades.
Jimmy “Barbecue” Cherizier, da coalizão de gangues Viv Ansanm, enviou uma mensagem às autoridades após sobreviver a um ataque com drone em março: “Tenham cuidado. Eu posso comprar o que vocês compram”.
As armas chegam ao país escondidas em cargas mistas, frequentemente declaradas como produtos humanitários ou comerciais. Uma rede bem estabelecida conecta portos dos EUA —especialmente Miami e Nova York— ao Haiti, muitas vezes passando por território dominicano. Em fevereiro de 2025, uma remessa interceptada na fronteira incluía rifles de precisão, uma submetralhadora Uzi e mais de 36 mil munições.
O jornal Financial Times apurou que muitas dessas armas são facilmente compradas na Flórida —onde as leis estaduais permitem adquirir grandes quantidades de armas e munição sem barreiras significativas— e enviadas ao Haiti por empresas de navegação com baixa supervisão.
No primeiro semestre de 2022, autoridades do porto de Haina Occidental, na República Dominicana, apreenderam mais de 112 mil unidades de armas e munições, quase todas enviadas de Miami, segundo relatório da ONU.
Levantamentos da plataforma CargoFax mostram ainda que, de julho de 2020 a março de 2023, ao menos 34 carregamentos partiram de portos dos EUA com destino a haitianos que hoje estão na lista de sanções americana.
O país, devido ao seu relativo isolamento internacional, havia permanecido historicamente à margem das redes globais de tráfico de drogas e armas, afirma o professor Omar Thomaz, da Unicamp.
Esse cenário mudou com a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), liderada pelo Brasil, que inseriu o Haiti na rede internacional de tráfico de armamentos —alterando de forma permanente a configuração da violência no país, acrescenta.