
O dono do liquidado Banco Master, Daniel Vorcaro, vai negociar a inclusão do seu cunhado, o pastor e empresário Fabiano Zettel, no seu acordo de delação premiada, que ainda está sendo traçado por sua equipe de advogados.
As investigações da Polícia Federal apontam Zettel como uma espécie de operador financeiro de Vorcaro, responsável pela gestão de fundos de investimento e pagamentos dos mais diversos tipos. Periodicamente, ele apresentava a contabilidade dos gastos a Vorcaro e pediu autorização para efetuar as despesas.
Entre os pagamentos operados por Zettel revelados até agora pela investigação da PF estão, por exemplo, os repasses ao resort Tayayá, que tinha participação acionária de uma empresa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, e ao “sicário” Luiz Phillipi Mourão, que comandava um braço armado para ameaçar adversários e também era responsável por invasão de sistemas de investigação.
De acordo com interlocutores da família de Vorcaro, a ideia é que Zettel seja incluído no acordo para apresentar seu relato sobre os fatos que testemunhou e obter benefícios do ponto de vista penal. Os familiares do ex-banqueiro afirmam que o cunhado atuava apenas mediante o cumprimento de ordens e tinha papel secundário nos fatos sob apuração.
Ele é casado com Natália Vorcaro, irmã do ex-banqueiro. A família tem demonstrado preocupação especial com a prisão de Zettel porque eles têm uma filha de dois anos e Natália atualmente está grávida.
Natália chegou a ser alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero sob acusação de se beneficiar de desvios de fundos do Banco Master. O pai dela e de Vorcaro, Henrique, também aparece nas investigações dentro desse mesmo contexto. Por causa disso, há a expectativa de que o acordo de Daniel Vorcaro contemple benefícios para seu pai e sua irmã, retirando-os do foco das investigações.
Um formato semelhante foi adotado, por exemplo, na delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid. O acordo assinado com o STF garantiu que seu pai e sua esposa fossem excluídos das investigações da PF.
Atualmente preso na Superintendência da PF em Brasília, Vorcaro passou os últimos dias conversando com seus advogados para iniciar a formatação do seu acordo de delação premiada. Ainda não houve a apresentação de uma lista dos temas a serem abordados na delação, os chamados “anexos” do acordo.
Apenas com esses anexos prontos é que Vorcaro pode dar prosseguimento à negociação das condições do acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal, o que inclui a discussão sobre tempo de prisão e devolução de recursos.
De acordo com interlocutores, nesse momento também deve ser colocada na mesa a inclusão do nome de Zettel e dos familiares nas cláusulas do acordo. Essa intenção já foi sinalizada aos investigadores.
A definição do tempo de prisão a ser cumprido vai depender das provas apresentadas por Vorcaro e da sua posição hierárquica nos fatos. Caso ele seja de fato considerado o líder de uma organização criminosa, a legislação sobre colaboração premiada impede que ele receba como benefício um perdão judicial. Dentro desse contexto, ele poderia ser contemplado com redução de dois terços da pena ou substituição por uma pena restritiva de direitos.
Executivos do banco devem manter defesa separada
Enquanto os familiares de Vorcaro devem ser contemplados em seu acordo, o desenho atual é que os ex-executivos do Banco Master continuem exercendo suas defesas de forma independente. Alguns deles chegaram a ser presos na primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro.
Até o momento, nenhum deles foi procurado por interlocutores do ex-banqueiro para traçar uma estratégia em conjunto.
Em depoimentos já prestados à PF, os executivos ressaltaram que não tinham conhecimento de fraudes e afirmaram que realizaram ações na gestão do banco sob ordens de Vorcaro. Por isso, suas defesas avaliam que não haveria motivo de buscar um acordo de delação.
Dono da Reag também busca delação
O acordo de Vorcaro deve acelerar também a negociação de delação premiada do dono da gestora de investimento Reag, João Carlos Mansur.
Esses dois acordos devem ser negociados de forma separada, mas são considerados complementares pelos investigadores.
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Um dos advogados que conduz a delação de Vorcaro, o criminalista José Luís de Oliveira Lima, também está à frente das tratativas do dono da Reag.
Ao final, entretanto, caberá à PGR e à Polícia Federal decidir quais acordos irão aceitar. Isso vai depender do nível das provas oferecidas e do ineditismo dos relatos.
